Nem sempre as boas notícias sobre ciência brasileira ganham o espaço que merecem. Mas, nas últimas semanas, a produção científica do país tem chamado atenção e mostrado, na prática, que temos competência, liderança e capacidade de gerar impacto global na medicina. Mais um exemplo concreto desse protagonismo chega pela Oncologia, com a publicação de um importante consenso internacional sobre o tratamento do câncer de ovário em países com recursos limitados.
O estudo foi liderado por médicos brasileiros e contou com ampla colaboração internacional. Tive a satisfação de ser o autor principal do trabalho, ao lado de colegas como o também oncologista Henrique Helber, a cirurgiã oncológica Audrey Tsunoda e especialistas em oncologia ginecológica de diferentes regiões do mundo, incluindo América Latina, África e Oriente Médio, locais onde o acesso a tratamentos de ponta muitas vezes é restrito.
O objetivo foi desenvolver um consenso prático e baseado em evidências para orientar o tratamento do câncer de ovário em países que enfrentam limitações estruturais importantes. Em muitas dessas realidades, pacientes não têm acesso aos cirurgiões mais especializados, às técnicas mais modernas, à radioterapia de última geração ou às terapias medicamentosas mais inovadoras.
Embora o esforço por ampliar o acesso à saúde de qualidade seja constante, é sabido que esse é um processo gradual e desafiador. Diante disso, o grupo optou por uma abordagem realista e colaborativa: discutir quais são as melhores estratégias possíveis dentro das limitações existentes. A proposta é oferecer aos colegas que atuam nesses contextos diretrizes claras para que utilizem, da melhor forma, os recursos disponíveis, sempre com base na melhor evidência científica.
O trabalho foi publicado na Frontiers in Oncology, revista científica de relevância internacional na área oncológica, reforçando o alcance global da iniciativa. Trata-se de um estudo com impacto mundial, construído por médicos de diferentes países, mas com liderança brasileira.
Mais do que uma publicação científica, o consenso representa um compromisso com a equidade no cuidado oncológico. Demonstra que, mesmo diante de desigualdades estruturais, é possível organizar conhecimento, promover cooperação internacional e oferecer caminhos concretos para melhorar o tratamento de pacientes com câncer de ovário em todo o mundo.
*Dr. Fernando Maluf é médico oncologista, cofundador do Instituto Vencer o Câncer e professor livre-docente da Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo.
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