A Meta demitiu 8 mil funcionários no dia 20 de maio, enquanto acelera seus investimentos em inteligência artificial. A bigtech promete recompensar os acionistas com o sucesso da adoção da nova tecnologia.
Não é um caso isolado. Em 2026, o setor de tecnologia registrou o maior volume de demissões desde a reviravolta provocada pela pandemia. Os empregadores justificaram a maioria desses cortes como consequência da integração da IA, alimentando o medo de que a automação já esteja substituindo milhares de postos de trabalho.
Porém, uma análise mais atenta dos dados revela uma realidade diferente. Por trás das demissões, escondem-se o mau desempenho financeiro, uma falsa “esperança” na IA e uma infinidade de outros motivos estruturais.
O CEO do Adecco Group, Denis Machuel, afirma que, segundo pesquisas realizadas pela consultoria há três meses com profissionais recém-desligados, a realidade passa longe do alarme geral. “Apenas 1,4% dessas pessoas foram, de fato, substituídas pela IA“, afirma o executivo.
Na prática, as empresas planejam os cortes para eliminar funcionários que consideram “peso em excesso”. O impacto real, no entanto, é prejudicial: as demissões geram sobrecarga e maior pressão nas equipes que ficam.
Nesse cenário, a inteligência artificial serve como uma cortina de fumaça bastante conveniente. “Se você olhar para os fatos e para os planos de reestruturação que as empresas estão executando, a realidade é bem diferente do que presumimos”, alerta Machuel. “Essa narrativa de justificar cortes pela implementação da IA é uma maneira fácil de as corporações parecerem atraentes e produtivas para os mercados financeiros.”
O que acontece após as demissões?
Machuel não está sozinho nessa análise. Durante o Workhuman Forum, evento voltado para líderes de RH, em Londres, o CEO da Workhuman, Eric Mosley, compartilhou o mesmo sentimento, mas foi um passo além. Em sua palestra, explicou o que acontece em organizações que se apressam em adotar a IA guiadas por um otimismo cego: pesquisas mostram que mais de 80% dos projetos de inteligência artificial falham, desperdiçando recursos valiosos e bilhões de dólares.
Além disso, apenas 10% dos entrevistados em um levantamento da McKinsey relatam ter conseguido escalar o uso de agentes autônomos em alguma função de negócios (seja RH, marketing, vendas ou gestão de risco). “Muitas vezes, os empregadores iniciam demissões devido a um otimismo irreal em relação à IA, e não por estarem ancorados na realidade do negócio”, diz Mosley.
O fato é que a tecnologia ainda não está substituindo o trabalho na escala alardeada pelas manchetes. O Fórum Econômico Mundial prevê a perda de 92 milhões de vagas até 2030, embora estime um aumento líquido de 78 milhões de empregos. Contudo, quantos desses 92 milhões de cortes poderão ser rastreados de forma precisa até a adoção genuína da automação? Essa é uma questão em aberto.
IA: medo versus inovação
Embora a IA ainda não esteja substituindo funções em sua totalidade, ela já substituiu outra coisa: a certeza. Hoje, os funcionários operam em uma cultura de medo constante e desconfiança. Essa falta de segurança psicológica traz uma consequência irônica: sabota diretamente a adoção, o crescimento e o avanço da própria IA nas corporações.
“A confiança, e não apenas a tecnologia, determina quem se adapta com sucesso à disrupção”, decreta Machuel, citando um relatório recente da Adecco. A executiva de RH Hollie Castro ecoou o alerta no fórum da Workhuman: “As organizações não podem escalar a adoção da IA mais rápido do que escalam a confiança”.
Especialistas como Rachel Botsman, autora, palestrante e pesquisadora britânica, têm destacado amplamente a necessidade de transparência na liderança, ressaltando que a confiança é a cola que une as equipes, alinha os objetivos e garante a recompensa pela inovação.
Por enquanto, porém, os profissionais trabalham em empresas que tomam decisões baseadas no que acionistas esperam que a IA venha a fazer no futuro, não no que ela entrega atualmente. Simultaneamente, esses mesmos profissionais lidam com a ameaça de perder o emprego devido à instabilidade dos mercados e à má gestão financeira.
Os profissionais de hoje competem contra uma psicologia corporativa que muda mais rápido do que a tecnologia se materializa. E os empregadores que insistem em usar a IA como bode expiatório podem acabar enfrentando uma crise muito mais profunda a longo prazo: uma força de trabalho que não confia mais na liderança ou nas narrativas de inovação, limitando o crescimento da mesma tecnologia que as empresas se esforçam tanto para implementar.
*Rachel Wells é fundadora e CEO da Rachel Wells Coaching, uma empresa dedicada a desbloquear o potencial de carreira e liderança para a GenZ e os millenials.
*Matéria originalmente publicada em Forbes.com