Flávio Rocha: Nevaldo Rocha, um legado de ética

Roberto Setton
Roberto Setton

Nevaldo Rocha foi precursor da abertura de capital no setor varejista

Em 1989, na esteira de vários planos anti-inflacionários infrutíferos, o Grupo Guararapes pediu concordata. Pela lei, poderia deixar de pagar alguns credores. Nevaldo Rocha, no entanto, abriu mão do direito legal e, assim que possível, pagou todos os fornecedores, em valores corrigidos, e voltou a empregar o mesmo número de funcionários anterior à crise.

Das tantas lições que meu pai deixou, a que encerra esse episódio me vem à memória por encapsular sua visão de mundo, caracterizada por uma fronteira fluida entre os negócios e a vida pessoal. Na essência, seu Nevaldo não era diferente em casa ou na empresa que fundou. Nos dois ambientes, sua conduta era determinada pela honestidade e pelo senso de justiça. O valor legado veio do próprio berço. Criança, ele e os irmãos aprenderam a dividir o pão escasso. Separados em duas duplas, um cortava o pão e o outro escolhia o pedaço.

Nevaldo Rocha se destacou como self-made man de uma geração de empresários marcada pelo pioneirismo. Não foi um caminho fácil. Nascido em Caraúbas, no interior do Rio Grande do Norte, começou a se sustentar como vendedor de uma relojoaria em Natal, que mais tarde acabou comprando. Com o tempo, abriu uma loja de roupas e, em 1951, junto com o irmão Newton Rocha, iniciou uma confecção no Recife. Com nítida preferência pela atividade industrial, gostava de visitar plantas da empresa no Nordeste. Mas foi muito além da fábrica: sua visão ajudou a criar um benchmarking global na integração vertical de negócios.

Hoje, depois de sua morte, aos 91 anos, olho para trás e, refazendo mentalmente sua trajetória, percebo que sua conduta permitiu que tivéssemos atuações complementares à frente do grupo. Dono de um temperamento mais centralizador, Nevaldo impulsionou os negócios nos tempos em que eles eram empurrados pela indústria. A transição serena se deu quando, em função do redesenho da cadeia de suprimento, a empresa passou a ser puxada pelo varejo.

Nevaldo Rocha não temia o novo. Ao contrário, mostrava-se sempre aberto a inovações. Mais do que isso, ia buscá-las onde estivessem. Jovem ainda, viajou aos Estados Unidos, num tempo em que viagens internacionais não eram algo trivial. Lá entrou em contato com as tecnologias desenvolvidas pelo varejo americano. Assimilados os conhecimentos, não hesitou em colocá-los em prática na volta ao Brasil. Mais adiante, na década de 70, com o mesmo espírito de desbravador de novas possibilidades, foi precursor da abertura de capital no setor varejista. Não é à toa, portanto, que o grupo tenha se transformado num benchmarking global.

Meu pai cobrava dos colaboradores e da família os mesmos valores que se impunha, com determinação férrea. Era um homem que valorizava a ética do trabalho, a dedicação e o empenho, o compromisso com o futuro das novas gerações. Seu discurso não era vazio, não se limitava à retórica. Ele fazia, punha a mão na massa, dava o exemplo. Trabalhou com o mesmo afinco até o fim da vida, no limite da capacidade física. Não é exagero de filho constatar que foi sobretudo um visionário, daquela estirpe de empreendedor que transforma obstáculo em oportunidade.

Não se ergue um império empresarial sem obstinação, qualidade que meu pai esbanjava. É o mesmo predicado que se exige na construção de um país moderno e justo. As dificuldades pelo caminho não podem ser maiores do que nossa capacidade de não apenas contorná-los, mas de usá-los a nosso favor, a favor do Brasil. Que a memória de Nevaldo Rocha nos inspire.

Flávio Rocha é presidente do Conselho de Administração do Grupo Guararapes

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