Dois estudos apresentados no American Society of Clinical Oncology Genitourinary Cancers Symposium, o Simpósio de Tumores Geniturinários da ASCO realizado em fevereiro, em São Francisco, trouxeram avanços importantes para o tratamento do câncer de rim, tanto no cenário pós-cirurgia quanto na doença avançada. As pesquisas reforçam uma tendência clara da oncologia moderna: combinar estratégias terapêuticas para ampliar o controle da doença e prolongar a sobrevida dos pacientes.
No Brasil, mais de 10 mil novos casos da doença a cada ano, com maior incidência entre homens e geralmente diagnosticado a partir da sexta década de vida. Embora menos frequente que outros tumores, como mama ou próstata, o câncer renal costuma ser silencioso nas fases iniciais e pode ser identificado já em estágios mais avançados. O tema ganha ainda mais relevância com a proximidade do Dia Mundial do Rim, celebrado em 12 de março, data que reforça a importância da prevenção, do diagnóstico precoce e do cuidado integral com a saúde renal.
O primeiro estudo apresentado no simpósio internacional envolveu mais de 1.800 pacientes e avaliou uma nova estratégia após a cirurgia do câncer de rim. Até então, o tratamento padrão pós cirurgia aprovado era a imunoterapia com pembrolizumabe, que estimula o sistema imunológico a reconhecer e combater células tumorais remanescentes. A nova pesquisa comparou esse tratamento isolado com a combinação de nivolumabe, outro imunoterápico, associado ao belzutifan, um inibidor do “fator induzível por hipóxia.”
Trata-se de um mecanismo bastante interessante. O medicamento atua bloqueando um mecanismo central para o crescimento tumoral. O “fator induzível por hipóxia” estimula a formação de novos vasos sanguíneos que nutrem o tumor, favorecendo crescimento, invasão e disseminação metastática. Ao inibir essa via, reduz-se a capacidade de o tumor se adaptar e progredir.
Os resultados mostraram que a combinação reduziu em 28% o risco de progressão da doença ou morte em comparação com o tratamento padrão, ainda que com aumento manejável de efeitos adversos. Trata-se do primeiro avanço significativo nesse cenário desde a incorporação da imunoterapia como padrão global, abrindo caminho para uma nova estratégia combinada no tratamento adjuvante (após a cirurgia) do câncer renal.
O segundo estudo, com mais de 750 pacientes com câncer de rim avançado que já haviam apresentado falha a tratamentos anteriores, também trouxe dados animadores. A medicação cabozantinibe, utilizada como referência, foi comparada à combinação de lenvatinibe, um inibidor da via do VEGF, com belzutifan, o mesmo inibidor do fator de hipóxia avaliado no estudo anterior.
O VEGF, ou fator de crescimento endotelial vascular, é uma das principais vias responsáveis pela formação de novos vasos sanguíneos que alimentam o tumor. O bloqueio simultâneo de diferentes mecanismos ligados à vascularização mostrou-se mais eficaz do que a estratégia tradicional isolada. A combinação reduziu em 30% o risco de progressão da doença ou morte. Em dois anos de acompanhamento, praticamente o dobro dos pacientes que receberam o tratamento combinado permanecia vivo e sem progressão da doença em comparação com o grupo controle.
Os dois estudos reforçam um conceito cada vez mais consolidado na oncologia: o bloqueio mais abrangente das vias que sustentam o crescimento tumoral pode gerar ganhos clínicos relevantes. No caso do câncer de rim, atacar simultaneamente mecanismos de estimulação imunológica e de formação de vasos sanguíneos parece representar um novo passo no controle da doença.
Em um cenário em que o câncer de rim ainda é frequentemente diagnosticado em fases avançadas, avanços como esses ampliam perspectivas terapêuticas e oferecem novas possibilidades aos pacientes. No mês em que celebramos o Dia Mundial do Rim, os dados apresentados no simpósio da ASCO reforçam que ciência, inovação e pesquisa clínica continuam sendo pilares fundamentais para transformar o cuidado oncológico e salvar vidas.
*Dr. Fernando Maluf é médico oncologista, cofundador do Instituto Vencer o Câncer e professor livre-docente da Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo.
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