Alex Kwon, cofundador e CEO da Active, fabricante californiana de hardwares para vaporizadores focados no mercado de cannabis, começou a vender seus produtos com óleo de THC para empresas do setor no Reino Unido há cerca de dois anos. “Começamos colocando a ponta do pé no mercado europeu, mas agora já estamos com a água na altura da barriga”, diz Kwon, de 40 anos, que co-fundou a empresa em 2018. “Em breve estaremos mergulhando.”
A Active, que a Forbes EUA estima gerar mais de US$ 100 milhões (R$ 570 milhões na cotação atual) em receita anual, vende vaporizadores para óleos de cannabis a algumas das maiores empresas desse setor nos Estados Unidos, incluindo Trulieve, Green Thumb Industries e Curaleaf. Há alguns anos, a companhia não tinha nenhum negócio na Europa. Hoje, mais de 5% da receita vem de empresas de cannabis do Reino Unido, que legalizou a maconha medicinal em 2018, e da Alemanha, que permitiu o uso medicinal em 2017 e abriu um mercado recreativo limitado em 2024.
Agora, o empresário negocia um acordo com uma marca da União Europeia (UE) que pode expandir os negócios da Active na região. “A Europa pode facilmente representar 20% das nossas vendas”, afirma. A expansão fora dos EUA é algo que Kwon está levando muito a sério.
O continente europeu, onde cerca de 25 países têm alguma forma de legalização ou descriminalização da cannabis, está prestes a se tornar um mercado de US$ 50 bilhões (R$ 285 bilhões) em vendas anuais, caso a reforma avance por todo o continente, segundo a Whitney Economics, empresa de análise de dados e consultoria econômica especializada no setor.
Kwon quer que a Active faça parte deste novo e promissor mercado de cannabis desde o início. “Acredito que a Europa é o campo de batalha onde a cannabis será consolidada – é a porta de entrada para o resto do mundo.”

Cannabis em crescimento
O mercado de cannabis dos EUA deve crescer de US$ 32 bilhões (R$ 182,4 bilhões) em vendas anuais para cerca de US$ 46 bilhões (R$ 262,2 bilhões) em três anos, um crescimento de 44%, segundo a consultoria BDSA, empresa de pesquisa de mercado e inteligência de dados especializada nessa indústria. Mas a expectativa é que a UE cresça 115% no mesmo período.
Enquanto as empresas de cannabis nos EUA não podem transportar produtos entre estados, companhias na UE podem cultivar a planta em um país e exportar os produtos para todo o continente.
O mercado europeu de cannabis ainda é pequeno. As vendas anuais neste ano devem chegar a US$ 1,2 bilhão (R$ 6,8 bilhões), segundo um relatório da Prohibition Partners, empresa de consultoria e inteligência de mercado sediada em Londres.
A projeção é de que atinja US$ 2,6 bilhões (R$ 14,8 bilhões) em 2028 e US$ 6 bilhões (R$ 34,2 bilhões) em vendas anuais dentro de uma década – um salto de mais de 400% em relação ao valor atual.
A Alemanha, maior economia da UE e com o maior mercado legal de maconha do continente europeu, registrou cerca de US$ 500 milhões (R$ 2,8 bilhões) em vendas no ano passado e deve gerar pouco menos de US$ 1 bilhão (R$ 5,7 bilhões) no fim de 2025.
O Reino Unido, que não faz mais parte da UE desde o Brexit em 2020, tem atualmente um mercado de cannabis medicinal com vendas anuais de cerca de US$ 255 milhões (R$ 1,4 bilhão). Países como Holanda e Suíça lançaram programas-piloto para testar o uso recreativo da maconha, enquanto a Polônia, República Tcheca e outros países iniciaram programas medicinais. Malta e Luxemburgo já têm programas para uso adulto, e a França também propôs medidas para a legalização medicinal.
Em comparação com os EUA, onde 38 estados possuem algum tipo de legalização e geraram US$ 32 bilhões (R$ 182,4 bilhões) em vendas legais no ano passado, o mercado europeu de cannabis ainda equivale ao da economia da maconha no estado de Nova Jersey.
No entanto, o potencial de crescimento e as regulamentações práticas – que permitem o cultivo da cannabis em países como Espanha e Portugal para exportação legal – criaram uma tese sólida de investimento, atraindo empresas norte-americanas a destinarem centenas de milhões de dólares ao continente europeu.
Mercado em expansão
Beau Whitney, fundador da consultoria Whitney Economics, afirma que a Europa é um mercado emergente importante demais para ser ignorado.
Embora os EUA tenham saído na frente – a Califórnia legalizou a cannabis medicinal em 1996 –, o mercado europeu apresenta colaboração governamental e incentivos financeiros que os Estados Unidos não oferecem.

As barreiras de entrada na Europa são altas, exigindo instalações com certificação GMP, também conhecida como “boas práticas de fabricação” – o que é visto como positivo pelos investidores, pois reduz a concorrência. Alguns países só permitem produtos farmacêuticos à base de cannabis.
Nos EUA, apenas 27% das empresas de cannabis são lucrativas, impactadas pela proibição federal, excesso de regulamentação e impostos punitivos em níveis estaduais e municipais.
Embora o ex-presidente Joe Biden tenha iniciado uma revisão federal para reclassificar a maconha como uma substância de menor risco, a Agência de Controle de Drogas (DEA) acabou atrasando o processo. E agora, com o presidente Donald Trump de volta à Casa Branca, a reforma parou, apesar de Trump ter apoiado mudanças na legislação sobre a cannabis durante a campanha.
“O mercado dos EUA é disfuncional e fragmentado estado por estado”, diz Whitney. “Do ponto de vista do investimento, é alto risco e baixo retorno, o que está totalmente invertido.”
Em contraste, países como a Alemanha adotaram abordagens práticas para a legalização, integrando-a ao seu sistema médico já existente. Por lá e no Reino Unido, os pacientes vão ao médico normalmente para obter receitas de maconha, que podem ser preenchidas em farmácias tradicionais ou online, com entrega a domicílio.
A Curaleaf, com sede em Massachusetts, é hoje a maior empresa dos EUA atuando na Europa. A companhia entrou no Reino Unido e na UE em 2021, quando adquiriu a Emmac Life Sciences, um negócio verticalizado de cannabis medicinal com unidades de cultivo, fabricação e distribuição na Alemanha, Itália, Portugal, Espanha e Reino Unido, por US$ 286 milhões (R$ 1,63 bilhão). Boris Jordan, fundador e CEO da Curaleaf, afirmou que o mercado europeu “eventualmente será rival do dos EUA”.
A Emmac foi incorporada à estratégia internacional da Curaleaf, tornando-se a Curaleaf International. Analisando o crescimento da receita, o desempenho internacional da empresa supera o norte-americano. No ano passado, a Curaleaf International gerou US$ 105 milhões (R$ 598,5 milhões) em receita, um salto de 72% em relação a 2023, quando chegou a US$ 61 milhões (R$ 347,7 milhões).
Nos EUA, a empresa gerou US$ 1,2 bilhão (R$ 6,8 bilhões) em 2024, ou 1.000% a mais que sua operação europeia, mas esse número representa uma leve queda em relação aos US$ 1,3 bilhão (R$ 7,4 bilhões) registrados em 2023.
Juan Pablo Martinez, CEO da Curaleaf International, acredita que a previsão de Jordan está se concretizando rapidamente. “O mercado endereçável total certamente existe, as taxas de crescimento também, e estou confiante de que será ainda maior”, afirma Martinez.
Enquanto isso, a Cookies – marca de cannabis co-fundada pelo músico e empreendedor Berner – já vende produtos no Reino Unido, Alemanha, Israel e Tailândia, e está prestes a lançar operações na Austrália. Trabalhando com um modelo de licenciamento, a Cookies tem acordos com três empresas que cultivam suas variedades em Portugal, Alemanha e Canadá.
Parker Berling, presidente da empresa, afirma que, inicialmente, a expansão internacional fazia parte da estratégia de ser a primeira marca americana a operar em cada país onde a maconha fosse legal. Agora, “o setor internacional é a parte que mais cresce na nossa empresa”, diz Berling. “Já vendemos internacionalmente há anos, mas nos últimos meses essa área tem se tornado parte significativa do nosso negócio.”
Will Muecke, cofundador da companhia londrina de private equity Artemis Growth Partners, focada em cannabis e com cerca de US$ 400 milhões (R$ 2,2 bilhões) em ativos sob gestão, está dobrando a aposta na Europa.
Muecke afirma que a empresa, que investiu US$ 200 milhões (R$ 1,1 bilhão) em empresas norte-americanas desde 2018, não está mais ativamente buscando investimentos no mercado da América do Norte.
A Artemis já investiu cerca de US$ 25 milhões (R$ 142,5 milhões) em empresas europeias desde 2022, incluindo a Valcon, sediada na Dinamarca e especializada na extração de cannabis. Muecke diz ver a possibilidade de investir mais US$ 50 milhões (R$ 285 milhões) na UE.
Lado B
Claro que nem todos estão otimistas quanto à Europa. Kristoffer Inton, analista da Morningstar, empresa norte-americana de serviços financeiros, que cobre o setor de cannabis, afirma que o grande interesse por parte das empresas americanas – e especialmente das canadenses, que podem legalmente exportar maconha para a UE – não é sustentável. “As perspectivas para a maconha medicinal internacional são promissoras, mas se todos veem como uma salvação, provavelmente não será a salvação de ninguém.”
A indústria já ouviu promessas parecidas antes. Quando o Canadá legalizou a cannabis em 2019, investidores injetaram capital no mercado, apostando que o país atenderia à demanda interna, dos EUA e do restante do mundo.
Mas, enquanto a reforma estagnava nos EUA, os operadores canadenses ficaram com um excesso de oferta, o preço do quilo despencou e as empresas vêm lutando para sobreviver desde então. O mesmo pode acontecer na Europa – embora seria necessário um volume imenso de cannabis para saturar esse mercado de 745 milhões de habitantes.