Como o coronavírus está alterando a cadeia de suprimentos

Reprodução Forbes
Trabalhadores montam aparelhos de ar condicionado na linha de produção de uma subsidiária da TCL em Jiujiang, na província de Jiangxi, no centro da China

O coronavírus (SARS-COV-2, que causa a Covid-19) está causando mudanças drásticas em uma importante operação de varejo já em fluxo: a cadeia de suprimentos. Nos últimos três anos, turbulências geopolíticas e mudanças de prioridades vêm preparando o terreno para transições. Estudos mostram que houve uma mudança acentuada da China para países como Vietnã, Bangladesh, Índia e México. No entanto, o coronavírus acelerou a ação –apesar de a China estar se recuperando do surto.

Nenhum outro país chega próximo ao atual domínio de fabricação da China ou possui a infraestrutura similar para apoiar um negócio. Mas, com o desenvolvimento de novas capacidades e a evolução das iniciativas ambientais, o campo competitivo está em transição. Ele tem forçado os varejistas a enfrentar uma situação mais complexa e revisar cuidadosamente todos esses fatores antes de dar qualquer passo. E o coronavírus tem complicado ainda mais essa conversa no campo da cadeia de suprimentos.

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A China tem sido, e continua sendo, o maior país em produção de bens de consumo. Segundo uma pesquisa da CGS (Computer Generated Solutions), 30,75% das importações dos EUA vieram da China em outubro de 2019. Nos 12 meses anteriores ao final de outubro, as importações da China caíram 5,6%, para US$ 22,13 bilhões. A expectativa na época era de que, apesar de todas as guerras comerciais, a China continuasse produzindo uma grande parte dos bens destinados aos EUA, mesmo que essa parcela caísse um pouco. A infraestrutura e o know-how são incomparáveis ao resto do mundo. No entanto, que o efeito total do coronavírus ainda não foi medido. Embora algumas fábricas tenham reaberto, os relatórios sugerem que a produtividade ainda não chegou nem perto da capacidade. O Covid-19 parece ter diminuído a um ponto em que algumas lojas estão reabrindo em alguns locais.

O relatório da CGS aponta que, embora a China tenha mão de obra barata há 20 anos, ela não é mais reconhecida como tal para produzir mercadorias. No entanto, tornou-se um país muito eficiente pelo investimento na indústria de vestuário. É preciso observar também que o tempo de envio de Xangai para Los Angeles é de 23 a 31 dias; mais curto do que em qualquer outro país, exceto o México.

Veja a seguir países que estão se beneficiando dessa transição.

Bangladesh

O país é o segundo maior exportador de roupas, depois da China. Seu setor de vestuário de US$ 30 bilhões produz peças para alguns dos maiores varejistas do mundo. Essa atividade de fabricação é responsável por 80% dos ganhos de exportação do país. No período encerrado em outubro de 2019, os envios de roupas para os Estados Unidos aumentaram quase 10%, para US$ 5,1 bilhões. As importações de calçados aumentaram 32,6% no mesmo período. Bangladesh tem tornado sua logística mais eficiente. O país aumentou os salários em 2019 e destinou a maioria dos trabalhadores do setor a um digital de remuneração. O tempo de entrega de Bangladesh para Los Angeles é de 28 a 34 dias.

Vietnã

As exportações de vestuário do Vietnã para os Estados Unidos no período encerrado em outubro de 2019 aumentaram 10,9% em relação ao período anterior. Também houve crescimento no valor das exportações de cerca de US$ 11,7 bilhões, causado por um aumento nos salários. Segundo o relatório da CGS, o país recebeu um influxo de investimentos e está desfrutando dos benefícios do Comprehensive and Progressive Agreement for Trans-Pacific Partnership –um acordo que dá às nações parceiras acesso isento de impostos aos produtos fabricados no Vietnã. Como o país fica ao lado da China, era fácil para as empresas transferir a produção para lá. Segundo fonte, eles construíram fábricas e cadeias de suprimentos voltadas para a produção de massa. Embora tudo isso melhore o Vietnã como local de produção, existe alguma preocupação de que um déficit comercial crescente possa gerar tarifas. O tempo de entrega do Vietnã para Los Angeles é de 29 a 35 dias, semelhante ao Bangladesh.

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Índia

No período encerrado em outubro de 2019, as importações para os Estados Unidos aumentaram 6,9%, para US$ 3,6 bilhões. As importações de calçados aumentaram 5,4% no mesmo momento. Além das capacidades de produção de corte e costura, a Índia está no processo de construção de seus recursos verticais. Setenta e quatro parques têxteis foram aprovados; 18 estão em operação e 32 em desenvolvimento. Para garantir o cumprimento dos direitos humanos, o governo está inspecionando milhares de fábricas. No primeiro semestre de 2019, os Estados Unidos designaram a Índia como país em desenvolvimento beneficiário do programa Generalized System of Preference (sistema tarifário preferencial que oferece redução de impostos para produtos). Mais ações podem ser tomadas à medida que o governo assimila o que pode ser considerado um desequilíbrio comercial. O tempo de entrega da Índia para Los Angeles é de 31 a 37 dias.

México

À medida que a atividade aumentou nesses outros países, as importações de vestuário do México caíram 5,6% nos primeiros 10 meses de 2019, com exceção dos produtos jeans, que aumentaram 2,9% para US$ 690,4 milhões. No entanto, recentemente foi assinado um novo acordo entre Estados Unidos, México e Canadá que provavelmente levará à importação de mais produtos mexicanos. A incerteza da implementação do contrato forçou as empresas a equilibrar fatores de risco e oportunidade. O país também enfrenta algumas questões de direitos trabalhistas que podem ser encarados como obstáculos. Além disso, o governo também aumentou o salário mínimo em 20% em janeiro de 2020. As exportações de calçados caíram 13,2% nos primeiros 10 meses de 2019. O tempo de entrega da Cidade do México para Los Angeles é de cerca de 6 a 7 dias.

Conclusão

Embora haja uma mudança da China para outros países devido a razões geopolíticas, ainda não está clara a melhor decisão sobre onde obter bens. É possível observar atividades de transferência acontecendo pelas preocupações geradas pelo coronavírus. Os varejistas já estavam em busca de opções fora da China para produzir roupas. Embora outros países ainda precisem adquirir a sofisticação operacional da China, no momento são uma boa opção –visto que a recuperação do país será lenta e dolorosa, mesmo que as novas infecções por vírus diminuam.

Os principais varejistas dos EUA não podem esperar. Os pedidos devem ser feitos agora para o Natal de 2020 e as entregas precisam ser seguras. Como algumas empresas já fizeram, transferir a demanda para um país próximo faz sentido. Apesar dos números cobrirem até outubro de 2019, eles são um indicativo de mudança. O coronavírus acrescenta incerteza ao planejamento de curto prazo e acrescenta urgência para acelerar a mudança na produção momentânea.

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