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Mercado de Vinhos no Japão Tem Crescimento Rápido com Foco em Vinhos Naturais

A produção no país mais que dobrou em 16 anos e atrai importadores que buscam vinhos com terroir bem definido

6 min

O vinho japonês está ganhando força. Em 2024, havia 493 vinícolas no Japão, um salto em relação às 238 registradas em 2008, mais que o dobro em 16 anos, segundo o governo local. Hoje, as vinícolas estão presentes em 46 das 47 províncias do país, o que indica que praticamente todas têm potencial para a produção de vinho. Alguns importadores americanos já perceberam esse rápido desenvolvimento do vinho japonês.

Um deles é a Direct Import Vines (D-I Wine), importadora de vinhos naturais com sede em Nova York.

“O que amamos no vinho japonês é como ele reflete a profunda dedicação do país ao artesanato, à precisão e à sutileza. O mesmo cuidado meticuloso com os detalhes que definem a culinária e o design japoneses aparece nas vinhas e nas adegas”, disse Bretton Taylor, fundador da D-I Wine. “Os enólogos extraem com atenção sabores delicados e expressivos de uvas nativas como a Koshu e a Muscat Bailey A”, afirma.

A empresa começou a importar vinhos japoneses em 2021 e atualmente possui um portfólio de oito vinícolas em cinco regiões diferentes. Uma delas é a Coco Farm & Winery, fundada em 1958 pelo educador Noboru Kawada com o objetivo de oferecer um trabalho para pessoas com deficiência intelectual. Todos os vinhos são produzidos com uvas cultivadas no Japão e não são utilizados fertilizantes químicos nem herbicidas nas vinhas. Leveduras selvagens naturais são o principal método de fermentação na vinícola. O vinho da Coco Farm já foi servido em cúpulas do G7 e nas classes executiva e primeira da Japan Airlines.

“Nos últimos anos, começamos a receber cada vez mais consultas de exportação do exterior. Parece haver interesse na expressão clara e delicada das uvas nos vinhos japoneses, frequentemente com um suave umami, que harmoniza bem com a culinária japonesa e com outros tipos de gastronomia”, afirma Shoko Ochi, diretora de comunicação da Coco Farm.

“Dentro do Japão, existe uma ampla variedade de micro terroirs. As fazendas com as quais trabalhamos os expressam lindamente”, afirma. Para destacar a diversidade e o caráter de cada microterroir, a Coco Farm compra uvas de produtores naturais em todo o país, além de cultivar em seus próprios vinhedos nas províncias de Tochigi, Yamagata e Hokkaido.

Com isso, a empresa produz vinhos com cerca de 30 variedades diferentes, como a nativa Muscat Bailey A, a Tannat (uva do sul da França) e uvas internacionais como Pinot Noir e Chardonnay.

Um exemplo é o Zweigelt 2019 da Coco Farm, que tem características marcantes. Produzido com a uva austríaca cultivada no clima frio de Hokkaido, apresenta notas de cassis, cereja preta e canela, com um leve toque apimentado. Há uma sutileza terrosa no final, que confere ao vinho uma identidade unicamente japonesa.

Por que a indústria do vinho cresceu tão rápido no Japão

Um dos motivos da produção de vinho no Japão ter tido um crescimento tão acentuado foi a criação de distritos especiais para produção de vinho pelo governo japonês em 2002. Nessas áreas, o volume mínimo de produção para as vinícolas caiu de 6 mil para 2 mil quilo litros, desde que os produtos sejam feitos com uvas cultivadas na própria região. A nova regulamentação facilitou significativamente a abertura de vinícolas a um custo mais baixo.

Tom-Kichi/Getty ImagesUma das variedades de uva mais cultivadas no Japão é a Koshu

Além disso, em 2003 foi criado o Japan Wine Competition, onde vinhos feitos com 100% de uvas cultivadas e vinificadas no Japão são avaliados e ranqueados por um comitê formado por profissionais e acadêmicos do setor.

Organizado por províncias produtoras e pelo governo japonês, o concurso tem como objetivo reconhecer a qualidade do vinho japonês. A edição anual tem mostrado uma ampla variedade de produtos de alta qualidade e inspirado vinícolas em todo o país a buscar níveis mais elevados.

Outro fator é que os vinhos japoneses começaram a ganhar prêmios importantes nas maiores competições internacionais, como a IWSC – International Wine & Spirit Competition, o Decanter World Wine Awards e o International Wine Challenge. O sucesso no mercado global também estimulou novos empreendedores a ingressarem na produção de vinho no Japão.

O dinâmico mercado de vinhos naturais

Para aqueles que apreciam um vinho natural, vale a pena ficar de olho no que está acontecendo no Japão. “Tóquio é um dos mercados de vinho mais dinâmicos do mundo. Lá, sommeliers, chefs e apreciadores de vinho consomem e celebram o vinho natural”, afirma Taylor.

“Como importadores de vinho natural, nosso maior concorrente é o Japão. Encontramos alguns vinhedos minúsculos na França que dizem que não exportam, exceto para os japoneses”, afirma ele. “Buscamos descobrir novas vinícolas na França, e quando vemos, os importadores japoneses já estiveram lá. Às vezes, eles descobrem vinhos franceses que nem os parisienses conhecem ainda.”

Refletindo o entusiasmo e o esforço dos importadores japoneses, os consumidores também demonstram interesse pelo vinho natural. Em uma pesquisa realizada em 2024 com 1.500 pessoas entre 20 e 70 anos — 50% homens e 50% mulheres —, 23,1% dos entrevistados disseram ter interesse em consumir vinho natural. Curiosamente, apenas 15,7% demonstraram interesse em vinhos orgânicos ou biodinâmicos, o que sugere que o público se sente mais atraído pela diversidade de estilos e pela expressão autêntica do terroir presentes nos vinhos naturais.

Não há dados precisos sobre quantos produtores de vinho natural existem no Japão, como a Coco Farm, mas uma loja virtual especializada lista 350 rótulos de vinhos naturais produzidos no Japão. Embora o número ainda seja pequeno, ele indica que o segmento já consolidou seu espaço no mercado doméstico.

O vinho natural japonês também parece ter potencial para se destacar no mercado global. “É um produto relativamente novo no cenário internacional, mas já está construindo uma identidade única, que combina tradição, inovação e uma profunda conexão com o lugar de origem”, diz Taylor. “O que mais nos entusiasma é a forma como os vinicultores japoneses estão mesclando variedades nativas com técnicas modernas de baixa intervenção, sempre com uma abordagem cultural baseada na precisão e na humildade”, completa.

O resultado são vinhos sutis, mas expressivos, geralmente com menor teor alcoólico, umami evidente e um verdadeiro senso de atmosfera. “São vinhos que sussurram, não gritam. É uma categoria que recompensa a atenção e a curiosidade. Acreditamos que ela está apenas começando”, conclui.

* Akiko Katayama é colaborador da Forbes EUA, onde escreve sobre comida e cultura japonesa.

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