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Relógios Japoneses Ganham Prestígio entre Colecionadores no Mercado Global

Peças são feitas em pequenos ateliês e com uma demanda exclusiva de pouquíssimas unidades por ano; conheça as principais marcas independentes do momento

9 min

Na última década, o Japão subiu de posição entre os relojoeiros independentes. Artesãos japoneses estão agora produzindo relógios que rivalizam com os fabricantes mais renomados da Suíça. No entanto, ao contrário dos gigantes suíços, como a Rolex, esses independentes operam em pequenos ateliês, muitas vezes produzindo apenas alguns poucos relógios por ano. Isso lhes rendeu reconhecimento mundial diante de uma dedicação obsessiva aos detalhes, um design enraizado na tradição e uma inovação que desafia a escala em que trabalham.

Três nomes, em especial, vêm se destacando em fóruns de colecionadores e publicações do setor: Naoya Hida, Hajime Asaoka e Masahiro Kikuno. Esses relojoeiros elevaram a relojoaria japonesa a um novo patamar, cada um trazendo uma filosofia e um estilo únicos ao segmento de luxo do mercado.

Naoya Hida: Design Atemporal com Detalhes Meticulosos

Naoya Hida passou décadas promovendo marcas suíças de luxo no Japão antes de fundar sua própria marca, em 2018. Seus relógios se destacam pelo design clássico e pela atenção minuciosa aos detalhes, buscando inspiração na arquitetura, moda, arte e até em automóveis.

Sua reinvenção da simplicidade, com um foco absoluto no acabamento manual e na qualidade artesanal, diferencia o trabalho de Hida. Seus modelos com apenas indicação das horas, geralmente baseados em calibres suíços modificados, são aprimorados com ajustes técnicos sutis.

DivulgaçãoRelógio NH TYPE 3B da Naoya Hida

Entre os lançamentos de 2025, Hida traz uma novidade: a expansão para um relógio de pulso com calendário perpétuo. O módulo de calendário perpétuo usado no novo NH TYPE 6A foi desenvolvido pela Dubois Dépraz, uma empresa suíça renomada pela produção de módulos para diversas marcas de prestígio. A gravação das complicações levou cinco vezes mais tempo que o habitual para o gravador de Hida. Cada superfície foi pensada com intenção. Cada número foi posicionado com extrema precisão. Além disso, calendários perpétuos com corda manual são extremamente raros, o que aumenta ainda mais sua exclusividade.

A abordagem de Hida à relojoaria é coerente com a de outros independentes japoneses. “Desde o início deste projeto, nosso objetivo sempre foi produzir e vender uma gama diversa de relógios únicos e belos em quantidades limitadas”, afirma o relojoeiro. “Essa filosofia permanece totalmente inalterada até hoje.”

As melhorias de design são feitas ano após ano com base na experiência pessoal de Hida ao usar cada modelo. “Sempre que um modelo é finalizado, eu o uso pessoalmente”, ele explica. “Desse processo, novas ideias e melhorias surgem naturalmente.”

No design, Hida aposta em mostradores gravados feitos de prata alemã, com números esculpidos à mão e preenchidos com laca. O resultado é uma superfície de mostrador que adiciona profundidade à estética minimalista de suas peças. Com uma produção limitada a cerca de 100 relógios por ano e reconhecimento internacional crescente, o processo é pessoal e voltado para colecionadores de longo prazo. Todos os interessados precisam se inscrever em maio e esperar com paciência, pois a demanda ultrapassa amplamente a oferta.

Hajime Asaoka: o equivalente japonês de Philippe Dufour

Enquanto Hida é conhecido por seus designs clássicos, Hajime Asaoka se destaca pela engenharia. Ex-designer de produtos, Asaoka projeta e fabrica seus próprios movimentos do zero em sua oficina em Tóquio, utilizando tornos e fresadoras manuais. “Hajime Asaoka é, possivelmente, o mais famoso entre os crescentes relojoeiros independentes do Japão”, diz a Europa Star, uma das publicações mais tradicionais da relojoaria mundial. Sua obra costuma ser comparada à de mestres como Philippe Dufour, considerado um dos melhores relojeiros do mundo.

Seu relógio mais famoso, o Tsunami, incorpora um volante de 15 mm — um tamanho incomum para relógios de pulso. Esse componente maior contribui para uma estabilidade excepcional na medição do tempo.

Em 2009, Asaoka apresentou o primeiro relógio de pulso japonês com turbilhão — uma complicação criada para compensar os efeitos da gravidade e melhorar a precisão. Asaoka inovou ao ser o primeiro a usar rolamentos esféricos em vez de rubis tradicionais na gaiola do turbilhão. Essa abordagem ajuda a reduzir o atrito, melhorando a precisão, durabilidade e eficiência dos movimentos de alto padrão.

DivulgaçãoRelógio Chronograph da Hajime Asaoka

Cada componente — das pontes aos ponteiros — é finalizado à mão com um nível de exigência extremo, colocando as criações de Asaoka entre as melhores do mundo em termos de engenharia e estética. Sua segunda marca, Kurono Tokyo, tornou sua filosofia de design mais acessível, mantendo as peças de alta relojoaria restritas a poucas unidades por ano.

Os relógios de Asaoka são vendidos apenas por meio de contato direto via seu site. A comunicação é limitada, mas direta, e cada peça é feita sob encomenda.

Masahiro Kikuno: artesanato manual que celebra as tradições japonesas

Masahiro Kikuno é outro nome pioneiro na relojoaria japonesa. Ganhou reconhecimento global com seu relógio Wadokei, que replica o antigo sistema japonês de horas temporais. Esse sistema divide o dia em seis períodos de luz solar, cujas durações variam de acordo com a estação. A complexidade mecânica exigida para ajustar os marcadores de tempo diariamente é enorme.

Mas além da complicação em si, as práticas da oficina de Kikuno são uma declaração por si só. Ele praticamente não utiliza máquinas controladas por computador para fabricar seus componentes. Em vez disso, constrói as peças manualmente com ferramentas movidas a pedal e iluminadas por lampiões a óleo.

DivulgaçãoRelógio Temporal Hour Watch da Masahiro Kikuno

Um relógio de Kikuno é tanto uma obra de arte quanto um instrumento de medição do tempo. Cada peça carrega sinais sutis de sua construção artesanal do início ao fim. A produção é tão limitada que apenas duas a quatro unidades são finalizadas por ano, tornando cada relógio uma peça rara e profundamente pessoal.

Com essa produção extremamente reduzida, o processo é lento, individualizado e colaborativo. Para encomendar um relógio de Kikuno, é necessário entrar em contato direto com ele.

Em alta

Enquanto o Índice Geral de Mercado da Watch Charts caiu por 16 trimestres consecutivos — uma queda de 33% desde o pico em março de 2022 —, os preços dos modelos desses artesãos se mantiveram muito bem.

Os relógios de Naoya Hida frequentemente são vendidos no mercado secundário por valores superiores ao preço original. Colecionadores que conseguiram adquirir os primeiros modelos viram os preços mais do que dobrarem. Desde sua criação, apenas 336 relógios foram produzidos, distribuídos entre 18 referências, o que torna a demanda muito superior à oferta.

Apesar de a maioria dos colecionadores comprar para manter e não revender, os relógios de Naoya Hida se valorizaram significativamente. Um exemplo é o modelo NH Type 2B, que foi vendido por US$ 35.700 (R$ 202 mil) em março de 2024 em um leilão da Phillips — um ágio de 72% em relação ao preço original de cerca de US$ 20 mil (R$113 mil).

Os modelos Tsunami e Chronograph, de Hajime Asaoka, também são bastante procurados. Em 2023, um Asaoka Chronograph foi vendido em um leilão em Genebra por mais de US$ 120 mil (R$ 680,4 mil), muito acima do preço de varejo.

As peças de Masahiro Kikuno são raríssimas no mercado secundário. Quando um relógio Wadokei apareceu em um leilão da Phillips em 2021, atraiu atenção internacional e foi vendido por cerca de US$ 75 mil (R$ 425 mil), evidenciando a raridade e o valor cultural de seu trabalho.

“Lamento muito. Não há possibilidade de comprar meus relógios no momento. Todos são vendidos por encomenda”, disse Kikuno. “Voltarei a aceitar pedidos no ano que vem.” O mesmo se aplica a outros independentes japoneses. Esse nível de demanda demonstra o prestígio e o reconhecimento internacional das marcas — e deve continuar sustentando os preços no mercado secundário.

Os suíços têm concorrência vinda de Tóquio

O que une esses três relojoeiros independentes japoneses é o compromisso com a inovação tecnológica e de design, que vai além de complicações ou estratégias de marca. Seja pela engenharia própria de Asaoka, pela releitura cultural do tempo feita por Kikuno, ou pelo minimalismo perfeccionista de Hida, esses criadores colocaram a relojoaria japonesa no mapa — mesmo com produções tão limitadas.

No universo da relojoaria independente, a escassez é uma característica padrão. “Não temos intenção de mudar nossa forma de fazer as coisas”, afirma Hida. “Produzir em massa um único modelo poderia resultar em lucros maiores, mas isso não é compatível conosco.” Essa filosofia ressoa com colecionadores que buscam peças únicas, e não popularidade em massa.

Em um momento em que algumas marcas suíças de luxo se apoiam mais no legado do que na inovação, os independentes japoneses estão oferecendo algo diferente. Em um mundo onde narrativa, individualidade e exclusividade contam mais do que nunca, os relógios desses artesãos japoneses podem ser difíceis de encontrar — mas seu impacto na indústria é impossível de ignorar.

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