O bilionário por trás do Craigslist está gastando quase US$ 200 milhões para salvar o jornalismo e acabar com as fake news

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Craig Newmark anunciou que contraiu Covid-19 e que a desinformação está acabando com a democracia

“Eu testei positivo para o coronavírus em junho, mas tive a doença de forma assintomática aparentemente”, diz Craig Newmark, bilionário e fundador do Craigslist, por meio de uma videochamada, em julho, de sua casa em São Francisco. Falando de seu jeito monótono habitual, Newmark só falou sobre sua doença por alguns minutos –ele foi testado porque seu dentista precisava de dois resultados negativos antes de uma operação. Sim, ele teve dois testes negativos. Ele diz não ter ideia de como contraiu o vírus, pois se isolou rigorosamente com sua esposa, que pode ser ouvida cortando legumes no fundo do áudio. Após a ligação, ele diz, ele provavelmente pedirá uma pizza de anchova do Bambino’s, um restaurante italiano local. Talvez com abacaxi.

Se você entrar no site Craigslist hoje, parece que está em uma cápsula do tempo, de 1995, quando a internet ainda estava só começando. Role a tela pelas postagens, escritas em Times New Roman, de apartamentos disponíveis ou móveis antigos, e quase se pode ouvir o som dos efeitos sonoros dos computadores antigos. Da mesma forma, quando escutamos Newmark, ele também parece congelado no tempo –constante e inalterado depois de anos, mesmo sendo dono de 42% de um site de anúncios classificados que teve receita estimada de US$ 760 milhões no ano passado. Mesmo quando a avaliação mais conservadora de seu patrimônio líquido é de US$ 1 bilhão, com base em sua participação no Craigslist e nos milhões de lucros pagos nas últimas duas décadas. E mesmo ele tendo testado positivo para Covid-19, a mais contemporânea das doenças.

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Mas, naquela segunda-feira à tarde, Newmark não estava falando sobre seu diagnóstico ou sobre seu patrimônio líquido (sobre o qual ele sempre diz: sem comentários). Ele está aqui para falar sobre a desinformação –e por que ele acha que ela está destruindo a democracia dos Estados Unidos e o que está fazendo para impedir que isso aconteça. Desde 2016, Newmark doou US$ 170 milhões ao jornalismo, para combate ao assédio contra jornalistas, segurança cibernética e integridade eleitoral. Ele acredita que essas áreas são os “campos de batalha” contra a desinformação. O inimigo, segundo Newmark, não são apenas os russos, mas também os aliados nacionais desses adversários. Quando perguntado se vê o presidente Donald Trump como um desses aliados, Newmark hesita, mas classifica a entrevista da Fox News em 19 de julho com Trump como “educacional”. A entrevista, que mostrou o jornalista da Fox discutindo com o presidente americano sobre suas alegações de que os Estados Unidos tinham uma das mais baixas taxas de mortalidade de Covid-19 do mundo, foi nomeada como uma “aula de mestre em como não deixar Trump escapar com besteiras” por Trevor Noah, o comediante e apresentador do “The Daily Show”.

E como ele sabe que seu dinheiro não foi desperdiçado? “As pessoas que estão no controle deste país estão sujeitas a um tipo controle por nossos adversários estrangeiros, e eles continuarão a desmantelar nossa democracia”, diz Newmark.

O ano de 2020 será decisivo para Newmark, pois indicará se seu dinheiro foi bem gasto ou não. Além das grandes contribuições ao jornalismo, ele também distribui doações de menor porte para segurança cibernética e para a integridade eleitoral. “Eles fazem parte da mesma coisa, estão defendendo nosso país e protegendo as eleições”, diz Newmark. Algumas doações recentes incluem US$ 1 milhão para a Global Cyber ​​Alliance, uma organização sem fins lucrativos internacional em segurança de computadores, US$ 150 mil para a Women in CyberSecurity, outra organização focada na segurança cibernética de mulheres, US$ 1 milhão para a ProPublica, por sua cobertura nas eleições americanas, e US$ 250 mil para o grupo sem fins lucrativos do autor PEN America, organização sem fins lucrativos que trabalha para defender a liberdade de expressão, para combater desinformação e o assédio online, mais US$ 250 mil para as Girl Scouts, organização de jovens para meninas escoteiras dos Estados Unidos, para financiar programas de segurança cibernética.

Newmark disse que suas doações terão sucesso se “elegermos pessoas que querem defender o país, que são honestos e que querem combater a corrupção”. Embora não tenha apoiado publicamente nenhum candidato à presidência, ele diz que apoia os políticos com quem trabalhou. Como Kamala Harris, com quem cruzou caminhos quando trabalhou na promotoria de São Francisco; Elizabeth Warren, quando trabalhou com o Consumer Protection Bureau; e Tammy Duckworth, quando trabalhou no escritório do Veterans Affairs. “Todos as três são potenciais candidatos à vice-presidência, e as três vão fazer ótimos trabalhos”, diz ele.

No dia da entrevista, Newmark estava particularmente preocupado com o que estava acontecendo em Portland. Poucos dias antes, de acordo com uma declaração do Departamento de Segurança Interna, protestos pacíficos na cidade haviam se tornado violentos, com supostos anarquistas destruindo o perímetro da cerca do Tribunal Federal de Hatfield. Em resposta, oficiais federais foram a Portland. O presidente Trump tuitou em defesa do envolvimento do governo federal nos protestos, escrevendo: “Estamos tentando ajudar Portland, não machucar. Sua liderança, durante meses, perdeu o controle para anarquistas e agitadores. Eles estão perdendo ação. Devemos proteger a propriedade federal e O NOSSO POVO. Eles não são apenas manifestantes, são conspiradores!”

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“O episódio atual em Portland parece refletir episódios muito ruins na história do mundo”, diz Newmark. “Isso aconteceu na Rússia e é parte de como Putin chegou ao poder. Isso aconteceu na década de 1930 na Alemanha.”

A noção de que uma imprensa saudável é a espinha dorsal da democracia começou para Newmark em 1970, com seu professor de história do ensino médio em Morristown, Nova Jersey: “Esse professor nos disse que uma imprensa confiável é o sistema imunológico de uma democracia”, ele lembra. A ideia continuou a penetrar na mente de Newmark e, em 2016, com a eleição de Trump, ele sentiu que o sistema imunológico da democracia precisava de ajuda. No ano seguinte, seu amigo, o jornalista e professor da CUNY, Universidade da Cidade de Nova Iorque, Jeff Jarvis, disse à Newmark para ler o “Handbook of Russian Information Warfare”, ou Manual da Guerra da Informação Russa em tradução livre, publicado pela Divisão de Pesquisa da Faculdade de Defesa da OTAN. O manual descreve a estratégia de adversários estrangeiros: levar a desinformação aos meios de comunicação de massa, procurar polarizar diferentes grupos no país e indignar os dois lados, tudo com a intenção de divisão, caos e desestabilização do governo. “Isso teve um grande impacto em mim”, diz Newmark.

Suas maiores doações individuais desde 2016 foram para iniciativas já existentes e novas do jornalismo. Algumas foram boas, enquanto outros deram errado. Em junho de 2018, a Newmark doou US$ 20 milhões à CUNY para os graduados de jornalismo, que foi renomeado como o curso Craig Newmark de Graduados da Escola de Jornalismo, após a doação. Em fevereiro de 2019, a Newmark doou outros US$ 10 milhões à outra universidade de Nova Iorque, Escola de Jornalismo de Columbia para lançar um novo centro de ética e segurança em jornalismo.

Ele também doou US$ 20 milhões, em setembro de 2018, para financiar a criação de uma organização de notícias sem fins lucrativos chamada The Markup. Seu foco deveria ser uma lente investigativa sobre como a Big Tech estava realmente impactando a vida cotidiana nos EUA. Com uma equipe fundadora que incluiu vencedores do Prêmio Pulitzer, além de renomados programadores e cientistas de dados, o The Markup parecia ser promissor. Mas as divergências quanto à direção de sua cobertura levaram à demissão de sua editora-chefe, Julia Angwin, que reclamou publicamente que o site estava sendo empurrado para “defesa contra as empresas de tecnologia” por uma das cofundadoras do site, Sue Gardner, que já haviam trabalhado na Wikimedia. Após a demissão de Angwin, a equipe editorial renunciou em massa. E isso foi tudo antes do lançamento do site (Angwin agora voltou como editor-chefe; Gardner se foi, e o site foi lançado em fevereiro, com cerca de um ano de atraso).

Durante o tumulto, Newmark permaneceu quase completamente silencioso, com apenas um tuíte em abril de 2019 abordando as incidências: “Estou levando isso muito a sério”. Newmark diz que seu silêncio era necessário. “A ética de financiar jornalismo sem fins lucrativos é tal que eu tive de não interferir nem ajudar”, diz Newmark agora. “Eles também não precisaram da minha ajuda.” Ele diz também que está satisfeito com a produção atual do The Markup hoje, e seu envolvimento é apenas retuitar novas matérias do The Markup. “Às vezes, você encontra pessoas boas, e aí você sai do caminho, e deixa elas fazerem o trabalho delas”, ele conclui.

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A ironia de Newmark focar no jornalismo como uma de suas principais áreas de doação não passou batida pelos jornalistas, que acreditam que foi o site dele que tirou centenas de milhões em receita de jornais americanos, que antes da fundação do Craigslist tinham nos classificados cerca de 35,6% do faturamento, de acordo com dados da News Media Alliance (ex-Newspaper Association of America). A resposta enlatada de Newmark a isso há anos tem sido uma referência à pesquisa do analista de mídia Thomas Baekdal, que mostrou que a circulação de jornais estava diminuindo muito antes de o Craigslist aparecer devido aos canais de notícias a cabo. Baekdal também argumentou que o Craigslist era apenas uma das centenas de sites que recebiam receitas de publicidade de jornais, de eBay (fundado no mesmo ano que o Craigslist) a Autotrader.com (fundado dois anos depois). Em 2018, o New York Times, que chamou Newmark de “vilão do jornal”, estendeu a mão para Baekdal. Ele escreveu de volta: “Se eu imaginasse um mundo onde o Craigslist nunca foi inventado, não acho que isso faria alguma diferença.”

Newmark iniciou o Craigslist em 1995, dois anos depois de se mudar para São Francisco de Nova Jersey e com 17 anos de experiência em programação de computadores pela IBM. Em seu lançamento, o Craigslist era uma lista com curadoria de eventos de São Francisco que Newmark enviava por e-mail a amigos e colegas. Ele logo o transformou em um site de classificados, e os usuários rapidamente começaram a usar o site para vender todos os tipos de mercadorias. Para poder monetizar, Newmark decidiu que algumas listagens –empregos, imóveis, carros– exigiriam uma taxa, variando de US$ 7 a US$ 75, mas a maioria seria gratuita para os usuários.

Em 1999, Newmark foi CEO da plataforma por um breve período de dez meses, antes de dar o cargo a Jim Buckmaster, que permanece CEO até hoje (Buckmaster não respondeu a nenhum comentário). Enquanto Newmark ainda mantém uma grande participação na empresa, ele se rebaixou para um “representante de atendimento ao cliente”, de acordo com sua página no LinkedIn, e diz que não está mais envolvido nas operações diárias do Craigslist. O site é enorme, com US$ 1 bilhão em receitas em 2018, de acordo com Peter Zollman, analista da empresa de pesquisa de anúncios classificados, AIM Group, embora esse número tenha caído 27% nos últimos ano devido a um declínio nos anúncios de emprego e à crescente concorrência da empresa. Sites financiados por capital de risco, como OfferUp, e grandes empresas de tecnologia, como o Facebook Marketplace. Ainda assim, com menos de cinquenta funcionários e baixos custos indiretos, Zollman estima que as margens de lucro estejam próximas a 85%, com quase metade disso sendo destinada a Newmark.

Em 29 de julho, após semanas de uma maior presença de oficiais federais, eles concordaram em sair de Portland. “Eles agiram como uma força de ocupação e trouxeram violência”, disse a governadora Kate Brown, do Oregon, em um tuíte. No dia seguinte, o presidente Trump também se antecipou nas declarações e tuitou que as novas eleições americanas por correio serrão “INCORRETAS E FRAUDULENTAS” e sugeriu adiá-las. Newmark continua assistindo a tudo de sua casa. Ele está tuitando e retuitando prolificamente, compartilhando notícias sobre desinformação das eleições e ética no jornalismo ou anúncios de novos presentes de caridade. Ele também costuma tuitar fotos de um pássaro (ele é um ávido observador de pássaros). E ocasionalmente, de sua esposa: “Sra. Newmark reclamou que um esquilo está comendo os mirtilos de nossas plantas…”, ele escreve.

Não importa o que aconteça em novembro, uma coisa é certa: ele continuará fazendo o que faz há anos. “Tenho muito dinheiro que ainda vou doar à medida que meus anos de velhice continuam”, diz Newmark, que completará 68 anos em dezembro. Ele continuará doando ao jornalismo e à cibersegurança, ele diz, mas também a outras áreas de seu interesse, incluindo US$ 100 mil em resgate de animais silvestres e “centenas de milhares” em fundos de ajuda a clubes de comédia que permaneceram fechados durante a pandemia. “Às vezes, faço uma exceção engraçada”, diz Newmark, imperturbável e monótono como sempre.

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