O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assinou na segunda-feira (20) três proclamações que estabelecem uma tarifa adicional de 50% sobre determinados produtos importados do Canadá. A cobrança começa em 19 de agosto e atingirá quase US$ 20 bilhões em mercadorias, segundo o governo norte-americano.
O primeiro-ministro canadense, Mark Carney, afirmou que as tarifas violam o Acordo Estados Unidos–México–Canadá (USMCA, na sigla em inglês). O tratado comercial substituiu o Nafta em 2020, e reduz ou elimina tarifas sobre produtos negociados entre os três países, desde que sejam cumpridas determinadas regras de origem.
No caso da nova medida, porém, até mercadorias canadenses que atendem a essas exigências e normalmente entrariam nos Estados Unidos com tarifa zero poderão pagar a sobretaxa adicional de 50%.
O alcance é seletivo, embora a alíquota seja elevada. A lista total de produtos taxados corresponde a aproximadamente 5,2% dos US$ 382 bilhões em produtos que os Estados Unidos importaram do Canadá em 2025, de acordo com cálculo da Reuters baseado em dados do Censo norte-americano.
A decisão do tarifaço imposto ao Canadá chama atenção também pela base jurídica escolhida. Trump recorreu à Seção 338 da Lei Tarifária de 1930, dispositivo que permite ao presidente impor tarifas de até 50% contra países considerados responsáveis por discriminar o comércio norte-americano. Segundo apurou a Reuters, esta é a primeira aplicação conhecida da norma em quase um século.
Para o investidor do Brasil, os efeitos desse anúncio de tarifas aplicadas ao Canadá são irrelevantes, de acordo com Rodrigo Moliterno, head de renda variável e sócio da Veedha Investimentos. “Para gente nada interfere. O nosso mercado está preocupado com a nossa tarifação, estão digerindo ainda”, diz. Na sua avaliação, o tarifaço direcionado ao Brasil tem uma lista longa de exceções que abarca os produtos brasileiros relevantes para a economia americana o que mitiga efeitos na economia brasileira. “Setores menores serão prejudicados com impacto regional”, diz.
O que Trump anunciou
As três proclamações respondem a queixas diferentes dos Estados Unidos contra o tratamento dado pelo Canadá a automóveis, bebidas alcoólicas e laticínios norte-americanos.
Os produtos efetivamente taxados, porém, não se limitam a esses três setores. As listas incluem itens que vão de vinho, cerveja e destilados a cimento, tacos de hóquei, móveis, piscinas, varas de pesca, sementes, roupas, perucas e determinados derivados do leite, entre outros produtos.
As descrições não significam que todas as variedades de cada item serão atingidas. A aplicação depende dos códigos incluídos nos anexos das proclamações, que identificam as categorias específicas alcançadas pela sobretaxa. A própria Casa Branca resume o universo como uma lista de “determinados produtos canadenses”.
A tarifa será de 50% ou pode ser maior?
Os 50% são adicionais às tarifas, taxas e encargos que já incidem sobre os produtos. Isso significa que uma mercadoria que atualmente entra nos Estados Unidos sem pagar imposto, por cumprir as regras do USMCA, passará a recolher 50% caso esteja nas listas.
Se um produto já estiver sujeito a uma tarifa regular de 5%, por exemplo, a alíquota total poderá chegar a 55%. A regra vale para os itens cobertos mesmo quando eles atendem aos critérios de origem do acordo comercial entre Estados Unidos, México e Canadá.
Quais produtos ficaram de fora?
A nova tarifa não será aplicada a energia, potássio, pescados e minerais críticos. Também estão excluídos produtos que já pagam tarifas com base na Seção 232, usada pelos Estados Unidos em setores considerados sensíveis à segurança nacional, além de determinadas aeronaves civis e componentes aeronáuticos.
Essas exceções impedem que os 50% sejam acumulados com algumas das tarifas setoriais já existentes. Elas também ajudam a explicar por que, apesar da variedade de produtos mencionados, a medida alcança pouco mais de 5% das importações norte-americanas provenientes do Canadá.
Quando a cobrança começa?
A tarifa entra em vigor às 0h01, no horário da Costa Leste dos Estados Unidos, em 19 de agosto. A Seção 338 determina que a cobrança não pode começar antes de 30 dias contados da assinatura da proclamação.
Esse intervalo pode ser usado politicamente para negociações, mas não constitui uma janela formal de negociação criada pelas medidas. A própria lei permite que o presidente suspenda, revogue, complemente ou altere as proclamações.
Por que os Estados Unidos decidiram punir o Canadá?
O governo Trump acusa o Canadá de tratar produtos norte-americanos de maneira menos favorável do que mercadorias semelhantes de outros países. Essa classificação como “discriminação” é a interpretação da administração norte-americana e deve ser tratada como tal.
No setor automotivo, a Casa Branca afirma que as importações canadenses de veículos dos Estados Unidos caíram 22% entre abril de 2025 e março de 2026. O valor passou de US$ 25,9 bilhões para US$ 20,3 bilhões.
No caso das bebidas, o governo norte-americano diz que quase todas as províncias e territórios canadenses interromperam a compra ou a comercialização de produtos dos Estados Unidos a partir de março de 2025. Segundo a proclamação, as importações canadenses de bebidas alcoólicas norte-americanas recuaram 81%, de US$ 718 milhões para US$ 137 milhões, entre março de 2025 e fevereiro de 2026. Apenas Alberta e Saskatchewan teriam retirado posteriormente as restrições.
Em relação aos laticínios, Washington questiona a administração canadense das cotas de importação de queijo. Os Estados Unidos afirmam que varejistas podem acessar as cotas previstas no acordo entre Canadá e União Europeia, mas não recebem o mesmo tratamento nas cotas do USMCA.
O USMCA deixou de valer?
Não. Os Estados Unidos se recusaram, em 1º de julho, a renovar o USMCA em sua forma atual, mas o próprio USTR informou que o acordo permanece em vigor enquanto os países discutem suas condições ou até uma eventual extinção.
A nova sobretaxa, porém, reduz na prática a proteção tarifária do acordo para os produtos incluídos nas proclamações. Mesmo as mercadorias que cumprirem as regras de origem do USMCA pagarão os 50% adicionais. USTR
Quem paga a tarifa?
A tarifa é recolhida na alfândega pelo importador registrado nos Estados Unidos. Isso não significa que os preços ao consumidor subirão automaticamente 50%.
O impacto dependerá da divisão do custo ao longo da cadeia. Uma parcela pode ser absorvida pelo produtor canadense por meio de preços menores, pelo importador ou varejista norte-americano com redução de margem, ou repassada ao consumidor. Também pode haver substituição por fornecedores dos Estados Unidos ou de outros países.
Como o Canadá respondeu
O primeiro-ministro canadense, Mark Carney, além de afirmar que as tarifas violam o USMCA, também disse que medidas canadenses contra o setor automotivo apenas reproduziram as cobranças norte-americanas.
Carney disse que o Canadá apresentou propostas para resolver a disputa e modernizar o acordo comercial. O primeiro-ministro declarou que o país está pronto para intensificar as negociações nas próximas semanas, mas ainda não anunciou novas contramedidas específicas em resposta à tarifa de 50%.