Conheça a Made, principal vitrine do design autoral

Fabio Zanzeri
Detalhe de tapete de Murilo Weitz exposto na Made, que aconteceu em agosto, no Pavilhão da Bienal

A entrevista haveria de ser relativamente rápida. “Uma hora é perfeito para mim”, disse Waldick Jatobá, ao definir também onde seria o encontro: no estúdio dos irmãos Campana, em Santa Cecília, bairro central de São Paulo. O tempo enxuto para a conversa fazia todo o sentido: ele estava a uma semana da sétima edição da Made (Mercado Arte Design), a primeira e maior feira de design colecionável do país – da qual é idealizador, diretor geral e sócio, ao lado de Bruno Simões e Elcio Gozzo. O local escolhido tampouco foi aleatório. Os irmãos famosos foram o primeiro canal de contato de Waldick com a cena do design autoral em São Paulo. Não por acaso, hoje, além de ser a cabeça por trás da Made, ele é também diretor da Fundação Campana, que usa a arte e o design como instrumentos de transformação e inclusão social.

Jatobá equilibra sua rotina com uma terceira função, a de diretor-presidente da Casa de Vidro, instituição fundada com o intuito de manter o legado do casal Lina Bo Bardi e Pietro Maria Bardi por meio da arquitetura, do design e da arte. Desde 2017 nesse posto, já saiu de sua cabeça criativa uma ideia que rendeu verba, frutos, posts e likes nas redes sociais em dezembro de 2018, quando convidou a conterrânea Maria Bethânia para apresentar um show em esquema fundraising, para arrecadar fundos para instituição. Leia a seguir a entrevista com o economista – e hoje “feirante”, como ele se define – que trouxe o conceito do design colecionável para o Brasil e que foi além, ao criar e transformar a Made numa importante vitrine do design autoral. “A Made é um desfile em que os designers mostram o que estão produzindo naquele momento. Tudo ali é inédito, eu não requento nada.”

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Forbes – Como foi sua trajetória até chegar à Made?

Waldick Jatobá – Nasci em Salvador, onde me formei em economia na PUC. De lá, fui para o Rio de Janeiro começar minha carreira no mercado financeiro. Depois, morei em São Paulo e no exterior. Foram 23 anos no
mercado financeiro.

Já convivia com a arte?

Aos 17 anos, comecei a me identificar com arte e a comprar algumas obras. Montei uma pequena coleção de obras modernistas, mas, nos anos 2000, que resolvi mudar para artistas contemporâneos, porque queria ter contato direto com os artistas – como os modernistas que eu colecionava já estavam mortos, eu não podia frequentar os ateliês, acompanhar o dia a dia deles. Só mantive o primeiro trabalho que comprei, uma pintura da Ligia Milton; o resto foi tudo vendido.

Qual a diferença entre arte contemporânea e design colecionável contemporâneo?

A diferença é que, enquanto na obra de arte você tem a função de contemplar, no design você tem uma função de uso embutida – que no design autoral nem sempre é prioridade quando você faz a peça. A estética é a prioridade no design, é ela que vai incomodar os olhos do apreciador, que é o que a arte também faz.

Como surgiu a ideia da feira?

Em 2011, depois de sair do mercado financeiro, eu já tinha ensaiado um movimento com o Design SP, que criei com Paulo Borges, o idealizador do São Paulo Fashion Week, durante uma edição do evento de moda. Naquela época, a empresária Sonia Diniz me chamou para tentar montar uma galeria que ela queria fazer da sua loja FirmaCasa, projeto que acabou não indo adiante, mas que me fez identificar a existência de jovens que praticavam o design autoral, aquele feito em pequenas peças e muito artesanal, e uma consequente e grande demanda por um local onde eles pudessem expor.

Qual são seus diferenciais?

Primeiro, a gente só fala de design autoral: o designer tem que assinar aquela peça. Depois, todas têm de ser editadas num número xis de quantidade – é isso que dá o caráter de “colecionável”. Exatamente como na arte contemporânea, no design contemporâneo você pode colecionar mobiliário, iluminação, objetos. Mas, para isso, eles têm que seguir os critérios de quantidade limitada, de produção artesanal e o princípio de conceito, que envolve um storytelling por trás do produto. Além disso, absolutamente tudo o que é apresentado na Made tem que ser inédito. Não requento nada.

Divulgação
Waldick Jatobá

Como escolhe os participantes e o conteúdo?

A feira é totalmente curada. A gente tem de conhecer os designers, os processos e fazer o convite para que eles possam vir. Todo ano a Made tem um tema, um designer homenageado, além de palestra e workshops. É uma plataforma para comprar, discutir, ouvir, contemplar, sentir e experimentar o design.

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Como é feita essa pesquisa?

Tanto eu como meu sócio Bruno Simões cuidamos da parte mais artística (Elcio Gozzo, o terceiro sócio, cuida da parte financeira) e temos por princípio ficarmos atentos a novas atrações e designers que surgem. Mas também contamos com a indicação dos próprios designers que estão expondo, que indicam nomes que seguem a mesma linha deles. Então existe ali uma grande comunidade que vai se formando e se fortalecendo.

De onde são os designers?

De todo o Brasil e de alguns países que permearam as edições anteriores. Nesta sétima edição, tivemos muita gente da Argentina, Colômbia, Chile, Uruguai, México, Panamá. A Made foi criada para ser internacional, e na América Latina não tem nada similar ao projeto. Existem, sim, outras feiras que se dizem feiras de design autoral. Mas daí você vai ver e percebe que existe uma mistureba do que é design, do que é industrial, do que é artesanal, do que é reedição, confundindo muito mais o espectador do que informando, o que eu considero um desserviço.

O que há em comum nos designers brasileiros?

O processo de inspiração e de criação é um processo global, porque o pensamento é universal. Não acredito naquela coisa do “ah, o design brasileiro é diferente porque é assim ou assado”. O que existe, e que talvez os diferencie, é o acesso a determinados materiais que em outros países você não tem.

Fabio Zanzeri
Instalação da BV Rio em parceria com o coletivo Coomflona na Made 2019

Os designers da Made são jovens, não?

A faixa etária é de 28 a 34 anos. Mas a gente considera a idade da ideia. Temos, por exemplo, a Inês Schertel, que é uma excelente designer, e que tem seus 50 e poucos. Mas o processo de trabalho dela é totalmente novo, ao criar produtos feitos de feltragem, uma técnica antiquíssima, de maneira totalmente contemporânea.

O brasileiro está respondendo bem a esse mercado?

Muito bem, e está comprando. Temos designers que vendem o estande todo, outros dizem que os visitantes voltam para ver seus lançamentos no ano seguinte. A Made propicia também que muitos fabricantes convidem os profissionais para desenhar coleções.

Muitos designers ficaram de fora?

Sim, já tem fila de espera para 2020, porque a gente não quer crescer exponencialmente, e sim organicamente, fazendo coisas novas e mostrando que somos uma cabeça pensante. Ano passado, introduzimos o conceito da gastronomia artesanal. Começamos com oito ou dez produtores, este ano tivemos 15. Poderíamos ter 50, mas eu não quero, quero ir sentindo aos poucos e com o cuidado de poder proporcionar um lugar bonito para eles exporem.

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Quem cuida da questão estética?

Yo! Eu faço toda essa parte da direção artística, junto com meu sócio Bruno, que é designer e arquiteto. Nós dividimos a parte artística e curatorial, e temos o cuidado de deixar tudo muito amarrado.

Como foi largar a carreira de economista?

Todo dia aprendo alguma coisa. Estou terminando um mestrado de arquitetura, urbanismo e design – eu precisava fazer um mestrado na vida para deixar de ser economista [risos]. Tenho um rigor estético muito grande, mas até agora nada formal. Quero fazer minha tese sobre design colecionável e escrever um livro sobre o assunto.

De onde veio o conceito de design colecionável?

Ele foi criado há uns 15 anos no Design Miami. Nos EUA, esse movimento é muito forte. Eu trouxe o conceito para o Brasil, acreditando que temos também um grande potencial. Temos os irmãos Campana, que estão no ranking dos dez melhores do mundo. Eles começaram essa história há 35 anos, ao romper os paradigmas e desconstruir o olhar do design industrial para o design de coleção.

Conheça a seguir alguns destaques do universo do design colecionável:

  • Alva

    Da sinergia dos irmãos e sócios mineiros Susana Bastos, artista plástica, e Marcelo Alvarenga, arquiteto, surgem produtos que, para além da racionalidade e funcionalidade usuais, exploram o inusitado e novas funções.

  • André Ferri

    A madeira, sobretudo em diálogo com outros materiais, é a protagonista do trabalho do designer e arquiteto belorizontino que se dedica exclusivamente à criação de móveis autorais.

  • Carol Gay

    A arquiteta paulistana busca na transgressão do uso dos materiais já existentes na memória coletiva e pessoal a inspiração para criar mobiliário, iluminação e objetos de design, em que o vidro tem presença marcante.

  • F. Studio

    O trio de designers mineiros Fernando Fernandes, Felipe Vargas e Flávia Araújo tem como inspiração as paisagens urbanas e fabris, contrastando traços finos e estruturas rígidas com materiais como ferro, madeira e concreto.

  • Inês Schertel

    A arquiteta viu na lã de seu rebanho de ovelhas, em São Francisco de Paula (RS), potencial para criar peças artesanais como tapetes, banquinhos e cachepôs revitalizando o uso do feltro, primeiro tecido criado pelo homem há mais de 6 mil anos.

  • Murilo Weitz

    O arquiteto paulista aperfeiçoou-se em design e moda na Inglaterra. Pratica um tipo de design experimental, trabalhando com materiais novos; tem sua identidade marcada pelas formas geométricas.

Alva

Da sinergia dos irmãos e sócios mineiros Susana Bastos, artista plástica, e Marcelo Alvarenga, arquiteto, surgem produtos que, para além da racionalidade e funcionalidade usuais, exploram o inusitado e novas funções.

Reportagem publicada na edição 71, lançada em setembro de 2019

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