A Copa do Mundo de 2026 já tem o seu “azarão” favorito. A seleção de Cabo Verde, que volta a campo nesta sexta-feira (26), às 21h, contra a Arábia Saudita, vem chamando atenção pela capacidade de competir de igual para igual com grandes adversários e se firmar como uma das surpresas da competição.
Parte desse protagonismo passa pelas mãos de Vozinha. O goleiro veterano e capitão do time foi peça-chave para garantir o empate de 0x0 contra a Espanha na estreia do país africano no Mundial, com defesas que sustentaram a equipe em momentos de forte pressão.
Mas o placar não se deve a uma atuação individual. Pelo contrário, o que sustenta a campanha de Cabo Verde até aqui é a consistência coletiva dentro de campo. Na partida seguinte, contra o Uruguai, a equipe garantiu mais um empate, por 2×2. Agora, depende apenas de uma vitória para avançar ao mata-mata.
O desempenho da seleção estreante abre espaço para paralelos com o mundo corporativo e traz aprendizados aplicáveis a dinâmicas de liderança e alta performance — dentro e fora dos gramados.
A seguir, veja 4 lições de liderança e negócios para aprender com a seleção de Cabo Verde:
1. A garra de quem ainda não chegou ao topo
Empresas líderes de mercado frequentemente confundem reputação histórica com vantagem competitiva. Enquanto gigantes atuam com foco na mitigação de riscos, com medo de perder espaço em um mercado disputado ou já conquistado, equipes menores e desafiantes muitas vezes jogam para ganhar.
“Quem entra sem nada a perder joga mais leve e, normalmente, pode render mais”, diz Ricardo Basaglia, CEO da Michael Page Brasil, consultoria especializada em recrutamento de executivos, fazendo um paralelo entre o futebol e o mundo dos negócios. “O líder de mercado, sem perceber, passa a jogar para não perder. A grande pergunta para os executivos é: como se mantém a fome de quem ainda não chegou depois que você já chegou ao topo?”.
No caso cabo-verdiano, a ausência de favoritismo e o caráter de ineditismo se tornou um motor de engajamento. “Eles jogam com convicção e coragem, demonstrando um mindset de crescimento. Acreditam que é possível e projetam isso na dinâmica de jogo”, afirma Milene Schiavo, gerente sênior de liderança na LHH Brasil, consultoria com foco em desenvolvimento de lideranças e gestão de talentos.
2. Um time estrela é maior do que uma única estrela
Apesar do destaque que o goleiro Vozinha teve, a ausência de um grande craque, como em outras grandes seleções, não se traduz em desvantagem para Cabo Verde. Em equipes que priorizam o coletivo em detrimento do brilho de um jogador, o desempenho deixa de girar em torno de um único protagonista e passa a depender da consistência de um sistema em que funções são compartilhadas e todos jogam para ganhar. “Equipes bem estruturadas podem superar profissionais estrela no longo prazo”, diz Basaglia.
Nesse arranjo, a performance se torna menos concentrada e, por isso mesmo, menos previsível e mais difícil de ser neutralizada. No entanto, o executivo ainda pondera: “É a estrela que ganha o lance que decide. Muitas vezes, as empresas não enxergam o que o momento pede. Essa leitura é fundamental.”
3. Clareza de papéis sustenta confiança e alta performance
Nos confrontos contra Espanha e Uruguai, a defesa e o cumprimento rigoroso das funções em campo mostraram que a seleção de Cabo Verde opera como uma engrenagem. No mercado ou nos gramados, a colaboração flui quando o papel de cada membro é mapeado e respeitado, o que elimina a sobreposição de tarefas e a disputa interna por protagonismo. “Esse tipo de ambiente aparece quando as relações são consistentes e as pessoas percebem que podem contar umas com as outras nas entregas”, diz Schiavo.
Para Basaglia, essa previsibilidade deve ser um pilar para as equipes no ambiente de trabalho. “Confiança é saber que o colega vai fazer a parte dele sem você precisar cobrar. Por isso, desconfio de quem tenta construir isso só em happy hour ou dinâmicas de integração”, afirma o CEO. “Alta performance, no fundo, é baixa ambiguidade. Quanto menos dúvidas sobre quem faz o quê, mais o time anda”.
4. Identidade vale mais do que fórmulas prontas
Organizações bem estruturadas muitas vezes falham ao tentar importar “modelos de sucesso” do Vale do Silício ou de concorrentes, sem considerar seu próprio DNA corporativo. Na seleção de Cabo Verde, cuja base do elenco é formada por atletas nascidos, criados e que atuam fora do país, a força está justamente na capacidade de adaptação: a equipe combina a disciplina tática europeia com uma identidade cultural africana bem definida.
“Identidade importa e diversidade potencializa”, diz Schiavo. “Cabo Verde mostra a força que existe quando um grupo entende suas características e joga de acordo com elas, em vez de tentar reproduzir modelos de outros contextos”.
5. Escassez como disciplina estratégica, não limitação
Como um país de pequenas dimensões e orçamento esportivo limitado diante de potências globais, Cabo Verde é um exemplo de como a escassez de recursos pode forçar escolhas estratégicas mais conscientes. “A restrição reduz a dispersão e amplia a clareza. Foco gera energia concentrada e, portanto, maior probabilidade de inovação, que nem sempre nasce da abundância”, aponta Schiavo.
Ainda assim, a visão sobre escassez demanda objetividade no ambiente de negócios. “Quando você tem pouco, corta o supérfluo porque não tem como manter tudo, e essa clareza de prioridade pode até parecer engenhosidade”, pondera Basaglia. “Mas é preciso tomar cuidado para não romantizar a falta de dinheiro; quem diz que orçamento não importa é porque nunca precisou demitir alguém por falta de caixa.”