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Tesouro dos EUA Chama PCC de Maior Facção do Hemisfério

Documento do Tesouro americano reforça o combate ao PCC e conecta a medida à nova estratégia de segurança dos EUA para a América Latina

5 min

Na quarta-feira (2), o Departamento do Tesouro americano divulgou um documento que classifica a facção Primeiro Comando da Capital (PCC) como “a maior organização criminosa do Hemisfério Ocidental”.

“O PCC é hoje a maior organização criminosa transnacional do Hemisfério Ocidental. E, nos últimos anos, expandiu suas operações globalmente, com presença significativa em países como Reino Unido, Turquia e Japão. Nos EUA, a facção representa uma ameaça criminal real e crescente”, diz o comunicado.

Também, o Departamento já tinha aplicado sanções a dois cidadãos brasileiros e três empresas do país por suposta participação em um esquema de lavagem de dinheiro vinculado ao PCC. A medida é a primeira leva de punições desde maio, quando Washington passou a tratar a facção como organização terrorista.

Nesse contexto, um detalhe do texto oficial chamou atenção de analistas: a menção ao “Hemisfério Ocidental”. A expressão voltou a ganhar peso nos documentos do governo americano, reforçando a leitura de que a Casa Branca vem tratando a região como prioridade estratégica.

Doutrina de defesa voltada ao continente

Na prática, a pista dessa guinada apareceu em janeiro, quando o Departamento de Guerra dos Estados Unidos apresentou sua nova Estratégia Nacional de Defesa. O plano declara a intenção de garantir domínio militar e econômico americano em uma faixa que vai do Ártico à América do Sul.

O texto sinaliza abertura para parcerias com países do continente, mas também deixa claro que Washington não descarta usar força militar sempre que considerar seus interesses ameaçados. Como exemplo prático dessa postura, autoridades citaram a operação que resultou na captura do ex-presidente venezuelano Nicolás Maduro, apontado pelos EUA como líder do Cartel de los Soles — grupo que Washington também classifica como terrorista.

Segundo o próprio documento, a estratégia busca “paz por meio da força”, mote que o governo Trump repete desde a retomada da Presidência. Dentro dessa lógica, o enfrentamento ao narcotráfico organizado ocupa posição central.

Essa abordagem se resume em três pontos principais: os EUA reservam-se o direito de atacar diretamente organizações classificadas como narcoterroristas em qualquer país das Américas; Washington pretende apoiar governos aliados no fortalecimento de suas próprias capacidades de combate aos cartéis; e a agenda inclui ainda o combate à imigração irregular e esforços para reduzir a influência chinesa na região.

O que muda com a nova estratégia americana para as Américas

Contudo, esse movimento começou antes. Em dezembro de 2024, a Casa Branca já havia publicado uma Estratégia de Política Externa anunciando que passaria a dar mais atenção à América Latina, redirecionando parte de sua presença militar global para lidar com o que descreveu como ameaças urgentes no hemisfério, sob justificativa de segurança nacional.

Esse realinhamento apoia-se em três frentes: reforço da Guarda Costeira e da Marinha para vigiar rotas marítimas e coibir tráfico de drogas, armas e pessoas; intensificação do controle de fronteiras e da repressão a cartéIs, com possibilidade de uso de força letal; e ampliação do acesso americano a bases e pontos considerados estratégicos na região.

Além disso, o documento também resgata a Doutrina Monroe. Ela foi formulada no século 19 pelo presidente James Monroe sob a lógica de que qualquer tentativa de potências estrangeiras recolonizarem o continente seria vista como afronta aos interesses dos EUA. Um dos lemas da Doutrina era “a América para os americanos”.

O plano atual aponta em recuperar essa influência com força renovada, movimento lido como resposta ao avanço econômico da China na América Latina.

Facções brasileiras na mira de Washington

Mais recentemente, o capítulo dessa política começou em maio, quando o governo americano incluiu o PCC e o Comando Vermelho na lista de organizações terroristas. Os EUA descreveram as duas facções como responsáveis por parte da violência criminal no Brasil.

Na ocasião, o secretário de Estado Marco Rubio afirmou que a atuação dos grupos extrapolava as fronteiras brasileiras. Para ele, o governo seguiria usando “todas as ferramentas disponíveis para proteger nossos interesses de segurança nacional e cortar financiamento e recursos de narcoterroristas”.

Por fim, a Casa Branca apresentou a decisão como parte de um esforço mais amplo para desarticular cartéis e organizações criminosas na região. No Brasil, o governo tentou até o último momento evitar essa classificação. O presidente Lula chegou a criticar publicamente a medida, defendendo a soberania nacional e rejeitando qualquer tratamento que soasse como subordinação ao governo americano.

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