Famílias de alta renda estão voltando a viver mais próximas umas das outras. Às vezes por escolha. Às vezes porque um complexo residencial em Aspen é mais simples do que coordenar três casas de férias separadas.
O fato é que os modernos “family compounds” — propriedades compostas por múltiplas residências no mesmo terreno, antes mais associados a dinastias, disputas sucessórias e aos Kennedy — estão se tornando uma das estratégias mais sofisticadas do mercado imobiliário.
Se antes uma herança de família significava pratarias ou obras de arte, agora ela se parece cada vez mais com grandes extensões de terra.
Segundo a National Association of Realtors, um recorde de 17% dos compradores de imóveis adquiriu uma residência multigeracional em 2024, acima dos cerca de 11% registrados nos anos anteriores.
A necessidade de estar perto da família ganhou força principalmente após a pandemia. Mas, no topo do mercado, decisões imobiliárias raramente são movidas apenas por fatores emocionais.
“É uma jogada imobiliária”, afirma James Harris, da Carolwood Estates, em Los Angeles. “Se você consegue acumular terrenos contíguos, eles se tornam mais valiosos no futuro.”
Na Europa, onde a terra é significativamente mais escassa do que nos Estados Unidos, essa estratégia ficou ainda mais evidente.
Famílias vêm adquirindo mansões vizinhas ao longo do tempo, formando complexos planejados para permanecer sob o controle do mesmo clã por gerações. O apelo é parte emocional, parte financeiro. Afinal, o verdadeiro luxo da terra está justamente no fato de ela ser limitada.
Em Los Angeles, compradores estão adquirindo lotes vizinhos e os transformando em complexos privados com várias residências independentes. Incorporadoras respondem com casas de hóspedes separadas, unidades residenciais acessórias — estruturas independentes construídas no mesmo terreno, conhecidas como “granny flats” — e plantas cada vez mais flexíveis, pensadas para acomodar várias gerações sem comprometer a privacidade.
Para os arquitetos, o desafio continua sendo equilibrar proximidade e autonomia. Jardins compartilhados. Entradas separadas. Alas privadas posicionadas a uma distância suficiente para preservar a harmonia doméstica. Juntos, mas não juntos demais.

Existe, porém, uma complicação: as regras urbanísticas ainda não acompanharam totalmente a maneira como famílias de alta renda desejam viver atualmente. Um projeto recentemente aprovado do Ben Callery Architects, em Sydney, inclui uma ala privativa para um avô idoso, embora tecnicamente a cozinha secundária não pudesse ter pia nem cooktop pelas regras locais. “A capacidade de design e construção existe”, diz Callery. “O que falta é mais flexibilidade e abertura mental nas normas de planejamento urbano.”
O resultado é uma categoria em expansão de residências de luxo projetadas menos para um único proprietário ou investidor e mais para um ecossistema familiar em constante transformação.
A seguir, nove propriedades ao redor do mundo que representam esse modelo de moradia multigeracional.

Beverly Park, Califórnia | US$ 79,99 milhões (R$ 399,95 milhões)
Em Beverly Park, talvez o maior símbolo de status não seja a mansão em si, mas a possibilidade de construir outra ao lado. Compradas em conjunto, as propriedades 73 e 74 da Beverly Park Lane ocupam cerca de 4,5 acres (18,2 mil metros quadrados) em um dos condomínios fechados mais exclusivos de Los Angeles. Apenas a residência principal soma 28,5 mil pés quadrados (2,6 mil metros quadrados), com nove quartos, impressionantes 22 banheiros e amenidades que lembram mais um resort de luxo.
Projetada pela Harrison Design, com interiores assinados pelo Mike Moser Studio, a casa segue um estilo contemporâneo clássico, com salas de glamour, suítes de massagem, sala de cinema e closets distribuídos em vários ambientes, em uma estética típica de Beverly Hills. As paredes de vidro do piso ao teto mantêm o foco nas vistas para a cidade e para o oceano.
Mas o principal atrativo pode estar ao lado. O terreno vizinho já possui aprovação para uma nova propriedade de cerca de 29 mil pés quadrados (2,7 mil metros quadrados), criando uma rara oportunidade de formar um complexo residencial de grandes proporções em Los Angeles.

New South Wales, Austrália | Preço sob consulta
Distribuída por 100 acres (404,6 mil metros quadrados) em New South Wales, a propriedade Yuruga abraça totalmente o estilo de vida rural. Colinas onduladas, vinhedos e detalhes em madeira reforçam o clima campestre — tudo isso a apenas 90 minutos de carro de Sydney.
A propriedade inclui uma residência principal e uma casa de hóspedes independente com três quartos, deck privativo e garagem. Grande parte da propriedade se desenvolve em um único pavimento, detalhe cada vez mais relevante para compradores de luxo que planejam acomodar não apenas filhos, mas também pais idosos.

Rio de Janeiro, Brasil | US$ 17,6 milhões (R$ 88 milhões)
No bairro de Ipanema, no Rio de Janeiro, esta cobertura triplex localizada em um edifício projetado pelo falecido Oscar Niemeyer se estende por três andares, com vistas panorâmicas para o mar e o Pão de Açúcar.
Assinada pelo Studio Arthur Casas, a residência de 16 mil pés quadrados (1,5 mil metros quadrados) conecta seus pavimentos por meio de uma escada espiral escultural ou de um elevador privativo — dependendo da disposição dos moradores para fazer exercício.
Áreas de entretenimento, quartos, adega, academia, sala de massagem e espaço de hidroterapia estão distribuídos pela residência, além de cinco dormitórios para funcionários, tornando a hospedagem de várias gerações algo relativamente simples de administrar.

Brooklyn, Nova York | US$ 16 milhões (R$ 80 milhões)
Brooklyn normalmente não é o primeiro lugar que vem à mente quando se pensa em um complexo familiar. Por outro lado, poucas townhouses da região têm 32 pés de largura. Construída em 1887 pelo renomado arquiteto da Era Dourada C.P.H. Gilbert, a Kenyon House pertence a uma categoria rara em Nova York: a mansão preservada em sua forma original.
Com cerca de 8,2 mil pés quadrados (762 metros quadrados), a residência em estilo Romanesque Revival combina a grandiosidade da antiga Nova York com uma surpreendente funcionalidade. Painéis originais de mogno, portas de carvalho embutidas e 10 lareiras a lenha permanecem intactos, enquanto os andares superiores se abrem para espaços com atmosfera de loft, claraboias e pé-direito de 12 pés (3,6 metros). Um apartamento independente no jardim se conecta diretamente a mais de 1,2 mil pés quadrados (111 metros quadrados) de área externa.
Em Park Slope, onde metragem ao ar livre é tratada com a reverência normalmente reservada às obras de arte, isso por si só já pode ser considerado patrimônio geracional.

San Isidro, Costa Rica | US$ 4,98 milhões (R$ 24,9 milhões)
A Cedars Residence oferece uma versão da vida em complexo familiar profundamente conectada à tradição cafeeira da Costa Rica. Situada em terreno vulcânico altamente fértil, a propriedade inclui pomar orgânico, vinhedo, árvores frutíferas e uma plantação de café em operação. Um imóvel onde “café da manhã” ganha um significado bastante literal.
A residência principal se abre para vistas panorâmicas dos vulcões Irazú e Barva, enquanto a casa de hóspedes independente com três quartos conta com espaço próprio para escritório. Outras construções na propriedade podem ser convertidas em ateliê, oficina ou áreas de hobby, dependendo da dinâmica familiar. O Aeroporto Internacional Juan Santamaría fica a apenas 15 minutos.

Oakhurst, Califórnia | US$ 4,5 milhões (R$ 22,5 milhões)
A cerca de 30 minutos do Parque Nacional de Yosemite, este complexo formado por duas propriedades em Bass Lake parece ter sido projetado especificamente para fins de semana familiares em grande escala. Um píer privativo acomoda até seis jet skis, com acesso direto a um dos destinos náuticos mais populares da Califórnia. No interior, amplas janelas enquadram a paisagem cercada por pinheiros, enquanto os ambientes internos discretos deixam o protagonismo para a natureza ao redor.
É como um acampamento de verão — se acampamentos de verão viessem acompanhados de imóveis à beira d’água e vinhos muito melhores.

Nayarit, México | Preço sob consulta
Com vista para as Ilhas Marías, no Pacífico, a Villa 48 do One&Only Mandarina foi construída para promover convivência com uma boa dose de separação estratégica. A residência de sete quartos inclui três suítes principais, cada uma com piscina privativa, fire pit e uma árvore Higuera madura.
Outros quartos de hóspedes se conectam diretamente ao terraço da piscina de borda infinita por meio de portas de vidro deslizantes, criando efetivamente duas áreas independentes de convivência dentro da casa.
Fora da residência, o resort oferece distrações suficientes para manter até os parentes mais difíceis ocupados: campos de polo, restaurantes reconhecidos pelo Michelin, cavalgadas e um campo de golfe projetado por Greg Norman estão entre as opções.

Sotogrande, Espanha | Preço sob consulta
Localizada ao lado de um famoso campo de golfe, esta residência de emissão zero projetada pelo Fran Silvestre Architects foi concebida para praticamente desaparecer em meio à paisagem florestal.
A casa de oito quartos funciona como um exercício de neuroarquitetura — iluminação cuidadosamente calibrada, materiais em tons suaves e um design focado em bem-estar foram pensados para melhorar a experiência de vida dos moradores. As comodidades ajudam: não há apenas uma, mas duas piscinas, além de uma área wellness com academia, sauna e adega.
Até a sustentabilidade é tratada com sofisticação: sistemas geotérmicos, painéis solares e armazenamento em baterias permitem que a residência opere com consumo líquido zero de energia. Um complexo familiar, sem dúvida — mas com arquitetura melhor do que a de muitos resorts boutique.

Gironde, França | US$ 5,4 milhões (R$ 27 milhões)
É difícil não se sentir transportado alguns séculos ao passado neste château do século XIV localizado a menos de uma hora de Bordeaux. Situada em 276 acres (1,1 milhão de metros quadrados) próximos às históricas colinas de Castillon-la-Bataille, a propriedade abraça sem reservas a estética medieval: torres com ameias, grossas paredes de pedra, passagens em arco e até uma capela privativa instalada em uma das torres.
No interior, tapeçarias, madeiras escuras e tecidos densos criam a atmosfera de um drama de época com orçamento elevado. Distribuída por três andares, a propriedade reformada no século XIX possui 30 cômodos, além de piscina, quadra de tênis e uma casa de hóspedes separada para acomodar os familiares.
E isso antes de chegar ao vinhedo. Com cerca de 59 acres (238,7 mil metros quadrados), ele produz Merlot e Cabernet Sauvignon em volume suficiente para abastecer toda a família estendida como uma pequena nobreza francesa — algo que, neste cenário, parece totalmente apropriado.
As propriedades destacadas são representadas por integrantes da Forbes Global Properties, rede exclusiva e baseada em convite que reúne corretoras imobiliárias de alto padrão ao redor do mundo e parceira oficial de real estate da Forbes.
Reportagem publicada originalmente na Forbes.com