Os casos de câncer de rim parecem seguir um padrão claro: nos países desenvolvidos, há mais diagnóstico e menos mortes. Onde há menos acesso, a doença é descoberta tardiamente e mata mais.
Os dados mais recentes doGLOBOCAN 2022, analisados no estudo internacional “Padrões e tendências globais na incidência e mortalidade por câncer de rim”, revelam uma realidade incômoda, que já identificamos aqui no Brasil: a desigualdade no cuidado oncológico se traduz diretamente em diferença na sobrevivência.
A pesquisa mostra que as taxas de incidência variam até 20 vezes entre países. Regiões como América do Norte, Europa, Oceania, América Latina e Caribe concentram as os maiores índices, enquanto Ásia e África apresentam números mais baixos. Mas essa diferença não significa menos doença; ela representa, muitas vezes, menos diagnóstico. Afinal, quanto mais estruturado é o sistema de saúde, maior a chance de identificar tumores precocemente, inclusive de forma incidental, em exames realizados por outros motivos.
Mas o que mais chama atenção é o comportamento da mortalidade. Enquanto países com alto e muito alto Índice de Desenvolvimento Humano apresentam queda consistente nas mortes por câncer de rim, regiões menos desenvolvidas seguem com mortalidade elevada ou em crescimento, como ocorre em partes da América Latina, África e alguns países europeus. A razão mortalidade/incidência é particularmente alarmante na África, por exemplo, o que indica um enorme abismo no acesso ao diagnóstico precoce e, sobretudo, ao tratamento adequado.
Esse cenário não é fruto do acaso. Ele reflete desigualdades estruturais no acesso a serviços de saúde, tecnologias diagnósticas, terapias modernas e acompanhamento longitudinal. Enquanto em países mais ricos o câncer de rim tende a ser detectado em estágios iniciais e tratado com maior chance de cura, em contextos mais vulneráveis a doença frequentemente é diagnosticada tardiamente, quando as opções terapêuticas são mais limitadas e os desfechos, piores.
Além do acesso, os autores destacam o papel central da prevenção. Fatores de risco bem estabelecidos, como tabagismo, obesidade, hipertensão e doença renal crônica, estão diretamente associados ao desenvolvimento do câncer de rim. A prevalência desses fatores varia amplamente entre países e regiões, mas é inegável que eles estão profundamente ligados a determinantes sociais da saúde, como renda, escolaridade, acesso a alimentação saudável e oportunidades de atividade física.
O estudo aponta, ainda, que mais da metade da carga global de câncer de rim poderia ser evitada com a prevenção primária focada nesses fatores modificáveis. Isso significa investir em políticas públicas de controle do tabagismo, promoção da alimentação saudável, combate à obesidade, controle da pressão arterial e acompanhamento adequado de pessoas com doença renal crônica. Prevenção, nesse contexto, é também uma estratégia de equidade.
Mas prevenção, sozinha, não basta. É igualmente essencial garantir acesso ao diagnóstico e ao tratamento de qualidade. As diferenças regionais observadas neste estudo deixam claro que não basta reduzir fatores de risco se as pessoas continuam sendo diagnosticadas tarde ou não têm acesso às terapias mais eficazes.
A queda da mortalidade nos países mais desenvolvidos mostra que o câncer de rim pode, sim, ser uma doença cada vez mais tratável, desde que haja estrutura, investimento e compromisso com o cuidado integral.