Ser bem quisto no trabalho geralmente é uma vantagem. Consigo pensar em pouquíssimas pessoas que prefeririam o contrário. Mas existe um ponto em que ser a pessoa de quem todos gostam pode se tornar estranhamente cansativo.
Você percebe isso quando as pessoas começam a contar coisas que provavelmente não deveriam. Um colega reclama de outro e, mais tarde, esse outro colega também reclama dele. Alguém pergunta o que o chefe “realmente pensa”. Um gestor quer saber se a equipe está insatisfeita, de preferência sem que ninguém saiba que ele perguntou. No início, nada disso parece particularmente desgastante. Você escuta porque gosta dessas pessoas e porque é bom sentir que confiam em você.
Então, você percebe o quanto sabe. Sabe quem está pensando em sair da empresa, quem guarda ressentimento de quem e qual aparente desentendimento, na verdade, está relacionado a algo que aconteceu seis meses atrás. Também sabe quais informações não podem ser compartilhadas, quais conversas precisam ser evitadas e qual colega provavelmente vai procurá-lo quando algo der errado. Em algum momento, estar socialmente conectado deixa de ser apenas uma questão de relacionamento. Você acaba assumindo responsabilidades sobre as quais ninguém conversou com você.
O que considero particularmente interessante é como esses profissionais podem parecer privilegiados aos olhos dos outros. Todos gostam deles. Parecem influentes. Têm relacionamentos em diferentes áreas da empresa que muitos gostariam de ter.
No entanto, a popularidade pode vir acompanhada de uma forma peculiar de trabalho não remunerado: ouvir, tranquilizar, mediar conflitos e, ocasionalmente, carregar informações que prefeririam nunca ter recebido. E, como fazem isso bem, as pessoas presumem que esse esforço lhes custa muito pouco.
A confiança pode se tornar um peso que você precisa carregar
Existe uma diferença entre saber o que acontece no trabalho e saber demais sobre o que acontece no trabalho.
O primeiro caso pode ser útil. Relacionamentos informais muitas vezes revelam coisas que escapam às estruturas formais de comunicação. Você fica sabendo que um projeto está com problemas antes que isso apareça em um painel de indicadores. Alguém explica por que um novo processo está irritando a todos. Um colega admite que está confuso, em vez de fingir que entendeu. As redes de relacionamento são importantes, em parte, porque as informações não circulam pela empresa seguindo as linhas organizadas de um organograma.
A dificuldade começa quando as informações chegam sem que exista um lugar evidente para guardá-las.
Imagine que alguém lhe diga estar furioso com o próprio gestor, mas peça explicitamente que você não conte nada. Mais tarde naquela tarde, suponha que seu chefe pergunte se você percebeu que algo está errado. Agora, você tem uma informação que ajudaria uma pessoa a compreender a outra, mas usá-la significaria trair a confiança que permitiu que você a recebesse. Por isso, você diz menos do que sabe.
Faça isso com frequência e começará a carregar múltiplas versões do ambiente de trabalho
imultaneamente. Você sabe o que aconteceu publicamente e o que várias pessoas acreditam, em particular, que aconteceu. Entende por que alguém agiu de maneira estranha em uma reunião, mas não pode explicar. Pode até começar a mudar a forma como fala, porque está sempre avaliando se as informações que tem em mente são realmente suas para compartilhar.
As pesquisas sobre trabalho emocional tradicionalmente analisam o esforço envolvido em administrar sentimentos e expressões emocionais no ambiente profissional. Algo semelhante acontece nesse caso. Quando você se torna o colega em quem todos confiam para desabafar, não está simplesmente recebendo informações. Está processando o que ouve, lembrando o que pode ou não repetir e, muitas vezes, ajudando alguém a se sentir melhor antes de voltar ao próprio trabalho.
Ninguém necessariamente teve a intenção de lhe atribuir outra função. Isso não significa que você não tenha assumido uma.
Ser a pessoa em quem todos confiam pode fazer você evitar conversas difíceis
Existe outra consequência de ser querido por todos: com o tempo, você pode começar a proteger essa reputação.
Se as pessoas o enxergam como alguém sensato, compreensivo ou como o colega que “entende todo mundo”, pode ficar mais difícil agir de maneiras que ameacem essa identidade. Talvez alguém pergunte o que você realmente achou de seu trabalho, e a resposta não seja muito elogiosa. Talvez um gestor queira saber por que o moral da equipe está baixo, e você conheça a verdadeira explicação, que provavelmente o deixará desconfortável. Ou dois colegas esperem que você concorde com cada um deles, embora você considere que ambos estejam agindo igualmente mal.
É nesse ponto que a popularidade pode se tornar uma limitação. Você sabe como fazer as pessoas se sentirem compreendidas, então continua fazendo isso. Entende vários lados de uma discussão, por isso hesita em tomar partido. Fica tão habituado a reduzir tensões que, ocasionalmente, acaba diminuindo tensões que precisavam existir.
As pesquisas sobre a manifestação de opiniões dos funcionários mostram por que se posicionar pode parecer arriscado, mesmo quando isso seria benéfico para a empresa. O risco nem sempre envolve uma retaliação formal. Às vezes, consiste simplesmente na possibilidade de alguém passar a enxergá-lo de outra maneira. Isso ganha importância quando boa parte de sua influência vem da confiança de grupos que nem sempre confiam uns nos outros.
O problema se torna mais evidente à medida que você sobe na hierarquia. A liderança, em algum momento, exige contrariar pessoas. Alguém não consegue o cargo desejado. Uma proposta é rejeitada. Um funcionário com dificuldades precisa ouvir algo que preferiria não escutar. Talvez não exista uma maneira diplomática de conduzir a situação que faça todos saírem satisfeitos.
Assim, o colega que construiu sua identidade em torno de ser querido pode encontrar um limite inesperado. Ele é excelente em cultivar relacionamentos enquanto todos se sentem confortáveis. O teste mais difícil é saber se consegue preservar o respeito quando deixa de proporcionar conforto.
Existe uma diferença entre ser atencioso e precisar que todos saiam de uma sala gostando de você. Ao longo da carreira, essa diferença acaba ficando evidente.
A pessoa a quem todos recorrem pode não ter ninguém a quem recorrer
Talvez o aspecto mais interessante de ser o colega favorito de todos apareça quando essa pessoa também enfrenta uma semana difícil.
A essa altura, todos já se acostumaram com uma versão específica dela. É a pessoa que escuta. Que se lembra das coisas. O colega que sabe lidar com personalidades difíceis e, de alguma forma, torna situações constrangedoras menos desconfortáveis. As pessoas podem realmente se importar com ela, mas os hábitos se formam rapidamente. Quando alguém passa anos sendo a pessoa que recebe pedidos de apoio, os colegas podem deixar de imaginar que ela também precise pedir ajuda.
Isso não é necessariamente egoísmo. Os papéis se estabelecem nos relacionamentos sem que ninguém precise concordar formalmente com eles. Uma pessoa se torna a contadora de histórias, outra é a organizadora, outra é a pessoa tranquila. No trabalho, alguém se torna o centro emocional da equipe e, como desempenha esse papel com tanta naturalidade, ninguém percebe que mantê-lo também exige esforço.
As pesquisas sobre comportamento de cidadania organizacional analisam há muito tempo as contribuições que vão além das descrições formais de cargos. Alguns funcionários realizam uma parcela maior do trabalho relacional que mantém as equipes funcionando: acolhem novos integrantes, amenizam tensões, perguntam como os outros estão e intervêm em situações delicadas antes que se tornem problemas maiores. Esses comportamentos podem ser extremamente valiosos, embora sejam surpreendentemente difíceis de quantificar.
Acredito que os gestores podem subestimar facilmente essa contribuição. O funcionário de quem todos gostam pode parecer ter uma vida profissional excepcionalmente fácil justamente porque realiza muito trabalho invisível para tornar a vida dos demais mais fácil. Elogiá-lo por ser “bom com as pessoas” é positivo. Continuar encaminhando a ele todas as pessoas difíceis e todas as situações emocionalmente complicadas é outra coisa.
Isso também exige uma decisão do próprio funcionário. Ser alguém em quem os outros confiam não significa aceitar todos os segredos que lhe contam. Ter empatia não exige se tornar conselheiro de todo mundo. Se dois adultos têm um problema entre si, você pode se importar com ambos sem se transformar no departamento de comunicação entre eles. Às vezes, a resposta mais gentil a um “Você pode conversar com essa pessoa?” é sugerir que os dois conversem diretamente.
Nada disso exige que você se torne mais frio. Bons relacionamentos profissionais valem a pena, e continuar sendo alguém com quem os outros gostam de trabalhar é uma enorme vantagem. A questão é saber se esses relacionamentos continuam funcionando quando você deixa, ocasionalmente, de desempenhar o papel que todos se acostumaram a lhe atribuir.
Esse pode ser o custo oculto de se tornar o colega favorito de todos. Quanto mais útil você se torna emocionalmente para os outros, mais fácil fica para eles perceberem o que você oferece e ignorarem o esforço necessário para isso.
A popularidade parece maravilhosamente recíproca quando todos querem alguma coisa de você. Mas você realmente descobrirá o quanto essa reciprocidade existe quando, pela primeira vez, for você quem precisar de algo deles.
Benjamin Laker é colaborador da Forbes USA. Professor universitário que escreve sobre as melhores formas de liderar ambientes de trabalho.
*Matéria publicada originalmente em Forbes.com