“Pai, você precisa provar esses produtos que são deliciosos”, disse sua filha há mais de uma década, em uma época na qual encontrar um alimento que fosse ao mesmo tempo saboroso e livre de glúten não era tarefa fácil nas prateleiras dos supermercados da Argentina. Celíaca desde pequena, a filha do empresário Norberto Varas — que, assim como ela, também é intolerante a alimentos que contêm trigo, aveia, cevada e centeio (TACC) — era uma fonte autorizada para dar sua opinião.
Varas já tinha o desejo de entrar no mercado de alimentos sem glúten havia algum tempo e encontrou na Smams — empresa que hoje lidera e fez crescer exponencialmente em 10 anos — não apenas a oportunidade de ingressar de vez na indústria, mas também de encarar o desafio que sempre perseguiu: comer produtos sem glúten, mas sem que o paladar perceba.
A Smams nasceu como agroindústria em 2012. Três anos depois, Varas comprou de um dos sócios 50% do negócio e, em 2023, adquiriu o controle total da companhia. De 2015 até hoje, a produção da fábrica saltou de 18 para cerca de 250 toneladas por mês, com um portfólio variado de produtos.
Para este ano, segundo projeções, a receita deverá ultrapassar os US$ 15 milhões (R$ 84 milhões na cotação atual). Além de estar presente em lojas de produtos naturais, armazéns de bairro e na maioria das prateleiras de supermercados locais, a marca já se expandiu para Uruguai, Paraguai e Panamá. Apesar do cenário atual mais desafiador — mas não impossível, segundo Varas —, a empresa também mantém conversas em andamento com Chile e Estados Unidos.
Um negócio onde todos querem estar
“A exportação é uma das pernas do negócio. Mas o crescimento se sustenta no lançamento de novidades todos os meses [uma média de seis novos produtos a cada 30 dias] e na produção terceirizada, porque as grandes marcas também querem estar nesse universo”, afirma o empresário. Em poucas palavras, isso significa que a Smams, como empresa certificada, com garantia de qualidade e capacidade produtiva, também fabrica produtos para marcas maiores. No setor de alimentos sem glúten — garante Varas — há cada vez mais interessados em participar e marcar presença.
Por isso, mesmo sendo ainda um segmento de nicho, Varas explica que o objetivo da Smams nunca foi produzir exclusivamente para celíacos. “Não queremos fazer comida ou alimentos para pessoas com alguma restrição”, diz ele. “A ideia é que nossos produtos sejam consumidos por todos. Então, a chave está em quase não se notar a diferença. E somos muito exigentes nisso: na qualidade e em tentar fazer com que o sabor se aproxime o máximo possível do produto com glúten.”

O desenvolvimento de cada novo lançamento leva cerca de seis meses. Às vezes, bastante mais, segundo Varas. “Com o pão, por exemplo, levamos três anos até chegar ao sabor que nos convencesse. Os testes iniciais fazemos com o pessoal da nossa fábrica, entre funcionários e familiares.” Depois, em alguns casos, as engenheiras de alimentos da área de desenvolvimento organizam grupos para testes às cegas.
Atualmente, a Smams lança seis novos produtos por mês. “Hoje, como celíaco, fico feliz em ver a enorme variedade disponível. Porque, quando diagnosticaram minha filha com doença celíaca, a oferta era mínima, e ela se sentia mal em aniversários”, relembra Varas.
Além de qualquer intolerância
Existe uma demanda crescente por produtos sem glúten para além do público celíaco? Do ponto de vista e da experiência da Smams, o maior crescimento de consumo de produtos sem TACC vem de clientes que não apresentam qualquer intolerância. “Mas que se sentem melhor e mais leves ao comer sem glúten — afirma Varas. — Depois, nas casas onde há algum celíaco, é comum que toda a família passe a consumir produtos sem glúten. Mas é o público que não tem celíaca e mesmo assim opta por evitar o glúten que realmente faz a diferença no mercado.”
Entre todos os lançamentos, alguns produtos se tornaram verdadeiros hits. “Sempre tem os que pegam muito bem no mercado e viram os carros-chefe de uma marca. Nos últimos anos, quem lidera são os crackers, biscoitos salgados bem crocantes. Antes disso, o sucesso eram os biscoitos doces recheados [semelhantes aos famosos biscoitos de chocolate escuro com recheio de creme de baunilha]. Também temos as chocomums, ideais para fazer a versão sem TACC da chocotorta”, diz Varas. “Enfim, fomos buscando desenvolver os produtos que víamos que tinham pares de sucesso no mercado tradicional, e tentamos criar a versão sem glúten. Essa é a nossa estratégia e o que, acredito, nos diferencia da concorrência, além da qualidade e do bom preço.” Confira o que ele diz:
Vocês incorporaram alguma ferramenta de IA no processo de produção?
Sim, com certeza. A equipe de engenharia usa ferramentas de inteligência artificial para aprimorar as fórmulas dos nossos produtos atualmente. Para obter maior maciez, mais durabilidade, melhor palatabilidade e cores. Enfim, tudo o que precisamos para melhorar a fórmula é feito com apoio da IA.
O que é mais difícil: obter um sabor agradável sem glúten em produtos salgados ou doces?
É mais desafiador conseguir boa palatabilidade — ou seja, um sabor agradável — nos produtos salgados do que nos doces. Porque os doces, em geral, ajudam a mascarar um pouco melhor eventuais deficiências de sabor.