O livro de Tamires Vilela chegou para mim na hora exata. “Entretempos” apareceu quando eu mesma começava a viver o meu.
Talvez por isso o almoço que marcamos no Les Deux Magots, em São Paulo, para falar sobre o livro tenha durado muito mais do que o previsto. A ideia era fazer uma entrevista. Sentamos à mesa e, algumas horas depois, ainda estávamos ali, falando de carreira, maternidade, relacionamentos, dinheiro, liberdade, sucesso, fracasso e todas essas escolhas que, em algum momento da vida, parecem precisar ser revistas.
Depois de mais de 15 anos trabalhando em redações, eu também atravessava uma mudança profissional. Tamires conhecia bem aquele território estranho entre uma vida que funcionou durante muito tempo e outra que ainda não se apresentou por inteiro.
Esse é o lugar de “Entretempos”.
Não exatamente um sabático. Muito menos férias. É o intervalo entre o que fomos e aquilo que ainda não sabemos se vamos ser.
Há, evidentemente, um privilégio nessa possibilidade. Parar exige condições concretas. É preciso continuar pagando as contas, sustentar a própria vida e ter alguma estrutura para suportar um período em que talvez o trabalho não renda imediatamente dinheiro, status ou sequer uma resposta clara sobre o futuro.
Mas, para quem consegue fazê-lo, existe uma pergunta desconfortável e, ao mesmo tempo, libertadora: o que acontece quando a gente para de correr?
“Por que é tão difícil viver um entretempo?”, pergunta Tamires em determinado momento. “Porque a gente passa muito tempo vivendo a vida que acha que precisa viver. Porque alguém disse que é assim.”
A carreira certa. O cargo certo. O casamento que precisa durar para ser considerado bem-sucedido. A maternidade exercida de determinada maneira. O dinheiro. A produtividade. A agenda cheia.
A régua.
A régua do sucesso
Nossa conversa começa justamente por ela.
Vivemos um tempo obcecado por performance. Acordar cedo, treinar, produzir, comer a quantidade correta de proteína, otimizar o sono, trabalhar mais e, de preferência, dar conta de tudo isso com alguma elegância.
Até o descanso corre o risco de virar mais uma tarefa a cumprir.
Tamires gosta de voltar à origem da palavra sucesso.
“Sucesso vem de suceder. De coisas acontecendo, uma depois da outra. Só que a gente olha para o sucesso como se fosse um ponto. Eu acho que ele é uma linha.”
Uma linha construída a partir dos próprios valores.
Talvez esteja aí uma das provocações mais interessantes de “Entretempos”. A régua que usamos aos 25 anos não necessariamente serve aos 40. E sucesso tampouco precisa significar a mesma coisa em todas as áreas da vida, o tempo inteiro.
Tamires fala sobre o conceito de “riqueza psicológica”, uma vida rica não necessariamente em dinheiro ou felicidade permanente, mas em experiências, repertório, encontros e deslocamentos.
Viajar. Conhecer pessoas. Mudar de ideia. Experimentar.
“Sucesso pode ser isso.”
E talvez o entretempo comece justamente quando a régua que usamos por tantos anos deixa de medir aquilo que importa.
Quando o barulho diminui
Existe uma parte pouco instagramável das grandes mudanças profissionais: o silêncio.
Quem passou anos inserido em uma rotina intensa se acostuma não apenas ao trabalho, mas a tudo o que existe em volta dele. Às mensagens, aos convites, às reuniões, à agenda cheia e à sensação permanente de estar sendo requisitado.
Quando o ritmo muda, é comum surgir uma pergunta incômoda: e agora?
Tamires fala sobre como aprendemos a medir relevância pela atenção do outro. Pelo cargo, pelo convite, pelo número de pessoas que nos procuram, pelo tamanho da agenda.
Quando essa moeda deixa de circular da mesma maneira, é preciso descobrir qual será a próxima.
“Talvez essa moeda já não seja mais a sua.”
É uma frase simples, mas talvez seja uma das partes mais difíceis de qualquer transição: perceber que aquilo que validou você por tantos anos não precisa continuar sendo sua medida de valor.
O mundo continua girando.
E, depois do susto inicial, há alguma liberdade nisso.
O burnout de personagem
Há uma expressão no livro que me pegou especialmente: burnout de personagem.
Não é necessariamente estar exausto do trabalho. Às vezes, gostamos dele. Somos bons naquilo. Recebemos reconhecimento. Aos olhos de quem está de fora, não existe razão alguma para mudar.
O cansaço vem de continuar interpretando uma versão de nós mesmos que já não faz tanto sentido.
Esse talvez seja um dos pontos mais difíceis de explicar.
É mais fácil abandonar aquilo que deu errado.
Difícil é sair do que deu certo.
“Você pode ter uma carreira absolutamente bem-sucedida e ainda assim entender que aquela régua não serve mais”, diz Tamires.
E então aparece uma das grandes angústias do entretempo: saber que alguma coisa mudou sem necessariamente saber o que vai ocupar aquele lugar.
Nossa geração foi treinada para responder rápido.
Qual é o próximo projeto?
Qual é o plano?
Quanto vai faturar?
Quando começa?
Mas e se a resposta for simplesmente: ainda não sei?
Experimentar antes de decidir
“Eu entrei no meu entretempo com um convite para experimentar”, diz Tamires.
Gosto dessa ideia porque ela tira da mudança a obrigação de chegar imediatamente a algum lugar.
Em vez de substituir uma identidade por outra, experimentar.
Tamires vive hoje o que chama de carreira-portfólio. Dá aulas, investe, escreve, participa de projetos, se aventura como comunicadora. Algumas atividades dão dinheiro. Outras dão repertório. Algumas simplesmente dão prazer.
E não precisam cumprir todas a mesma função.
“Nem tudo precisa dar dinheiro.”
Pode parecer uma frase óbvia. Não é.
Principalmente em uma sociedade que aprendeu a transformar praticamente qualquer interesse em projeto, projeto em negócio e negócio em escala.
Às vezes, alguma coisa pode existir apenas porque é boa de fazer.
“Você só vai descobrir o seu sim experimentando.”
Talvez essa seja uma das frases que melhor resumem nossa tarde.
Aos 40, ninguém mais tem o mesmo roteiro
Em algum momento, nossa conversa sai da carreira e chega à vida. Ou talvez nunca tenha saído.
Falamos sobre ser mulher aos 40 hoje.
É uma idade em que convivem vidas completamente diferentes. Há mulheres tendo o primeiro filho, outras que decidiram não ter. Algumas estão casadas há anos, outras se separando, outras começando novos relacionamentos. Há quem esteja no auge de uma carreira construída durante duas décadas e quem esteja começando outra do zero.
Durante muito tempo existiu um roteiro relativamente previsível.
Estudar. Trabalhar. Casar. Ter filhos. Crescer profissionalmente. Permanecer.
Esse roteiro explodiu.
“A gente não tem mais um roteiro. Cada um faz o seu”, diz Tamires.
É uma liberdade enorme.
E também pode ser uma fonte de angústia.
Porque, quando existem muitas possibilidades, ninguém mais consegue dizer exatamente qual é a certa.
A tentação, então, é copiar.
A carreira de alguém. O casamento de alguém. A maternidade de alguém. A vida que parece funcionar tão bem vista de fora.
Até perceber que talvez aquela vida simplesmente não seja a sua.
O luxo do ócio
Falamos também sobre tempo.
Nossa relação com ele ficou estranha. A agenda cheia virou símbolo de importância. O ócio quase precisa ser justificado.
Em determinado momento do almoço, começamos a rir da quantidade de pequenas obrigações que incorporamos à rotina sem sequer saber exatamente para quem estamos cumprindo aquilo.
A conversa chega até à unha por fazer.
“Preciso fazer minha unha.”
Precisa?
É uma bobagem, claro. E justamente por isso funciona tão bem como exemplo. Quantas coisas encaixamos nos nossos dias porque queremos e quantas porque, em algum momento, entendemos que deveríamos?
Da unha a decisões muito maiores, existe uma quantidade enorme de vida organizada em torno do olhar do outro.
E então chegamos ao “Show de Truman“.
Talvez uma das grandes descobertas da vida adulta seja perceber que não somos Jim Carrey. Não existe uma plateia acompanhando cada decisão que tomamos.
As pessoas estão ocupadas demais pensando nelas mesmas.
“Isso é libertador.”
É mesmo.
Porque, quando ninguém está olhando tanto assim, você pode mudar.
Pode sair.
Pode voltar.
Pode experimentar alguma coisa e descobrir que não gostou.
Pode casar de novo ou nunca mais casar. Pode mudar de profissão e, anos depois, decidir voltar. Pode escolher uma coisa hoje sem transformá-la em um contrato para o resto da vida.
“Nós não precisamos justificar a escolha que fizemos antes. Só precisamos viver aquilo que estamos a fim de viver agora.”
“Entretempos”
Quando nos levantamos da mesa, horas depois, pensei na nossa urgência em tratar períodos de transição como corredores: lugares desconfortáveis pelos quais precisamos passar rapidamente para chegar ao próximo cômodo.
“Entretempos” propõe outra coisa.
E se o corredor também fizer parte da casa?
E se esse período em que ainda não existe um cargo novo, uma definição nova, um relacionamento novo ou uma identidade perfeitamente pronta não for um vazio?
E se for vida?
Tamires diz que nossas escolhas não precisam ser definitivas. Podemos recalcular. Experimentar. Voltar. Avançar. Trocar novamente.
Talvez amadurecer tenha menos a ver com finalmente descobrir quem somos e mais com aceitar que continuaremos mudando.
Saí do restaurante pensando nisso.
Também estou vivendo meu entretempo. Tenho algumas respostas, muitas ideias e outras tantas perguntas.
Acredito que a grande provocação do livro seja justamente esta: não transformar a pausa imediatamente em outro plano, outra meta, outra performance.
Às vezes, o próximo passo ainda não apareceu.
E tudo bem permanecer um pouco aqui.
*Jornalista com passagem pelo O Estado de S. Paulo, Sofia Patsch cobre há uma década lifestyle, social e comportamento. Já foi intitulada “curadora de pessoas”.
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