1. Início
  2. /
  3. Forbes Life
  4. /
  5. Vale o Preço? Provamos um Uísque de R$ 4,6 Milhões
Forbes Life

Vale o Preço? Provamos um Uísque de R$ 4,6 Milhões

Em um jantar exclusivo em Londres, duas raridades da Chivas Brothers — The Glenlivet SPIRA 60 Year Old e The Aberlour 56 Year Old — mostraram que o preço de um uísque vai muito além do líquido e envolve história, arte e tempo

7 min

“Quão bom pode ser um uísque de quase 1 milhão de dólares?” não é uma pergunta que costuma surgir. No entanto, no mês passado, a Forbes foi convidada a provar dois uísques que, em 10 de outubro deste ano, foram vendidos no leilão Distillers One of One por 710 mil libras esterlinas (R$ 5 milhões, ou US$ 950 mil).

Algumas semanas antes, a Chivas Brothers havia convidado um grupo restrito de jornalistas para um jantar no Claridge’s, em Londres, em comemoração às doações feitas para o leilão beneficente Distillers One of One. Durante a noite, foi oferecida uma oportunidade rara: provar o The Glenlivet SPIRA 60 Year Old e o The Aberlour 56 Year Old.

Naquele momento, não estava claro o valor do que havia sido servido, e o preço não era algo que estivesse em questão. A percepção só veio duas semanas depois, ao descobrir que quase US$ 1 milhão (R$ 5,4 milhões) em uísque havia sido degustado. Surgiu então uma pergunta inevitável: quão bom ele era, de fato?

O valor da experiência

É importante esclarecer: não foi consumida uma garrafa inteira. Foram cerca de 20 ml de cada bebida, o que representa, tecnicamente, entre US$ 13 mil e US$ 26 mil (R$ 70 mil a R$ 140 mil) em uísque — o equivalente a uma entrada para a compra de uma casa de preço médio no Reino Unido, ou a um automóvel seminovo. Mas seria algo “que vale” isso?

Mark LittlerÀ esquerda, Glenlivet SPIRA, 60 anos. À direita, Aberlour, 56 anos

Para responder a essa questão, é necessário compreender o que significa “valor”. O que algo vale é, em grande parte, subjetivo. Mas, no patamar de preço desses uísques, o valor ultrapassa a soma dos seus componentes.

Como se define valor do uísque

O contexto molda a experiência, e a experiência cria valor. No jantar do Claridge’s, estavam presentes as pessoas que cuidaram desses barris por décadas, relatando suas histórias e processos. O ambiente era sofisticado, as conversas envolventes, e os uísques apresentavam qualidade excepcional. Objetivamente, estavam entre os mais notáveis já produzidos. Mas “melhor” é uma palavra imprecisa.

Entre um relógio digital Casio de 50 libras (R$ 358) e um Patek Philippe de 500 mil libras (R$ 3,5 milhões), o Casio é tecnicamente o mais preciso. No entanto, ninguém adquire um Patek pela exatidão do tempo. O valor está na habilidade artesanal, na herança, na escassez e no significado simbólico que o objeto carrega.

Kinghams AuctioneersUm Patek não conta as horas melhores. Ele conta uma história melhor

Com o uísque ocorre o mesmo. Quando alguém paga US$ 860 mil por uma garrafa, não está pagando apenas pelo líquido, mas por tudo o que o envolve: a história, a linhagem, o design do decantador, a raridade do barril e o peso cultural que só o tempo é capaz de criar.

O mesmo acontece com quadrinhos, obras de arte, automóveis ou vinhos — qualquer item em que narrativa e escassez se cruzam.

Um exemplo que ajuda a compreender essa complexidade é o mercado de quadrinhos e de arte. Em 2024, a revista Action Comics nº 1 — a primeira aparição do Superman — foi vendida por US$ 6 milhões (R$ 32,3 milhões). Uma reimpressão semelhante pode ser adquirida na internet por US$ 34 (R$ 183). O conteúdo é idêntico, impresso em papel parecido. Ainda assim, uma vale milhões e a outra, algumas dezenas de dólares. A diferença está na procedência, na nostalgia e no valor simbólico que a sociedade atribui a um original.

Heritage AuctionsO anúncio da Heritage Auctions que viu o Action Comics No. 1 ser vendido por US$ 6 milhões em 2024

É o mesmo motivo pelo qual duas obras de Mark Rothko que, para um olhar leigo, parecem semelhantes, podem alcançar valores muito diferentes. Em 2012, Orange, Red, Yellow (1961) foi vendida na Christie’s de Nova York por US$ 86,8 milhões (R$ 467,8 milhões), estabelecendo um recorde para a arte do pós-guerra. Dois meses depois, No. 1 (Royal Red and Blue), também de 1961, embora menor, foi arrematada na Christie’s de Londres por US$ 2,6 milhões (R$ 14 milhões). Apenas 2% do valor da anterior.

Getty ImagesUm visitante do museu tira uma fotografia em uma sala de exposição com pinturas de Mark Rothko no Edifício Leste da Galeria Nacional de Arte, no National Mall, em Washington, D.C.

O que mudou não foi o pigmento nem a tela, mas o contexto. A narrativa que cercava cada obra — o legado do artista, a recepção da crítica, os colecionadores envolvidos e o momento do leilão — criou uma aura intangível que conferiu a uma delas maior importância naquele instante.

Quem trabalha com arte ou avaliação de itens cujo valor ultrapassa o material sabe que todos esses fatores interferem na percepção. Assim, mesmo sem ter consciência exata do preço dos uísques naquele jantar, era perceptível que se tratava de uma experiência que envolvia história, tradição e significado cultural.

Antes mesmo de provar o Aberlour e o Glenlivet, o ambiente e o contexto já haviam influenciado a percepção do que estava sendo oferecido — uma experiência que era tanto sensorial quanto simbólica.

Valiam quase US$ 1 milhão?

O The Glenlivet SPIRA 60 Year Old e o The Aberlour 56 Year Old efetivamente valeram os US$ 950.000 (R$ 5,1 milhões) pagos por eles. Essa é a lógica de um leilão: ele define o valor de peças únicas de maneira incontestável.

O Glenlivet SPIRA 60 Year Old é, de fato, superior ao Glenlivet 18 Year Old, vendido por cerca de US$ 140 a US$ 150 (R$ 754 a R$ 809). É mais antigo, raro e apresenta complexidade e refinamento maiores. Mas seria tão melhor assim, para explicar a disparidade de valor?

GlenlivetAlgum uísque pode realmente ser centenas de milhares de por cento “melhor” que o The Glenlivet 18 Year Old?

Certamente não. Ainda assim, a questão é irrelevante, pois trata-se de uma edição única, que não será reproduzida. Mesmo com recursos e interesse, não seria possível adquiri-la novamente — o que também compõe seu valor.

O SPIRA se destaca como uma experiência marcante, não apenas pela bebida em si, mas por tudo o que a cerca: o relato de Kevin Balmforth, mestre de barris da Glenlivet, sobre as décadas de maturação, o trabalho conjunto com artistas de vidro na criação do decantador e o simbolismo que permeou todo o evento.

Então, quão bom era um uísque de US$ 950 mil?

Melhor do que o preço sugere e, ao mesmo tempo, não se trata do preço. Grandes uísques produzem uma sensação que não pode ser medida, e, por um breve momento no Claridge’s, tornou-se claro por que algumas garrafas se transformam em lendas.

Assine Forbes. Inspire-se, lidere, conquiste. Ao se cadastrar, você concorda com nossa Política de Privacidade e com o uso de seus dados para fins de comunicação.