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Esqueça STEM: Cursos de Humanidades Podem Voltar a Ganhar Força Graças à IA

Desde 2012, as formações em humanas perderam espaço para áreas vistas como mais promissoras. Mas o mercado de trabalho está mudando

10 min

Em janeiro de 2023, depois de quatro missões de combate e 11 anos na Força Aérea dos Estados Unidos, Jeremy Crider deixou o serviço por invalidez. Em agosto, já estava matriculado na Universidade do Arizona, em Tucson, com um plano de longo prazo.
Depois de ter administrado instalações esportivas na Força Aérea, ele pretendia obter um bacharelado em administração de empresas e, depois, um doutorado em gestão esportiva, com o objetivo de trabalhar na área.

Três anos depois, os objetivos profissionais de longo prazo de Crider não mudaram, mas seu curso, sim. Ele espera se formar em maio com um bacharelado em Humanidades Aplicadas, com foco em administração de empresas, e outro em Inteligência Criativa e Inovação. “Para mim fez sentido porque, com a IA, aprender o lado humano dos negócios se tornou muito mais valioso do que simplesmente entender os números”, diz Crider, hoje com 36 anos. “Sinto que isso vai me dar uma vantagem.”

Sua monografia de conclusão do curso é focada no desenvolvimento de uma estrutura que ajude equipes esportivas a tomar decisões que levem em conta não apenas custos e lucros, mas também suas próprias identidades e as de suas comunidades — algo que poderia ter um impacto de longo prazo no valor de um time e de sua base de fãs.

A mudança de rumo na formação de Crider pode ser um prenúncio de uma retomada dos cursos de Humanidades depois de mais de uma década de forte declínio.

Algumas universidades já registram crescimento, enquanto dados sugerem que o número de estudantes que escolhem áreas como inglês e história pode estar chegando ao fundo do poço.

Tanto a queda das Humanidades quanto uma possível retomada podem, sem surpresa, ser atribuídas às preocupações com carreira e segurança financeira.

Ainda vale a pena focar em STEM?

Durante algum tempo, os cursos de STEM — sigla em inglês para ciência, tecnologia, engenharia e matemática — pareciam ser o passaporte para o mercado de trabalho.

Agora, algumas especialidades de engenharia, incluindo engenharia da computação, registraram uma forte queda no número de vagas de entrada, à medida que a inteligência artificial reduz a demanda por profissionais em início de carreira nessas áreas.
Ao mesmo tempo, formados em inglês e em alguns outros cursos de Humanidades estão descobrindo que suas habilidades versáteis tornam mais fácil conseguir um emprego, mesmo que ainda ganhem menos do que os engenheiros.

O poder das habilidades humanas na era da IA

A nova percepção que começa a se consolidar é a de que, na era da IA, habilidades humanas como criatividade, comunicação e colaboração podem oferecer uma vantagem profissional importante, independentemente da área de atuação.

“Nós realmente acreditamos que Humanidades são sinônimo de emprego”, diz Matthew Mars, responsável pelo programa da Universidade do Arizona, criado há oito anos e que, no início do ano, já contava com mais de 400 alunos.

Estudantes como Crider combinam uma formação básica em Humanidades Aplicadas com disciplinas que vão de negócios e empreendedorismo a estudos de moda e, mais recentemente, astrobiologia.

Eles também fazem uma sequência de três disciplinas voltadas para a carreira, que inclui preparação para estágio, um estágio e uma disciplina que os ajuda a explicar o que aprenderam a potenciais empregadores.

Não é a única universidade a contrariar a tendência nacional. Na Universidade da Califórnia, em Berkeley, a principal universidade pública do ranking de universidades americanas da Forbes de 2027, o número de alunos que declararam cursos na Divisão de Artes e Humanidades aumentou 55% nos seis anos anteriores a maio de 2026. Entre eles, o número de estudantes de inglês cresceu 92%.

A abordagem da Berkeley é diferente da adotada pela Universidade do Arizona. “O que nós não fizemos, e o que não vejo que faremos, é ‘Humanidades Aplicadas’”, diz, em tom de desdém, Sara Guyer, reitora da Divisão de Artes e Humanidades desde 2021. “Berkeley continua ligada aos fundamentos das disciplinas.”

Mas, além de contratar 70 novos professores, atualizar a oferta de disciplinas e fazer um esforço agressivo de divulgação de seus departamentos, Guyer tem trabalhado para tornar mais evidente para os alunos de graduação a relação entre sua formação e o sucesso profissional.

Ela está ampliando um serviço de “planejamento de carreira” e os programas de estágio de verão — alguns internacionais — para seus alunos, além de trazer ex-alunos bem-sucedidos de volta ao campus para falar sobre seus trabalhos em tecnologia, entretenimento, negócios e outras indústrias.

A localização de Berkeley na região da Baía de São Francisco — centro da indústria de IA — fez com que a universidade começasse mais cedo a pensar sobre o impacto da tecnologia.

Cinco anos atrás, diz Guyer, “não era possível dirigir por São Francisco sem ver outdoors sobre IA”, e os profissionais de Berkeley perceberam que “escrever e pensar talvez fosse se tornar mais importante do que a programação tradicional”.

O departamento de inglês acrescentou um seminário, realizado no meio do curso, sobre pensamento crítico, metodologia e escrita intensiva. Enquanto isso, professores da divisão de Guyer participam de pesquisas sobre grandes modelos de linguagem, além de estudos sobre as questões éticas e filosóficas relacionadas à IA.

O retorno das Humanidades

As universidades americanas concederam 164.847 diplomas de bacharelado em Humanidades em 2025, o menor número desde 1991 e 30% abaixo do pico registrado em 2012, segundo novos dados do projeto Humanities Indicators, da American Academy of Arts & Sciences.

No total, as Humanidades representaram apenas 8% de todos os diplomas de bacharelado, ante 13% em 2012. Nesse período, o número de diplomas em inglês caiu 44%, enquanto os de história recuaram 41%.

Ainda assim, escondidos nesses números estão sinais de que a queda pode ter chegado ao fim. O número de diplomas de Humanidades caiu apenas 0,4% entre 2024 e 2025, a menor redução anual desde 2012. O número de estudantes de filosofia, depois de anos de declínio, aumentou tanto em 2024 quanto em 2025, voltando ao nível registrado em 2015.

Robert Townsend, diretor dos programas de Humanidades, Artes e Cultura da Academia, ainda reluta em prever uma recuperação nacional mais ampla. Um novo relatório, baseado em grupos focais com estudantes do ensino médio realizados em 2025, mostra que eles tiveram dificuldade para relacionar um diploma em Humanidades a uma carreira.

Muitos “nem conseguiam imaginar o que você faria com um diploma de humanas depois da faculdade”, diz Townsend. “Eles eram muito bons em articular muitos dos valores sociais das Humanidades — achavam que seriam cidadãos melhores, membros melhores da comunidade —, mas não tinham tanta clareza quando o assunto era carreira.”

Cargos de entrada expostos à IA

Essa questão é importante. O aumento do custo das universidades nos EUA e o peso das dívidas estudantis aumentaram a pressão para escolher cursos que ofereçam um retorno evidente.

Ao mesmo tempo, a taxa de desemprego entre jovens recém-formados tem crescido, e o avanço da IA trouxe receios — e dados — de que os profissionais em início de carreira nas ocupações mais expostas à IA estão sendo os mais afetados.

Os estudantes perceberam isso. O número de matrículas em ciência da computação e sistemas de informação em universidades de quatro anos caiu 8,4% no início de 2026 em relação ao ano anterior, segundo o National Student Clearinghouse Research Center, mas ainda está bem acima do nível de cinco anos atrás.

O mesmo não pode ser dito sobre os cursos de inglês e literatura, que ainda apresentavam uma tendência de queda no longo prazo. Com as próprias universidades enfrentando pressão financeira, os departamentos de Humanidades têm sido — e continuarão sendo — alvos tentadores de cortes, a menos que aumentem o número de alunos matriculados em seus cursos.

“O número de alunos costuma ser a moeda de troca quando se decide manter ou não um programa”, observa Townsend. Por isso, o fato de os estudantes começarem a enxergar um curso de Humanidades como um caminho para um emprego é fundamental para determinar se os professores da área continuarão tendo seus cargos.

Townsend sugere que, para isso, os próprios professores precisam melhorar a forma como comunicam as habilidades que ensinam. Para escrever um trabalho acadêmico sobre a Revolução Francesa, diz ele, um estudante precisa formular uma boa pergunta, avaliar criticamente uma resposta, rastrear as afirmações até suas fontes e comunicar informações de maneira eficaz — todas habilidades necessárias para trabalhar bem com IA. Ele incentiva os professores a explicitar, em seus planos de ensino, competências como pesquisa, organização e comunicação.

Provavelmente não é por acaso que uma das universidades que começam a apresentar sinais de retomada das Humanidades tem um histórico de enfatizar o lado prático de todos os seus cursos.

A Pace University, em Nova York, combina formação profissional e artes liberais desde sua fundação, em 1906, como uma escola de contabilidade.

As candidaturas de estudantes interessados em cursar inglês para a turma de calouros deste ano aumentaram 28%, para 299, enquanto o número dos que efetivamente se matricularam quase dobrou em relação ao ano passado — para um número ainda pequeno de 32 alunos, em uma turma de 1.992.

Kelley Kreitz, vice-reitora associada de estratégia acadêmica e sucesso estudantil da Pace, é ela própria professora de inglês. O interesse pela área está crescendo agora “no contexto das conversas sobre IA e sobre o que ela vai fazer com o futuro do trabalho”, afirma. “O que digo aos meus alunos é que eles precisam aprender a escrever melhor do que a IA”.

O que esperar do futuro do trabalho?

A combinação de artes liberais, aprendizado prático e conexão com o mercado para estágios e empregos permanentes, diz Kreitz, “parece estar realmente ressoando com os estudantes neste momento” e é especialmente adequada para uma época em que os recém-formados não podem presumir que uma formação voltada para um emprego específico garantirá segurança profissional. Eles precisam estar preparados “para um trabalho do futuro que talvez ainda nem exista”.

De qualquer forma, ela afirma, os estudantes não deveriam ter que escolher entre praticidade e enriquecimento intelectual. “Nossa posição é que, na verdade, você precisa dos dois, mesmo que a única coisa com que se importe seja quanto vai ganhar depois de se formar, o que é totalmente compreensível.”

*Reportagem publicada originalmente em Forbes.com

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