No início desta semana, Luciano Hang desembarcou de um avião particular no Aeroporto Binacional de Rivera e gravou um vídeo, posteriormente publicado em suas redes sociais. “Hoje estou no Uruguai. Quem sabe um dia também possamos ter uma Havan por aqui”, declarou o fundador da rede brasileira de megastores aos seus milhões de seguidores no Instagram. Foi o começo de um processo formal de avaliação, confirmado pela própria empresa.
Hang chegou à chamada Fronteira da Paz na terça-feira, 7 de julho. Naquela noite, durante um jantar, reuniu-se com o intendente de Rivera, Richard Sander, que publicou nas redes sociais uma foto ao lado do empresário acompanhada da mensagem: “Hoje estivemos com Luciano Hang, conversando e sonhando com a possibilidade de receber novas empresas e gerar empregos em nossa fronteira”.
No dia seguinte, o empresário visitou a Prefeitura de Sant’Ana do Livramento, onde se reuniu com o prefeito Evandro Gutebier e gravou outro vídeo. Antes de partir do Aeroporto Binacional, na quarta-feira, dia 8, deixou uma mensagem que rapidamente ganhou repercussão entre os moradores da região: “Vou embora daqui com a esperança de que possamos plantar uma semente na fronteira”.
Em declarações ao jornalA Plateia, de Sant’Ana do Livramento, Hang confirmou que a companhia realizará estudos com suas equipes executivas para avaliar a viabilidade de um investimento na região. “Já temos alguns locais para visitar, mas ainda não há nada definido”, afirmou. Ele também revelou que já havia passado pela área no início da carreira, quando trabalhava como vendedor de toalhas, antes de fundar a Havan, em 1986.
A viagem anterior
Antes de entrar no Uruguai, o empresário esteve no Paraguai, onde se reuniu com o presidente Santiago Peña e com o ministro da Indústria e Comércio, Javier Giménez. Hang chegou a Rivera diretamente após cumprir essa agenda no país vizinho.
O interesse pelo Paraguai está relacionado ao fato de que mais de 250 empresas brasileiras transferiram suas operações para o país nos últimos anos, atraídas pela Lei de Maquila e pelos custos operacionais mais baixos. Os setores têxtil e de confecção lideram esse movimento, justamente as áreas que constituem o núcleo histórico dos negócios da Havan.
“Pode haver investimentos nos dois países”, afirmou o empresário em entrevista exclusiva àForbes Uruguay, ao ser questionado se escolheria entre Paraguai e Uruguai ou se avançaria simultaneamente nos dois mercados.
“Estamos fazendo prospecções em países do Mercosul onde exista a possibilidade de instalar megastores da Havan”, explicou.
“Vamos realizar prospecções em Montevidéu, em outras cidades uruguaias e também em diferentes municípios paraguaios.”
O investimento necessário
Segundo o empresário brasileiro, cada loja da Havan no Brasil exige um investimento em torno de R$ 100 milhões, o equivalente a US$ 20 milhões (R$ 102,6 milhões) pelo câmbio atual.
Esse seria o valor mínimo considerado pela companhia para avaliar uma operação no Uruguai, embora Hang tenha esclarecido que o custo final dependerá do preço dos terrenos e das dimensões de cada unidade.
As lojas da rede variam entre 12 mil metros quadrados, em um único pavimento, e 20 mil metros quadrados, em imóveis de dois andares, além de exigirem terrenos com áreas entre 25 mil e 40 mil metros quadrados. “Nossas lojas são grandes, com aproximadamente 200 funcionários em cada unidade”, ressaltou.
Um imóvel que concentra as atenções
Fontes próximas à Intendência de Rivera disseram àForbes Uruguayque, entre os espaços em avaliação, está o terreno do antigo Shopping Melancía. Inaugurado em 2015, o empreendimento recebeu um investimento de US$ 60 milhões (R$ 307,8 milhões) e foi construído em uma área de 30 mil metros quadrados, com 60 lojas e dois free shops. Há vários anos, porém, o centro comercial enfrenta um processo de recuperação envolvendo seus credores.
As mesmas fontes informaram que o imóvel deverá passar por um leilão extrajudicial em 29 de julho, com lance mínimo de US$ 4 milhões (R$ 20,52 milhões). A maior dívida, de aproximadamente US$ 15 milhões (R$ 76,95 milhões), está nas mãos de uma instituição bancária.
Rivera e Sant’Ana do Livramento formam uma cidade binacional, onde o fluxo comercial entre os dois lados da fronteira é constante e os consumidores atravessam de um país para o outro com naturalidade em busca de preços melhores e diferentes produtos. A Havan já está presente em cidades fronteiriças do lado brasileiro, como Bagé e Uruguaiana, onde mantém lojas voltadas, em grande parte, aos consumidores uruguaios que cruzam a divisa para fazer compras.
Questionado sobre esse aspecto, Hang declarou: “Passei por Rivera, observei as avenidas e as localizações, mas depois nossa equipe irá analisar as cidades, avenidas e ruas para avaliar determinados pontos”.
A variável tributária
Além da metragem dos imóveis e dos preços dos terrenos, Hang apontou a carga tributária como o fator decisivo para qualquer expansão internacional. “Neste momento, a questão tributária é muito importante. Queremos ser competitivos e analisar as possibilidades oferecidas por cada país”, afirmou.
O comentário está alinhado às razões que inicialmente o levaram a considerar o Uruguai. Conforme noticiado anteriormente pelaForbes Uruguay, um amigo com negócios no país entrou em contato com o empresário para relatar os resultados positivos obtidos graças à menor pressão tributária e à redução da burocracia.
A comparação com o Brasil também faz parte desse raciocínio. Hang é um dos empresários mais críticos ao ambiente regulatório e fiscal brasileiro e já manifestou publicamente essa posição em diversas ocasiões. Também são conhecidas sua defesa da indústria nacional e sua oposição à entrada de produtos asiáticos comercializados a preços subsidiados.
De 45 metros quadrados a US$ 12 milhões por dia
Neste ano, a Havan completa quatro décadas desde sua fundação em Brusque, Santa Catarina. Hang iniciou a empresa em 1986, com uma pequena loja de tecidos de 45 metros quadrados.
Atualmente, a rede opera 193 megastores, emprega 25 mil pessoas e projeta para 2026 um faturamento de US$ 4,5 bilhões (R$ 23,085 bilhões), o equivalente a US$ 12 milhões por dia (R$ 61,56 milhões).
Em 2025, a companhia registrou o melhor desempenho de sua história, com receita líquida de R$ 13,7 bilhões, alta de 16,4%, e lucro líquido de R$ 3,45 bilhões, crescimento de 28,1%. A empresa também conseguiu quitar suas dívidas bancárias e passou a apresentar caixa positivo.
Até o fim de 2026, a Havan terá concluído sua expansão para todos os estados brasileiros, com inaugurações ainda previstas no Ceará e em Roraima. “Neste ano, todos os estados da Federação terão pelo menos uma de nossas lojas”, confirmou Hang. A meta de atingir 200 unidades no Brasil até dezembro avança paralelamente à exploração de mercados internacionais. Os dois movimentos não são excludentes.
O modelo que sustenta essa estrutura é deliberadamente baseado no varejo físico, já que 95% das vendas da Havan são realizadas em lojas presenciais. Apenas 5% do faturamento vem dos canais digitais.
A rede aposta em grandes estabelecimentos localizados em cidades do interior, afastadas das principais capitais, onde a concorrência é mais intensa e os custos são elevados.
Hang aparece no ranking de bilionários daForbescom um patrimônio de US$ 2,3 bilhões (R$ 11,799 bilhões). No início da carreira, percorria a região vendendo toalhas. A última vez que esteve em Rivera foi justamente durante esse período. Agora, retornou em um avião particular, acompanhado por uma equipe de imprensa e com uma agenda de reuniões com autoridades.
*Reportagem originalmente publicada em Forbes.com