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Skincare Infantil: Tendência ou Alerta?

Estamos diante de um novo comportamento. Cabe a nós, dermatologistas, pais e educadores, guiar essa geração com ética, conhecimento e empatia

4 min

Você sabia que crianças com menos de 10 anos já estão substituindo brinquedos por produtos de skincare?

Sim, é isso mesmo. Uma nova geração, altamente conectada, independente e influenciada por redes sociais, está trocando bonecas por séruns e cremes hidratantes. Segundo um estudo da The Benchmarking Company, 69% das meninas e 50% dos meninos demonstram interesse por cosméticos antes dos 10 anos. Esses números revelam mais do que uma curiosidade de mercado. Eles escancaram uma mudança de comportamento que exige atenção dos pais e da medicina dermatológica.

Ao observar esse interesse precoce, é essencial lembrar que cada criança tem um tipo de pele, rotina e necessidades diferentes. O que funciona para a pele adulta pode ser inadequado ou até prejudicial para uma pele em formação. A dermatologia nos mostra que cada caso exige atenção individualizada, respeito ao tempo biológico e orientação especializada.

O segredo não está em proibir, mas em orientar com consciência. É importante explicar, de forma natural, o que faz sentido em uma rotina infantil. O uso indevido de produtos pode causar dermatites, sensibilizações e até comprometer a barreira cutânea. Por outro lado, ensinar desde cedo sobre proteção solar, higiene da pele e bons hábitos pode ser extremamente benéfico. O equilíbrio é essencial.

Skincare não é brincadeira. É saúde.

O avanço da indústria cosmética é fascinante, mas precisa caminhar lado a lado com responsabilidade. A hiperconectividade trouxe autonomia, sim, mas também expôs crianças a pressões estéticas adultas. Embalagens atrativas e promessas instantâneas captam a atenção dos pequenos e dos pais. Por isso, cresce a importância de orientar com clareza e responsabilidade.

Outro ponto importante é o consumo excessivo de vídeos nas redes sociais. Mesmo quando parecem inofensivos, esses conteúdos influenciam diretamente comportamentos. Crianças e adolescentes reproduzem rotinas de beleza complexas, muitas vezes criadas por influenciadores adultos, sem nenhum critério técnico. Tutoriais e desafios virais ignoram a sensibilidade da pele jovem. Esse padrão, quando repetido sem orientação, pode gerar danos reais. A internet não impõe, mas influencia silenciosamente. E é aí que mora o perigo.

Vejo isso todos os dias no consultório: meninas de 8, 9 anos reproduzindo tutoriais de skincare noturno com ativos como ácido glicólico totalmente contraindicado para a pele infantil. E isso me preocupa. Produtos voltados para a infância devem ter pH balanceado, ativos suaves e respaldo clínico. Ainda assim, precisam ser indicados com base na avaliação individual de um dermatologista especialista.

A tendência não é um problema em si. O problema surge quando ela é seguida sem responsabilidade.

Se você é pai ou mãe e se preocupa com a saúde e a educação do seu filho, vale olhar com atenção para esse movimento. Ele reflete muito do mundo em que vivemos e do que ainda está por vir. Introduzir o skincare não precisa ser negado, mas sim mediado, explicado e acompanhado. A função da medicina dermatológica aqui é educar, prevenir e proteger.

Não estamos falando apenas de um novo hábito. Estamos diante de um novo comportamento de consumo e identidade. Cabe a nós, dermatologistas, pais e educadores, guiar essa geração com ética, conhecimento e empatia.

Dra. Letícia Nanci é médica do Hospital Sírio-Libanês, médica responsável pela Clínica Dermatológica Letícia Nanci; membro efetivo da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD); da American Academy of Dermatology (AAD) e da Sociedade Brasileira de Cirurgia Dermatológica (SBCD).

Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião de Forbes Brasil e de seus editores. 

Coluna publicada na edição 130 da revista Forbes, em abril de 2025.

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