Um modelo de inteligência artificial do Nubank reduziu em estimados 70% o risco para populações equivalentes de tomadores de crédito. No Supremo Tribunal Federal, outra ferramenta diminuiu de 40 minutos para cinco segundos o tempo necessário para analisar uma etapa da admissibilidade de recursos.
Os dois resultados estão entre os exemplos brasileiros reunidos no Relatório de Desenvolvimento Mundial 2026, divulgado nesta terça-feira, 4, pelo Grupo Banco Mundial. O documento também cita o Pix, modelos capazes de identificar municípios com maior risco de corrupção e a presença do Brasil entre as principais origens de tráfego do ChatGPT.
O relatório não apresenta um ranking nem classifica o país como líder em inteligência artificial. As experiências brasileiras aparecem em diferentes capítulos para mostrar como a tecnologia e a infraestrutura digital podem ser aplicadas a problemas concretos, da concessão de crédito ao funcionamento da Justiça.
Nubank usa IA para avaliar risco de crédito
No sistema financeiro, o exemplo brasileiro apresentado pelo Banco Mundial é o nuFormer, modelo de inteligência artificial desenvolvido pelo Nubank para análise de crédito.
De acordo com o relatório, a ferramenta reduziu em estimados 70% o risco para as mesmas populações de tomadores, na comparação com os modelos anteriores utilizados pela instituição.
O nuFormer aparece na parte do estudo dedicada à inclusão financeira. O Banco Mundial afirma que sistemas de inteligência artificial podem combinar dados de transações, pagamentos digitais, comércio eletrônico e contas de serviços para avaliar consumidores que não possuem um histórico formal de crédito.
Ao identificar padrões que os modelos tradicionais não conseguem captar, essas ferramentas podem melhorar a avaliação de risco e permitir que as instituições financeiras atendam clientes que anteriormente seriam recusados.
O potencial de expansão do crédito, contudo, vem acompanhado de riscos. O relatório alerta que a qualidade do resultado depende dos dados utilizados para treinar os modelos.
Quando as bases não representam adequadamente mulheres, trabalhadores informais, pequenos agricultores e micro, pequenas e médias empresas, a tecnologia pode reproduzir exclusões já existentes. Os sistemas também podem ampliar vieses na análise de crédito ou ser utilizados para explorar vulnerabilidades dos consumidores durante a oferta de empréstimos.
Pix não é IA, mas pode servir de base para novos serviços
O Pix também é mencionado pelo Banco Mundial, mas não como uma aplicação de inteligência artificial. O sistema brasileiro é apresentado como exemplo de infraestrutura pública digital reutilizável e interoperável.
A rede permite que bancos, fintechs e aplicativos de pagamento operem sobre uma estrutura comum. Segundo o relatório, esse modelo facilita a entrada de novos participantes e possibilita acrescentar ou substituir serviços sem reconstruir todo o sistema.
O Pix é citado ao lado da UPI, plataforma de pagamentos instantâneos da Índia, e da X-Road, sistema de intercâmbio de dados da Estônia.
Para o Banco Mundial, infraestruturas compartilhadas desse tipo podem facilitar o desenvolvimento e a expansão de aplicações de inteligência artificial. A existência de uma base comum reduz os custos de integração e permite que novos serviços cheguem a empresas e consumidores com maior rapidez.
Sistema do STF reduz análise de 40 minutos para cinco segundos
Na Justiça, o caso brasileiro destacado pelo relatório é o VICTOR, sistema utilizado pelo Supremo Tribunal Federal para processar documentos judiciais.
A ferramenta transforma processos digitalizados em textos que podem ser analisados por computadores. O sistema também auxilia na identificação de recursos relacionados a temas de repercussão geral, mecanismo utilizado para selecionar questões relevantes que devem orientar decisões em processos semelhantes.
Segundo o Banco Mundial, o tempo necessário para realizar essa análise caiu de 40 minutos para cinco segundos.
O exemplo é usado para mostrar que a aplicação da inteligência artificial no setor público depende de uma etapa anterior: a digitalização dos registros. Documentos armazenados apenas como imagens ou em formatos incompatíveis precisam ser convertidos em dados estruturados e legíveis por máquinas.
Sem essa preparação, mesmo os sistemas mais sofisticados encontram dificuldades para produzir resultados ou ser incorporados às rotinas dos órgãos públicos.
IA pode indicar municípios com maior risco de corrupção
Outra referência ao Brasil envolve modelos de aprendizado de máquina treinados com informações de auditorias realizadas em municípios.
De acordo com o relatório, essas ferramentas conseguem prever quais governos locais apresentam maior risco de corrupção. Os resultados poderiam ajudar os órgãos federais de controle a direcionar auditorias para os locais em que a probabilidade de irregularidades é mais elevada.
O Banco Mundial ressalva, no entanto, que esses modelos ainda não foram incorporados às atividades de fiscalização.
O caso mostra uma das limitações identificadas pelo estudo. Uma previsão estatisticamente precisa não produz necessariamente efeitos concretos quando a ferramenta não está integrada aos processos de trabalho ou quando faltam mecanismos legais e institucionais para transformar o alerta em investigação.
Brasil aparece entre as principais origens de tráfego do ChatGPT
O relatório também menciona a presença brasileira entre os usuários de ferramentas de inteligência artificial generativa. No fim de março de 2024, o Brasil estava entre as cinco principais origens de tráfego do ChatGPT, ao lado de Estados Unidos, Índia, Filipinas e Indonésia.
O levantamento é baseado em dados da plataforma Semrush e mede os acessos ao site. Portanto, não representa um ranking amplo de adoção de inteligência artificial por países.
O Banco Mundial observa ainda que a contagem utiliza endereços de IP únicos. Uma mesma pessoa pode ser contabilizada mais de uma vez ao acessar a plataforma por aparelhos ou redes diferentes.
Em conjunto, os casos do Nubank, do STF e dos modelos aplicados às auditorias mostram usos da inteligência artificial em diferentes estágios de implementação. O Pix ocupa outro papel: é a infraestrutura digital que pode facilitar a criação e a expansão de novos serviços.
Os exemplos também expõem limites. Dados pouco representativos podem ampliar desigualdades, previsões não incorporadas às rotinas institucionais podem perder utilidade e a digitalização de documentos continua sendo uma condição básica para o emprego da tecnologia no setor público.