Paulo Groke Jr.: conheça o engenheiro guardião de florestas

No dia do engenheiro florestal, saiba no que acredita o diretor superintendente do Instituto Ecofuturo, que faz a gestão de uma área de 7.000 hectares mantida pela Suzano

Vera Ondei
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Paulo Groke Júnior, 62 anos, é a voz da Suzano no Instituto Ecofuturo, uma área de Mata Atlântica de 7.000 hectares preservados

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O Parque das Neblinas, um trecho da Mata Atlântica que fica nos municípios de Bertioga e Mogi das Cruzes, no litoral paulista, tem 7.000 hectares de matas nativas que se tornaram um santuário. O parque é lugar de onças, quatis e até o sapinho pingo-de-ouro, espécie descoberta no local pela ciência. As árvores nativas passam dos 30 metros, como as palmeiras e os cambucis mães que já cederam sua genética para projetos de arborização urbana na cidade de São Paulo. Mas, mais que isso, essa área do parque é um exemplo global de RNA (Regeneração Natural Assistida), meio termo entre a recuperação natural e o semeio de árvores.

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As terras foram desmatadas pela indústria siderúrgica nas décadas de 1940 e 1950, desde meados dos anos 1960 é um espaço que pertence à Suzano, uma das maiores empresas de base florestal do mundo, explorando cerca de 1,3 milhão de hectares de florestas plantadas de eucalipto, além de cerca de 1 milhão de hectares de áreas de matas preservadas. A Suzano começou a revitalizar a área nos anos 1980. O guardião desse movimento, por meio do Instituto Ecofuturo, atende pelo nome de Paulo Henrique Groke Júnior, 62 anos, engenheiro florestal formado em 1983 pela Esalq/USP (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz), em Piracicaba (SP). “Na época em que me formei havia cerca de sete universidades que ofereciam o curso”, diz Groke, que é o diretor superintendente do instituto Ecofuturo. Confira a entrevista que ele concedeu com exclusividade à Forbes, para falar da profissão que escolheu. O Dia Mundial do Engenheiro Florestal é lembrado todo dia 12 de julho, desde 1951. 

Forbes: Quando decidiu na vida que seria engenheiro florestal?

Paulo Groke: Meu pai era o que se chama, hoje, de uma personalidade de espírito mateiro, né? Toda minha infância foi muito povoada de experiências em ambientes naturais, que naquele tempo, nas décadas de 1960 e 1970, significava também pescar e caçar. A convivência, e capacidade que meu pai me passou, de contemplar e de admirar, porque mesmo na caça não havia exagero, havia a reverência pela natureza. Aos 16 anos comecei a fuçar cursos que poderiam me dar esta oportunidade de conviver, ou de trabalhar, com conservação ambiental. E no curso da  Esalq tinha duas disciplinas que, embora não fossem ministradas no início do curso, pensei: “é isso que eu quero fazer,  manejo de área e fauna silvestres”. Logo no primeiro ano eu perturbei tanto os professores para ser estagiário, que eles cederam, e foi assim que eu comecei a trabalhar.

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Área do Parque das Neblinas tem 7.000 hectares

F: Como era vista a profissão, numa época em que conservação ambiental ainda era um tema de pouca atenção? 

PG: Eu te conto como eu era visto. Porque os cursos de Engenharia Florestal tiveram uma expansão muito grande no Brasil, com a precursora Viçosa (MG), depois a Federal do Paraná e a Esalq. Foi para colocar profissionais no mercado, para expandir a base florestal plantada no país como um plano de incentivo governamental de expansão de florestas plantadas. Faltavam profissionais para atuar, mas eu estava interessado na parte ambiental de um curso focado para essa cultura da floresta plantada. Os colegas brincavam, me chamavam de guarda florestal, de pegador de borboleta.

F: Conseguiu emprego na sua área ao sair da Esalq?

PG: Sim, em uma empresa gigante do setor. E já no meu segundo emprego  fui contratado para criar uma área de meio ambiente florestal, que não era tão gigante assim, mas que se tornou gigante, que foi Suzano, para onde vim em 1988. Isso, depois de cinco anos de formado. A Suzano queria criar a área de meio ambiente florestal, mas queria alguém com alguma experiência e havia poucos  profissionais com experiência ambiental dentro do setor florestal. 

F: A profissão mudou muito nas últimas décadas?

PG: Mudou, mas não falo da essência. As ferramentas mudaram o conceito do que é fazer engenharia florestal, mas não do ser engenheiro florestal.

F: Explica o que era ser engenheiro florestal lá atrás e hoje, do ponto de vista dessas ferramentas.

PG: Eu tinha dificuldade de me aperfeiçoar até em função da grade curricular essencialmente voltada à produção. Hoje, a formação é muito mais sistêmica. Olha-se para todas as necessidades da área Florestal, e as certificações internalizaram essas preocupações, por exemplo com questões sociais e culturais. Nas décadas passadas, de 1960 a 1980, as empresas eram chamadas a levar o desenvolvimento para áreas carentes, como o Vale de Jequitinhonha (MG), Sul da Bahia, fazendo florestas plantadas. E era um modelo de soberba. Hoje, há uma maneira mais cuidadosa, entendendo que o engenheiro florestal – ele e a empresa que ele atua – são apenas mais uma dor naquele contexto regional. Sim, o engenheiro é um ator importante, mas não é o único que existe.

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Suzano tem 1,3 milhão de hectares de florestas plantadas (acima) e 1 milhão de hectares de áreas de vegetação nativa

F: Quais atributos e habilidades um jovem interessado em ser engenheiro florestal precisa ter ou desenvolver?

PG: Existe uma causa inicial que é a motivação, o gosto pelo campo e pelo ambiente natural.  Mas nem tudo na engenharia ambiental é barro na bota. É preciso ter atração também pela gestão. Todos os engenheiros florestais que conheço têm senso de agregação. Possuem a sensibilidade da agregação, talvez pela profissão ter começado com pouca gente, todo mundo conhecia todo mundo, e isso se tornou natural porque o campo, invariavelmente, aproxima as pessoas. As coisas boas e os perrengues no campo fazem com que a gente forme núcleos mais agregados, porque enxergamos as dificuldades dos outros lá. Não generalizo, mas acho que isso pode se perder com outras profissões.

F: Qual o melhor conselho que já recebeu na vida? 

PG: Foi do meu primeiro chefe. Quando aceitei o emprego no Vale do Jequitinhonha, estava a 400 km da sede da empresa, tinha 130 km de estrada de terra até o asfalto, não existia celular e a gente falava por rádio. Na verdade foram dois conselhos. O primeiro: “encoste nas pessoas mais sábias, não necessariamente nas mais graduadas, e aí procure conhecer a fundo o campo”. O segundo conselho foi, “não vá, mas quando for a hora eu te aviso”. Eu havia sido sondado por uma outra empresa e queria ir, porque era mais perto de uma grande capital. Ele me deu os motivos para eu não sair naquele momento. Mas tempos depois, quando a Suzano me chamou, ouvi: “você está preparado, vá e conte comigo para o que precisar”. Ele me trouxe o entendimento do papel de um líder, de fazer o bem não apenas para a sua equipe. José Rivelli Magalhães é nome do meu primeiro chefe.

F: Qual livro te inspirou na vida e guarda na cabeceira? 

PG: Vou citar dois. O livro que me deu a noção da minha pequenez, da existência humana é “Buraco Branco no Tampo”, de Peter Russel. Que em termos do viver era chamado de buraco branco e mostra a insignificância do ser humano em relação à história biológica do planeta Terra. O segundo é “A Ferro e Fogo: A história e devastação da Mata Atlântica Brasileira”, escrito por Warren Deanm, que é um falecido brasilianista. Ele conta de uma maneira fantástica a história da Mata Atlântica, desde a época pré-colonial até os acontecimentos mais recentes. Mostra que os nossos outros ecossistemas não podem seguir esse caminho.

F: Defina a Engenharia Florestal em uma frase.

PG: Aprender com a natureza e devolver para ela, em termos de ação, aquilo que ela te ensinou. 

Divulgação/Esalq
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Alunos da Esalq na Estação Experimental itatinga, como parte do curso de engenharia florestal.

F: Qual o melhor conselho que você daria para um engenheiro florestal que está começando?

PG: Dinheiro não vem fácil, construir a carreira não vem fácil. É preciso calma com a natureza, porque  há o tempo de aprender e o tempo de ensinar. Há um imediatismo na sociedade que não se vê na natureza e nos sistemas econômicos. Parem com essa lógica de que a gente precisa fazer o jogo da promoção. Claro, é preciso ter desejo, ambição, mas tenha uma missão, um apego a causas e um certo desapego ao tempo de aprendizado. A vida vem em ciclos, como a natureza, então olhe igualmente para as questões de carreira e as questões produtivas, sociais e ambientais. Se você se acha com vocação para seguir o curso de engenheiro florestal, então vai perceber, em um determinado momento, que nas tuas veias corre mais seiva do que sangue.

F: Como enxerga a engenharia florestal dentro de duas, três décadas?

PG: Quando entrei para o curso, em 1979, já sentia a Engenharia Florestal como uma profissão muito relevante para o futuro. Imagina agora, então? Minha geração trilhou um caminho difícil na área ambiental. O cenário que se discute agora, muitas vezes, não é positivo, porque temos uma crise climática e uma perda brutal da biodiversidade. Os ciclos hidrológicos estão cada vez mais comprometidos. Todos esses desafios são amplamente trabalhados nos cursos de Engenharia Florestal e esses profissionais terão papel cada vez mais relevante no enfrentamento desses desafios: água, biodiversidade e carbono. A árvore não é a panaceia para tudo, ela precisa ter manejo adequado, espécie adequada e, sobretudo, cuidar do que sobrou. Se você não pode falar em restauração, de conservar o que tem, você não pode falar na meta do Brasil de 12 milhões de restauração e de 2 milhões de hectares implantados até 2030. São desafios que estão sendo colocados para a gente e que se encaixam perfeitamente no perfil do engenheiro florestal.

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