A temporada de resultados do terceiro trimestre dos grandes bancos brasileiros começa nesta semana. A qualidade dos ativos continua no radar dos investidores, diante do elevado endividamento das famílias, da inadimplência alta e da possibilidade de adoção de medidas macroprudenciais.
Na avaliação da equipe do UBS BB liderada pelo analista Thiago Batista, também será fundamental acompanhar a mensagem que as instituições financeiras passarão aos investidores nas conferências sobre os resultados. A maioria das divulgações ocorrerá após o segundo turno da eleição presidencial, no próximo domingo.
As ações dos maiores bancos brasileiros tiveram forte valorização após o primeiro turno, que mostrou o senador Flávio Bolsonaro (PL) à frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e alimentou a percepção de maior probabilidade de mudança nas expectativas sobre a política fiscal.
No dia 5, considerando os dados de fechamento, a unit do BTG Pactual disparou 22,52%, as ações preferenciais do Bradesco subiram 13,57%, o Banco do Brasil avançou 11%, os papéis preferenciais do Itaú Unibanco ganharam 10,37% e a unit do Santander Brasil teve alta de 2,63%. No mesmo pregão, o Ibovespa, principal índice da bolsa brasileira, encerrou em alta de 7,7%.
No fim de setembro, dados do Banco Central mostraram que a inadimplência no segmento de recursos livres chegou a 6,6% em agosto, renovando o maior nível da série histórica, iniciada em março de 2011. Em julho, o indicador havia ficado em 6,4%.
O BC tem sinalizado que estuda medidas para conter o endividamento da população. Com isso, o mercado passou a considerar a possibilidade de ações macroprudenciais, que podem incluir aumento das exigências de capital e dos compulsórios, elevação dos pesos de risco, mudanças no Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) e adoção de um Adicional Contracíclico de Capital Principal (ACCPBrasil).
Banco do Brasil concentra preocupação com provisões e crédito rural
O Banco do Brasil é o que mais preocupa os analistas do setor. A equipe do BTG Pactual liderada por Eduardo Rosman afirmou que mantém uma visão cautelosa sobre a ação, devido à fraqueza operacional do banco. A avaliação considera também o potencial impulso à confiança decorrente de uma mudança de governo, que atualmente parece ser o cenário-base dos investidores.
Em relatório divulgado na segunda-feira, os analistas do BTG destacaram que ainda há incerteza sobre a magnitude do aumento das provisões do BB no terceiro trimestre. Segundo eles, a maior concentração de vencimentos de empréstimos do agronegócio no período e a falta de melhora na pontualidade dos pagamentos podem levar as provisões do banco a crescer “de um dígito alto a dois dígitos baixos na comparação trimestral”.
Os analistas do JPMorgan liderados por Yuri Fernandes rebaixaram a recomendação para as ações do BB a “underweight”, segundo relatório divulgado no dia 6. Eles ressaltaram que a recuperação do banco pode levar alguns anos.
Para Gustavo Schroden e Arnon Shirazi, do Citi, as baixas taxas de regularização de pagamentos e a ausência de benefícios relevantes da MP 1376 reforçam a avaliação de que os desafios relacionados à qualidade dos ativos no crédito rural provavelmente persistirão em 2027.
Rosman e a equipe do BTG não descartam uma queda de 50% a 60% no lucro antes dos impostos (EBT) do Banco do Brasil em relação ao trimestre anterior, para cerca de R$ 2 bilhões. O lucro líquido ficaria mais próximo de R$ 1,9 bilhão, recuo de 50% na comparação trimestral, com retorno sobre o patrimônio de aproximadamente 4%.
O BB será o último entre os bancos do Ibovespa a divulgar seus números, em 11 de novembro, após o fechamento do mercado. As projeções compiladas pela LSEG apontam lucro de R$ 3,7 bilhões.
Bradesco, Nubank e Santander enfrentam pressão na qualidade dos ativos
O Bradesco abre o calendário dos bancos que integram o Ibovespa, na quinta-feira, após o fechamento do mercado. Os analistas Daniel Vaz e Rafael Nobre, do Safra, esperam um resultado com viés “levemente negativo”. Na avaliação da dupla, as provisões mais elevadas devem mais do que compensar a recuperação sequencial da margem financeira com clientes (NII). Com isso, o banco dependeria dos resultados de seguros e do controle de custos para sustentar um lucro líquido estável.
A equipe do Citi prevê um resultado misto para o Bradesco. A expectativa é que as receitas fortes com tarifas e atividades relacionadas a mercados compensem apenas parcialmente as pressões sobre a qualidade dos ativos.
No mesmo relatório divulgado no começo do mês, os analistas do JPMorgan elevaram a recomendação para as ações do Bradesco a “overweight”. Embora mantenham cautela em relação ao cenário operacional de curto prazo, avaliam que o banco oferece uma oportunidade de recuperação mais atraente a partir dos níveis atuais. Para eles, o valuation e a confiança do mercado já refletem uma parcela significativa dos desafios de curto prazo.
De acordo com as estimativas compiladas pela LSEG, o Bradesco deve registrar lucro líquido de R$ 7,1 bilhões no terceiro trimestre.
O Nubank deve continuar apresentando forte expansão das receitas, segundo cálculos da equipe do UBS BB. A expectativa é de continuidade da tendência observada nos últimos trimestres, o que deve sustentar uma expansão moderada do lucro na comparação sequencial.
“Ao mesmo tempo, esperamos um aumento das provisões em relação ao trimestre anterior”, afirmaram os analistas. Eles ressaltaram que o programa governamental de renegociação de dívidas Desenrola teve impacto positivo sobre o custo de crédito do Nubank no segundo trimestre, mas esse benefício deverá ser menor no terceiro.
As estimativas da LSEG apontam lucro de US$ 1,09 bilhão para o Nubank, que divulga seu balanço em 12 de novembro.
Para o Santander Brasil, a equipe do Safra espera um trimestre fraco. “Uma vez que o crescimento moderado da carteira de crédito, a contínua compressão dos spreads e a deterioração persistente da qualidade dos ativos devem levar a mais uma queda sequencial tanto do lucro antes dos impostos quanto do lucro líquido”, afirma a análise.
Os analistas do Citi têm avaliação semelhante. Eles esperam que uma dinâmica menos favorável da margem financeira (NII) e os custos elevados de crédito mais do que compensem o crescimento saudável da carteira de empréstimos.
“A qualidade dos ativos do Santander Brasil continua sendo o principal ponto de atenção, com pressões nos segmentos de cartões de crédito para clientes de menor renda, pequenas e médias empresas (PMEs) e agronegócio”, afirmaram. “Por outro lado, as receitas de tarifas e a disciplina no controle de custos devem oferecer algum suporte aos resultados.”
O Santander Brasil divulga seu desempenho em 28 de outubro. As previsões da LSEG apontam lucro de R$ 3,2 bilhões.
Itaú e BTG devem apresentar resultados sólidos, avaliam analistas
Em meio às expectativas de mais um trimestre desafiador para os bancos brasileiros, os analistas do Safra avaliam que o Itaú Unibanco deve apresentar resultados sustentados pela resiliência da qualidade dos ativos e pelo controle disciplinado de custos, apesar do crescimento mais fraco da carteira de crédito e das receitas de tarifas.
O Citi também espera um trimestre sólido para o Itaú, com poucas surpresas. A projeção considera crescimento saudável da carteira de crédito, margem financeira (NII) resiliente, qualidade dos ativos estável e manutenção da disciplina no controle de custos.
“Os resultados do Itaú têm sido consistentes e relativamente previsíveis, e acreditamos que essa tendência continuará no terceiro trimestre”, afirmaram Batista e a equipe do UBS BB em relatório divulgado nesta semana.
Para o BTG Pactual, a expectativa também é positiva. Os analistas do Citi esperam mais um trimestre sólido, com crescimento moderado dos lucros na comparação trimestral. A área de crédito deve continuar sendo o principal destaque, sustentada pela expansão da carteira de empréstimos, por spreads estáveis e por uma dinâmica favorável de provisões.
A equipe do UBS BB também avalia que as operações de crédito do BTG devem manter um ritmo sólido de crescimento, tanto nos segmentos de pessoa física quanto no corporativo. As receitas de banco de investimento, porém, ainda devem ser fracas na comparação trimestral, repetindo o desempenho do segundo trimestre.
O Itaú divulga seus números em 3 de novembro, e o BTG, no dia 10. As projeções compiladas pela LSEG apontam lucro de R$ 12,6 bilhões para o Itaú e de R$ 5,2 bilhões para o BTG.