Lembra quando alguém te perguntava: “O que você quer ser quando crescer?” Essa pergunta era comum na infância, e a gente respondia sem medo: astronauta, jogador de futebol, cientista, artista de circo…
Naquela época, tudo era possível, porque ainda não tínhamos os filtros da vida adulta, como insegurança, medo de julgamentos ou quaisquer outras pressões sociais. Mas, conforme crescemos, essa pergunta vai ficando no passado. E isso é um erro.
Hoje, eu te convido a retomá-la, com uma leve adaptação: o que você quer ser quando parar de crescer? Afinal, ao menos profissionalmente, isso vai acontecer um dia. Desde que iniciou sua vida profissional, ela vem evoluindo gradativamente, e você segue crescendo, não é mesmo?
Acontece que essa curva de ascensão, em algum momento, iniciará seu ciclo de declínio. Seja porque você se cansou e deseja se aposentar; ou porque as novas tecnologias eliminaram sua profissão; porque em seu segmento o etarismo ainda é presente e você foi substituído por alguém mais jovem (e mais barato) ou…porque você alcançou a independência financeira!
Muitas coisas podem acontecer ao longo da jornada, e quando o ciclo de crescimento acabar, terão sido suas escolhas que definirão se você vai viver o futuro que merece ou o que sobrar.
Aposentadoria não é um prêmio, é um projeto
Muita gente ainda trata a aposentadoria como um fim natural da jornada profissional, algo que acontece automaticamente após anos de contribuição ao INSS ou ao plano da empresa. Mas essa ideia não condiz mais com a realidade econômica e demográfica que estamos vivendo.
Segundo dados do IBGE, em 2023 o Brasil ultrapassou os 33 milhões de idosos (15,6% da população) e a projeção é que até 2070, cerca de 37,8% dos habitantes sejam idosos.
Com o aumento da expectativa de vida, o sistema público de previdência caminha para o colapso financeiro, e as perspectivas para quem depender exclusivamente dos benefícios do INSS na aposentadoria, são desalentadores.
O governo federal enviou ao Congresso, em abril, o projeto da Lei de Diretrizes Orçamentárias (PLDO) de 2026, e no documento apontou que o rombo do INSS deve quadruplicar nos próximos 75 anos, e que as contas da Previdência se tornarão absolutamente insustentáveis nos próximos anos.
Em resumo: se você ainda está contando exclusivamente com o INSS para se aposentar com dignidade, está apostando contra a matemática, o que é totalmente irracional.
Seu futuro, sua responsabilidade
Eu compreendo e partilho do sentimento de revolta ante a situação do INSS, especialmente quando vemos os escândalos recentes envolvendo o órgão. É claro que não é justo que as pessoas contribuam ao longo de uma vida e depois não tenham nada, porque o dinheiro foi mal gerido pelo Estado. Mas, como eu sempre enfatizo, precisamos focar naquilo que está sob nosso controle.
Nesse momento, o que você consegue controlar é a forma como lida com sua renda e como investe para garantir o futuro que deseja ter. É urgente que você entenda que a construção de sua carreira passa também pela construção do patrimônio que irá garantir sua tranquilidade quando esta carreira não mais existir.
A realidade alarmante dos aposentados brasileiros
Em 2024, a Serasa em parceria com o Instituto Opinion Box realizou uma pesquisa que revelou dados muito preocupantes:
- 6 em cada 10 aposentados não conseguem manter o padrão de vida que tinham antes da aposentadoria;
- 60% desse grupo continua trabalhando, mesmo aposentado, pois dependem da renda complementar para seu sustento;
- 62% recorrem a crédito ou empréstimos para auxiliar nas despesas;
- 4 em cada 10 aposentados têm dificuldades para manter em dia contas essenciais como alimentação, saúde e medicamentos.
Aqui está um ponto fundamental: trabalhar até o último dia deve ser uma opção, não uma necessidade. Contudo, conquistar essa autonomia depende de sua disposição em assumir agora a responsabilidade pelo seu futuro.
O estilo de vida também precisa de limite
É esperado que ao longo de sua vida profissional, vá ocorrendo uma evolução nas habilidades, cargos ocupados e na renda. E uma coisa que sempre vejo acontecer é que as pessoas, ao alcançar novo patamar de renda, imediatamente ajustam seu estilo de vida para cima na mesma proporção do novo ganho.
Mais restaurantes, viagens, carros melhores, grifes…tudo isso é legítimo, e obviamente ninguém tem direito de definir como você irá gastar o dinheiro que é fruto do seu trabalho.
No entanto, como educador financeiro, preciso te deixar um alerta: elevar os gastos na mesma proporção da renda é um erro comum que impede a formação de patrimônio.
Um outro estudo da Serasa, publicado em janeiro deste ano, revelou que 37% dos aposentados nunca se planejaram financeiramente para quando parassem de trabalhar e, dentre os que se planejaram, 70% só o fizeram cinco anos antes de se aposentar. Apesar de ser melhor que nada, cinco anos é pouco tempo, tornando o plano de aposentadoria mais caro e desafiador.
A regra de ouro para construir patrimônio
Minha sugestão é simples: viva sempre pelo menos um degrau abaixo em relação à sua renda e invista essa diferença. Defina desde seu primeiro emprego um percentual mínimo para investimento mensal.
Quanto maior esse percentual, melhor, mas, o mais importante é que você seja rigoroso quanto ao mínimo estabelecido para poupar. Se definiu, por exemplo, 20%, não se sabote. Adapte seu orçamento e viva com os 80% do salário.
Depois que você incorporar isso como hábito, garanto que irá se esforçar cada vez mais para ampliar o percentual da renda líquida que destina aos investimentos. E sim, isso exige disciplina e escolhas.
Você sempre vai ter que escolher
Investir é priorizar a si em detrimento de todo o resto. Você precisa decidir o que valoriza: liberdade, paz e conforto ou aparência? “Riqueza é aquilo que você não vê”, como bem afirmou Morgan Housel, em seu livro A Psicologia Financeira.
Riqueza de verdade é ter liberdade para usar seu tempo se dedicando ao que te faz feliz. Liberdade de seguir trabalhando, se quiser. Ou não. Morar onde quiser, viajar, não fazer nada ou fazer tudo o que imaginar. Riqueza é autonomia, é ser dono de seu tempo.
Para alcançar essa riqueza, você precisa entender o processo e, ao longo dele, escolher o que realmente é importante: empenhar seus recursos em um relógio caro que te faz parecer rico, ou em investimentos que irão gerar renda extra e te fazer rico de fato?
Você é o CEO da sua própria vida
Você é quem comanda esse empreendimento chamado “vida financeira”. E, como qualquer boa gestão, ela exige clareza, estratégia e visão de longo prazo.
Os ativos que você acumula – sejam ações, fundos, imóveis ou um negócio próprio – devem ser suficientes para cobrir suas despesas, permitir reinvestimentos e manter seu padrão de vida mesmo sem renda ativa. Esse é o ideal.
E se hoje isso ainda parece distante, tudo bem. O importante é ter um plano, mesmo que ele comece pequeno. No meu canal do Youtube eu ensino as pessoas a investirem com consistência e planejamento para alcançar sua independência, e uma das coisas que mais reforço é que ao assumir a responsabilidade por si, é quando você consegue fazer seu melhor.
Por onde começar? Estratégias práticas
Para quem está começando a pensar em construir seu patrimônio para aposentadoria, aqui vão algumas estratégias práticas:
- Defina um percentual mínimo da sua renda para investir mensalmente. Comece com pelo menos 20% e aumente gradualmente
- Diversifique seus investimentos: Renda fixa para segurança (Tesouro Direto, CDBs, LCIs, LCAs), Renda variável para crescimento e geração de renda extra (ações, ETFs, fundos imobiliários) e Previdência privada complementar (PGBL/VGBL, dependendo do seu perfil tributário)
- Automatize seus investimentos: configure transferências automáticas para sua conta de investimentos no dia do pagamento.
- Aplique a regra do aumento: sempre que receber um aumento salarial, destine pelo menos 50% desse aumento para investimentos.
- Invista em educação financeira para tomar decisões cada vez melhores
- Junte-se a comunidades de investidores: quando você se coloca em ambientes onde todos têm objetivos semelhantes aos seus, sente-se mais motivado.
Quanto mais cedo você começar, menor será o esforço necessário, graças ao poder dos juros compostos. Alguém que começa a investir aos 25 anos precisa poupar mensalmente muito menos do que quem começa aos 40 para chegar ao mesmo patrimônio.
Dinheiro não é o fim, é o meio
O objetivo final não é acumular cifras, mas atingir uma vida coerente com seus valores e desejos. Felicidade é quando aquilo que você tem é compatível com aquilo que você quer. Quando essa equação não fecha, a frustração se instala e você entra numa busca eterna por “mais”, sem nem saber o quê ou por quê.
Por isso, defina o que é suficiente para você. Reflita sobre quais bens e experiências realmente te trazem satisfação. Aprenda a gastar com inteligência: se o dinheiro sai da sua conta, que ele esteja comprando experiências, ativos ou liberdade. Dinheiro que sai para bancar aparência ou passivos, não contribui para sua estabilidade, portanto, são despesas que devem ser muito bem pensadas.
Comece hoje a construir o futuro que deseja viver
Assumir a responsabilidade pela sua aposentadoria é a atitude mais inteligente que você pode tomar neste momento. Não espere que governo ou empresa façam isso por você, porque eles não vão.
Comece hoje mesmo: separe 1 hora do seu tempo para analisar seus gastos atuais e definir quanto você pode começar a investir mensalmente. Abra uma conta em uma corretora confiável se ainda não tiver uma. Pesquise sobre os investimentos mais adequados ao seu perfil e objetivos.
Cada mês que você adiar essa decisão é um mês a menos de juros compostos trabalhando a seu favor. Sua liberdade futura depende das escolhas que você faz agora. O que você quer ser quando parar de crescer profissionalmente? A resposta está nas ações que você toma hoje.
E lembre-se: o objetivo não é apenas sobreviver na aposentadoria, mas viver plenamente esta fase com autonomia, dignidade e realizando seus sonhos. Você merece esse futuro, e só você pode construí-lo.
Eduardo Mira é investidor profissional, analista CNPI-T (Anbima), mestrando em Economia, com MBAs em Gestão de Investimentos, Análise de Investimentos e Educação Financeira, empresário, sócio do Clube FII e do Grana Capital, escritor e educador financeiro com cursos que já formaram mais de 50 mil alunos. Está nas redes sociais como @professormira