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Por Dentro da Mansão de R$ 120 Milhões no Rio de Janeiro Assinada por Burle Marx

Como o principal arquiteto paisagista do Brasil, Roberto Burle Marx enxergava a abundância botânica do país como matéria-prima para o modernismo

6 min

Um rápido olhar botânica brasileira, com pedidos de desculpas aos fãs de arquitetura. O Brasil possui mais de 46,9 mil espécies nativas de plantas, algas e fungos, sendo que mais de dois quintos delas não são encontradas em nenhum outro lugar da Terra.

Através da Floresta Amazônica, do Cerrado, da Mata Atlântica, do Pantanal, da Caatinga e dos Pampas, a vida vegetal do país parece menos uma herança nacional única e mais uma junção de vários mundos botânicos que dividem uma mesma fronteira. Cerca de 10% da flora mundial ocorre em território nacional, e o país ostenta o maior número de espécies botânicas registradas do planeta.

Ao examinar essas milhares de espécies, um nome aparece em sua forma latinizada mais de 50 vezes: burle-marxii.

Trata-se de Roberto Burle Marx. Apesar de ter seu nome associado a uma pequena dinastia botânica, ele não possuía formação formal na área. Foi, com maior impacto para o design brasileiro, um arquiteto paisagista com instintos de pintor, colecionador de plantas e conservacionista.

“No Brasil, temos Pelé no futebol, Niemeyer na arquitetura e Burle Marx no paisagismo”, afirma Fred Judice Araujo, da imobiliária butique Judice & Araujo.

Veja fotos da mansão no RJ assinada por Burle Marx

Na agência, a corretora responsável Patricia Judice representa uma residência no Rio de Janeiro avaliada em R$ 120 milhões, moldada por um dos últimos projetos paisagísticos desenvolvidos pelo mestre.

Criado na capital fluminense, Burle Marx compreendia a abundância do país tanto como tema quanto como matéria-prima.

A paisagem treinou seu olhar e moldou seus valores, primeiramente como artista e, depois, como um projetista que passaria a enxergar as plantas como formas e estruturas vivas. Contudo, como costuma acontecer, foi necessário distanciamento para que ele visse seu próprio lar com clareza.

Enquanto estudava pintura em Berlim, o paisagista desenvolveu a disciplina visual que mais tarde daria aos seus jardins a força de massa, cor e composição.

Essas lições surgiriam em planos ousados de plantio, formas orgânicas e curvas que se moviam pelo terreno com a autoridade de pinceladas.

Porém, a revelação decisiva ocorreu no Jardim Botânico de Dahlem, na Alemanha, onde ele encontrou espécies nativas longe do Brasil e as observou com um novo deslumbramento, quase como se fossem emissárias de sua terra.

Esse encontro ajudou a despertar sua devoção vitalícia pela vegetação. Ao retornar ao território brasileiro, ele começou a colecionar espécies tropicais e subtropicais com uma intensidade rara, acabando por transformar sua casa, nos arredores do Rio, em um arquivo vivo da flora nacional, com um acervo de mais de 3.500 plantas.

Naturalmente, essas duas paixões o conduziram à arquitetura paisagística, campo no qual se tornou uma das figuras mais reverenciadas do século XX.

Antes de Burle Marx, os jardins da elite brasileira frequentemente buscavam na Europa modelos de ordem, simetria e refinamento importado.

O projetista, por sua vez, olhou para o próprio entorno. Plantas nativas, por muito tempo descartadas como selvagens ou comuns, tornaram-se a base de uma linguagem nova, moderna e vanguardista. Não era uma simples tradução, mas sim uma verdadeira composição.

O profissional carregou essa convicção até o fim de sua carreira, algo que está gravado nos jardins de seu projeto nesta residência carioca, recentemente listada para venda.

Situada nas colinas do Joá, bairro da zona oeste do Rio de Janeiro onde a cidade se ergue em direção à Mata Atlântica e às montanhas, a mansão de aproximadamente 6 mil metros quadrados ocupa um terreno perfeitamente adequado à imaginação do paisagista.

Ali, rochedos elevados, a brisa do oceano e a vista urbana da Barra da Tijuca logo abaixo criam um cenário que é, ao mesmo tempo, teatral, exuberante e inconfundivelmente brasileiro.

Palmeiras e árvores nativas são atraídas para os limites do lote, formando uma barreira viva que envolve sem isolar.

Em contraste com as linhas arquitetônicas mais limpas da casa, os plantios individuais planejados por ele são lidos como gestos pictóricos, lampejos de forma e textura que conferem à área externa seu ritmo modernista.

O mais impressionante de tudo é a topografia plana do terreno. No Joá, onde a terra se concentra ao redor da grandiosa presença da Pedra da Gávea — a montanha cuja forma característica se impõe sobre o Rio — antes de se curvar em direção à floresta e ao mar, uma extensão nivelada dessa magnitude soa em partes iguais modernista e surrealista. Trata-se de uma parcela de terra plana o suficiente para abrigar um campo de futebol e uma piscina de proporções generosas, resistindo à geologia acidentada do bairro.

“Depois de mais de 20 anos atuando no mercado imobiliário de alto padrão, é preciso muito para que um imóvel faça você dizer ‘uau’”, ressalta Judice Araujo. “Este conseguiu. No Rio de Janeiro, é incrivelmente raro encontrar um terreno plano, privativo e cercado pela natureza, com uma vista como essa.”

A residência em si é, à sua própria maneira, uma extensão desses princípios de Burle Marx. Construída em 1980 e totalmente reformada em 2022, a estrutura contemporânea de vidro e aço é um estudo de planos marcantes, volume e materiais arrojados.

Seus espaços internos parecem suspensos entre a pedra, a madeira e a folhagem, com vidros do chão ao teto que puxam o jardim para dentro de quase todos os cômodos. Os acabamentos permanecem elementares: teto em concreto ripado, paredes de pedra bruta, piso de madeira e esquadrias em tom de bronze escuro. A casa também carrega uma lógica ambiental que se mostra fiel ao legado do paisagista, contando com geração de energia 100% solar e um sistema integrado de reuso de água.

O resultado é uma moradia que soa como a conclusão natural do ideal modernista nacional, reunindo flora, geologia e arquitetura em uma única obra. O objetivo não é conter o mundo natural, mas sim compô-lo.

Burle Marx compreendia que a riqueza botânica do Brasil não era um excesso a ser domado, mas uma paleta a ser dominada. A arte residia na seleção, na proporção e no ritmo. Com tantas cores à disposição, a genialidade estava em saber quais delas pertenciam àquele lugar.

Reportagem publicada originalmente em Forbes.com

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