O restaurante que usou champanhe premium para driblar a crise

Foto/Divulgação
As marcas de champanhe premium oferecidas no restaurante, como Moët e Dom Pérignon, têm em comum o prestígio do nome, pois embora apresentem características diferentes, todas vêm da região geograficamente protegida de Champanhe, na França

Resumo:

 

  • Na contramão da turbulência econômica brasileira, o restaurante Bagatelle Rio de Janeiro enxerga na venda de champanhes premium uma oportunidade surpreendente e muito lucrativa;
  • O estabelecimento revela números crescentes na venda das bebidas exclusivas, com um aumento de 15% entre 2018 e 2019;
  • Segundo um gerente da Pernod Ricard, apesar da crescente demanda pelos champanhes premium, a bebida tende a ficar cada vez mais exclusiva.

A crise econômica brasileira se faz presente desde 2014 e não é uma novidade que ela tem afetado os mais diversos setores. Entretanto, na contramão do período de turbulência, o restaurante Bagatelle Rio de Janeiro tem na venda de champanhes premium uma oportunidade surpreendente e muito lucrativa. As garrafas sofisticadas e exclusivas oferecidas pela casa, que custam de R$ 550 (Perrier Jouet de 750 ml) a R$ 20 mil (Cristal de 3 litros), geram entre R$ 300 mil e R$ 400 mil de receita por mês, o que contribui para o faturamento mensal de R$ 800 mil a R$ 1,2 milhão. “O mercado de champanhes premium já existia no Brasil, porém o Bagatelle veio mostrar o potencial de venda de um restaurante. A marca foi a primeira a vender garrafas como Cristal Jeroboam e Dom Pérignon Jeroboam no país”, revelou o francês Ilan Dray, diretor do estabelecimento carioca.

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O restaurante, famoso não só pelos pratos requintados do cardápio de cozinha francesa, mas também por noites badaladas que contam com DJ e garçons fantasiados, teve a sua primeira filial brasileira inaugurada no bairro paulistano do Jardins, em 2011. “O sucesso foi imediato e absoluto. Desde a abertura, já existia a venda de champanhes premium, visto que alguns dos clientes da casa eram adeptos da marca em unidades como a de Nova York e St. Barths”, diz Dray. Cerca de quatro anos depois, a holding +55 Group abriu o Bagatelle Rio de Janeiro, no segundo andar do Hipódromo da Gávea. “A vontade já existia há bastante tempo, porém faltava o local ideal, que foi encontrado com a oportunidade de estar na Tribuna Social do Jockey, um salão que mostra toda a sofisticação que o Bagatelle pede”, acrescenta ele.

Ambas as unidades brasileiras fazem parte de uma rede que inclui dez filiais espalhadas por, entre outros locais, Saint-Tropez, Dubai, a ilha caribenha de São Bartolomeu (St. Barths) e Nova York, onde fica a matriz. “O padrão e o estilo da marca são sempre respeitados. Temos como premissa transmitir para os clientes que o Bagatelle é uma referência de qualidade”, comenta o diretor. 

Apesar de ter desenvolvido seu negócio em meio a um intenso período de recessão da economia brasileira, o restaurante carioca não só conseguiu aumentar as vendas das bebidas exclusivas como ainda enfrenta o desafio de obter um estoque suficiente para atender o consumo. “Desde a abertura, a venda de champanhes premium cresceu no Bagatelle Rio. Em meio à crise, de 2018 a 2019, o aumento foi de 15%. E poderia ser mais, pois há demanda diante da experiência que oferecemos. Precisaríamos de mais 10 unidades de 3 litros por mês, durante o verão, por exemplo”, afirma Dray. 

De acordo com o diretor, embora o número de garrafas disponíveis seja limitado, a exclusividade é justamente o que desperta interesse. “Os distribuidores me explicam que na França mandam um número bem mais limitado dessas bebidas exclusivas, como Jeroboam de champanhe Prestige. Contudo, nosso público conhece a qualidade e a origem controlada desse tipo de espumante, por isso ele é tão valorizado, de modo que se tornou um objeto de desejo”, explica o francês.

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O salão principal do Bagatelle Rio de Janeiro apresenta decoração sofisticada de bistrô

O tíquete médio da casa varia bastante, uma vez que há quem visite o local para tomar uma garrafa de vinho e apenas jantar, gastando cerca de R$ 180, e aqueles que fazem a visita em grupo e gastam mais de R$ 25 mil em uma mesa para 10 integrantes. “Tudo depende do que for consumido.”

O diferencial do restaurante no mercado de champanhes premium brasileiro se dá por meio da realização de um trabalho direto com as marcas. “Muitos estabelecimentos vendem a categoria no Brasil, mas pouquíssimos conseguem vender a quantidade e o tipo de champanhe que o Bagatelle vende”, revela Dray. A alta receita da casa gerada pelas garrafas exclusivas posiciona o estabelecimento em um patamar elevado. “Nós agradamos a todos os gostos: não temos uma parceria exclusiva de champanhes. Somos grandes parceiros da Pernod Ricard, mas também vendemos LVMH e Cristal. Todos eles confirmam que o Bagatelle é o restaurante que mais vende este tipo de bebida no Brasil.”

Consumo e tendências 

Os champanhes são, por natureza, um produto premium, ou seja, restrito e caro. Raphael Vidigal, gerente de unidade de Negócios Prestige na Pernod Ricard, explica que isso se deve à exclusividade da produção, que é realizada em uma área protegida geograficamente no nordeste da França, denominada Champanhe, e limitada a 34 mil hectares. 

Segundo o executivo, o tamanho do mercado no Brasil ainda é relativamente pequeno se comparado a outros países. “No ano passado tivemos uma venda de, aproximadamente, 500 mil garrafas de champanhe no mercado local, com um faturamento estimado entre R$ 80 milhões e R$ 90 milhões”, revela. Vidigal explica, ainda, que grande parte dessa quantidade se deve ao hábito de consumo dos brasileiros, que se restringe frequentemente a ocasiões festivas, como o dinner party do Bagatelle, baladas, casamentos e réveillon. “O volume de vendas poderia ser muito maior com a maturidade e entendimento da bebida como ocorre no país de origem”, diz ele. 

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Dom Pérignon, Belle Époque e Cristal são alguns dos champanhes premium que integram o estoque do restaurante

No que diz respeito ao perfil dos consumidores, Vidigal diz que não é homogêneo. “Por conta da escassez global do produto e do processo de produção mais manual, os preços de um champanhe são mais altos do que o de um vinho espumante, e, portanto, ele tende a ser consumido pelas classes mais abastadas. Porém, há sim o consumo em menor escala pelas classes aspirantes, devido principalmente ao fato de a bebida estar ligada a celebrações e luxo. Logo, esse público não consome champanhe com frequência, mas reserva um momento especial para fazer um desembolso no produto.”

É comum relacionar o consumo destas bebidas caras à ostentação, mas o executivo revela que o hábito de beber champanhe não se resume a isso. “O fato de ostentar ou não depende muito do perfil de cada pessoa. Apesar deste comportamento existir, percebemos que o consumo de vinhos tranquilos (que não contém gás) vem aumentando e a procura dos consumidores por informação também”, diz o especialista. Segundo ele, este segundo perfil busca não só o prazer em “estourar” uma garrafa para celebrar com amigos e familiares, mas também degustar as diversidades do champanhe, entender o diferencial de cada uma das marcas do mercado, o processo de produção, os diversos aromas e possíveis harmonizações do produto com a gastronomia. 

Por fim, o executivo da Pernod Ricard indica que, apesar da crescente procura pelos champanhes premium, a bebida tende a ficar cada vez mais exclusiva. “Devido ao boom do mercado em escala global por conta, em grande parte, da demanda das regiões asiática e dos Emirados e pela limitação da produção, pode-se afirmar que o champanhe tende a ficar mais restrito ano após ano”, explica. Segundo ele, a Pernod Ricard também está crescendo, visto que as vendas das bebidas exclusivas aumentaram mesmo durante a crise e, embora o futuro deste mercado no Brasil ainda seja incerto, há otimismo. “Os negócios de vinhos em geral, com a queda da substituição tributária, apontam um caminho positivo para a conquista de um maior espaço e distribuição nos próximos anos, a fim de atender grandes pedidos como as demandas do Bagatelle”, conclui Vidigal.

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