O Brasil vive um momento decisivo na área da saúde. Em meio a uma corrida global por inovação, temos diante de nós uma oportunidade concreta de reposicionar o país como protagonista na pesquisa clínica. E, com isso, transformar o acesso da população a novos tratamentos.
Recentemente, publicamos no JCO Global Oncology um artigo que propõe algo ainda pouco explorado de forma estruturada no país: uma agenda nacional para redesenhar a pesquisa clínica, conectando ciência, política pública e acesso real à inovação.
O ponto de partida é claro. O Brasil reúne condições únicas. Temos uma população diversa, um dos maiores sistemas públicos de saúde do mundo e centros de excelência reconhecidos internacionalmente. Ainda assim, participamos de apenas cerca de 2,2% dos ensaios clínicos multicêntricos globais.
Esse dado não é apenas estatístico. Ele revela um custo real para o país. Menos pesquisa significa menos acesso precoce a terapias inovadoras, menor atração de investimentos e menos desenvolvimento científico alinhado à nossa realidade.
É importante reforçar que a pesquisa clínica não é um tema restrito às universidades. Ela impacta diretamente o paciente. Países que ampliam sua participação em estudos oferecem mais oportunidades de tratamento, melhoram a qualidade do cuidado e reduzem desigualdades em saúde.
O nosso desafio, no entanto, é estrutural. O Brasil ainda enfrenta processos regulatórios complexos, baixa integração da pesquisa com o sistema público, escassez de profissionais especializados e desigualdades regionais importantes. Soma-se a isso a baixa participação da população, muitas vezes por falta de informação.
Nos últimos anos, demos um passo relevante com a aprovação da Lei nº 14.874/2024, que estabelece um novo marco regulatório para a pesquisa clínica. A lei traz avanços importantes, como maior previsibilidade e segurança jurídica. Mas é preciso ser direto: leis, por si só, não transformam realidades. A diferença estará na implementação.
Por isso, o artigo propõe um plano de ação organizado no tempo. No curto prazo, o foco deve ser regulamentar e operacionalizar a nova lei, reduzindo gargalos imediatos. No médio prazo, é essencial investir na formação de profissionais, ampliar a infraestrutura e fortalecer o uso de dados e tecnologia.
No longo prazo, o objetivo é integrar a pesquisa clínica ao planejamento do sistema de saúde e consolidar o Brasil como um polo global.
Esse movimento já começou e reflete um entendimento fundamental: nenhuma transformação dessa magnitude acontece de forma isolada. É preciso coordenação entre governo, pesquisadores, investidores e sociedade.
Países que estruturam seus ecossistemas de pesquisa colhem ganhos econômicos, científicos e sociais. Para o Brasil, avançar nessa agenda significa aumentar competitividade, atrair investimentos e, sobretudo, reduzir o tempo entre a descoberta científica e o acesso do paciente à inovação.
No centro dessa discussão está uma escolha estratégica. Podemos seguir subutilizando nosso potencial ou assumir o protagonismo que as nossas capacidades permitem.
A pesquisa clínica é mais do que uma agenda científica. É um compromisso de desenvolvimento e de equidade. E, acima de tudo, é uma pauta sobre pessoas, para garantir que a inovação chegue mais rápido e de forma mais justa a quem precisa.
*Dr. Fernando Maluf é médico oncologista, cofundador do Instituto Vencer o Câncer e professor livre-docente da Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo.
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