O Brasil fabrica helicópteros. A frase parece improvável em um país mais acostumado a discutir carros e aviões comerciais, mas ajuda a explicar a importância da Helibras, empresa instalada em Itajubá, no sul de Minas Gerais. Única fabricante de helicópteros do Hemisfério Sul, a companhia coloca o Brasil em um grupo restrito: são apenas oito países no mundo com capacidade industrial para produzir esse tipo de aeronave.
A operação brasileira faz parte da Airbus Helicopters, mas nasceu antes da integração total ao grupo europeu. A Helibras foi fundada em 1978, no Centro Técnico Aeroespacial, em São José dos Campos, a partir de uma parceria entre o governo brasileiro e a Aerospatiale, antecessora da Airbus. Dois anos depois, em 1980, mudou-se para Itajubá, onde permanece até hoje.
A Airbus já controlava a empresa desde 2020 e, no começo de 2023, comprou por R$ 95 milhões a fatia de 15,51% que pertencia à Codemge, companhia de desenvolvimento de Minas Gerais. Com isso, passou a deter 100% da Helibras. A mudança consolidou uma operação que combina produção local, transferência de tecnologia, manutenção, retrofit, engenharia e atendimento a clientes civis, executivos, governamentais e militares.
“Hoje nós temos orgulho de dizer que somos a única fabricante de helicópteros do Hemisfério Sul”, afirma Amaury Bastos, CEO da Helibras, em entrevista à Forbes Brasil. “Nós acreditamos no Brasil.”
Itajubá no mapa da aviação
A fábrica de Itajubá produz os modelos H125 e H225, em versões civis e militares. Também realiza montagem, manutenção, customização e retrofit de aeronaves da linha Airbus Helicopters. O complexo conta com duas linhas principais de produção e trabalha com cerca de 50% de nacionalização nos modelos fabricados localmente.
A empresa tem em torno de 550 funcionários no Brasil, dos quais aproximadamente 400 atuam em operações, incluindo linha de montagem, fabricação, manutenção e reparo. A estrutura também inclui uma oficina de manutenção e escritório comercial no Aeroporto Campo de Marte, em São Paulo; um centro de treinamento com simulador completo do H225 e H225M no Rio de Janeiro; e um escritório de representação em Brasília.
A Helibras afirma já ter colocado mais de 900 helicópteros no mercado brasileiro, com pouco mais de 700 em operação. Ao longo de sua trajetória, a presença industrial da empresa também ajudou a formar uma cadeia nacional de fornecedores. São mais de 50 empresas ligadas ao fornecimento de componentes e serviços, gerando mais de 3 mil empregos indiretos.
A relevância da fábrica vai além do volume. A Helibras tem um centro de engenharia classificado pela Airbus como nível 1, a mais alta categoria. Na prática, isso permite desenvolver projetos locais com autonomia, sem depender de validação constante do grupo para determinadas soluções. A equipe reúne cerca de 50 engenheiros. “Os desenvolvimentos que fazemos aqui podem ser adaptados no grupo”, diz Bastos. “A importância da Helibras no Brasil está em desenvolvimento, tecnologia e experiência.”
A demanda por helicópteros
O mercado brasileiro de helicópteros ganhou outro ritmo nos últimos anos. Segundo Amaury Bastos, o setor de asas rotativas a turbina teve comportamento mais estável até 2020, mas passou a crescer ano a ano desde então, com destaque para 2024 e 2025.
Para o executivo, a explicação está no uso. O helicóptero se tornou ferramenta de trabalho para empresários, governos e operações especiais. No caso privado, reduz tempo de deslocamento. Na área pública, pode ser decisivo em resgate, defesa civil, segurança, combate a incêndios e transporte aeromédico.
“O helicóptero chega onde outros meios de transporte não chegam”, afirma Bastos. “Ele economiza tempo. E tempo é dinheiro.” Para missões públicas, a lógica ganha outra dimensão: “tempo é vida”.
A empresa estima que o Brasil precisaria de pelo menos 200 helicópteros da classe do H145 para atender demandas públicas de segurança, defesa civil, meio ambiente, resgate e resposta a desastres. No mercado global, a perspectiva citada pela Helibras é de cerca de 13 mil helicópteros introduzidos nos próximos dez anos.
A operação brasileira também acompanha a força global da Airbus Helicopters. Em 2025, a divisão registrou 544 pedidos brutos, ou 536 líquidos, vindos de 205 clientes em 50 países. Foram 392 helicópteros entregues no ano. No primeiro semestre de 2026, a Airbus Helicopters somou 215 encomendas líquidas, carteira de 1.108 unidades e 144 entregas, com receitas de € 3,7 bilhões.

Luxo executivo
A Helibras também atua no segmento executivo, por meio da Airbus Corporate Helicopters, divisão criada em 2017 para atender clientes de aviação privada. Cerca de 30% dos helicópteros vendidos no Brasil têm destino executivo, segundo dados da empresa.
Um dos exemplos mais recentes desse mercado foi o ACH145 Mercedes-Benz Edition, apresentado mundialmente em São Paulo. O helicóptero de US$ 15 milhões foi entregue ao primeiro cliente global, um brasileiro com identidade mantida em sigilo. A escolha do Brasil para a estreia reforçou o peso do país no mercado de asas rotativas de luxo.
Bastos afirma que o cliente brasileiro ficou mais exigente. A busca não é apenas por transporte, mas por conforto, segurança, menor vibração, menor ruído e soluções adaptadas ao uso local. Uma delas nasceu de um hábito brasileiro: aproveitar ao máximo o porta-malas.
Segundo o CEO, a Helibras desenvolveu no Brasil uma rede para o compartimento de bagagem do H145, solução criada para ampliar o uso do espaço. O item passou a ser oferecido globalmente pela Airbus.
O mercado offshore também faz parte dessa estrutura. A Helibras anunciou a entrega de dois H135 para a Líder Aviação, em contrato voltado a operações no setor de óleo e gás, incluindo transporte de passageiros e evacuação médica. O modelo é usado em missões que exigem flexibilidade, menor custo operacional e manutenção reduzida.
Mercado de aviação executiva
O crescimento da Helibras ocorre em um momento de expansão da aviação de negócios no Brasil. Em maio de 2026, a frota nacional de jatos, turboélices e helicópteros chegou a 11.362 aeronaves operacionais, segundo dados da Agência Nacional de Aviação Civil organizados pela ABAG Associação Brasileira de Aviação Geral (ABAG).
O número representa alta de 8,5% em um ano e mantém o país como o segundo maior mercado de aviação executiva do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. Em um território de dimensões continentais, onde a aviação comercial atende pouco mais de 147 localidades, a aviação de negócios cumpre um papel complementar: conectar mais de 5.500 municípios, sobretudo em regiões onde o deslocamento por terra ou por voos regulares é limitado.
Esse avanço também aparece nas categorias de maior valor. Os jatos executivos foram os que mais cresceram, com alta de 12,5% e frota de 1.193 unidades em maio de 2026. Os turboélices avançaram 7,6%, impulsionados pela demanda de setores como o agronegócio, enquanto os helicópteros a turbina cresceram 7,1%.