Um dos temas mais importantes apresentados no Congresso Americano de Oncologia, a ASCO 2026, realizada nesta semana em Chicago (EUA) foi o potencial papel dos agonistas do GLP-1, popularmente conhecidos como “canetinhas”, não apenas na prevenção do câncer, mas também como uma possível ferramenta complementar no tratamento de pacientes que já receberam o diagnóstico da doença.
Até pouco tempo atrás, a maior parte dos estudos avaliava o impacto dessas medicações na redução do risco de desenvolvimento de câncer em pessoas saudáveis. No entanto, novos trabalhos apresentados este ano buscaram responder uma pergunta importante: qual é o efeito destes medicamentos em pacientes oncológicos em tratamento ou que já foram tratados?
Um dos estudos mais relevantes avaliou cerca de 20 mil pacientes com câncer colorretal submetidos à cirurgia e sem evidência de doença após o tratamento. Os pesquisadores compararam os resultados de quem utilizou a caneta após a cirurgia com os de quem não utilizou. Os dados mostraram uma redução de 67% no risco de recorrência do câncer e uma diminuição de 55% no risco de morte entre os pacientes que fizeram uso da medicação.
Esses resultados são especialmente importantes porque o câncer colorretal é o terceiro tipo de câncer mais frequente em homens e mulheres. O estudo sugere que a perda de peso promovida pelos agonistas do GLP-1 pode contribuir para modificar a história natural da doença, reduzindo as chances de retorno do tumor e melhorando a sobrevida dos pacientes.
Outro trabalho apresentado na ASCO 2026 avaliou mais de 3,8 mil pacientes tratados com imunoterapia, uma das principais estratégias terapêuticas utilizadas atualmente para diversos tipos de câncer. O objetivo foi analisar o impacto do uso concomitante da canetinha durante o tratamento oncológico.
Os resultados mostraram que os pacientes que utilizaram a medicação em associação à imunoterapia apresentaram um aumento de 31% na sobrevida quando comparados àqueles que receberam apenas a imunoterapia. Além disso, o grupo que utilizou os agonistas do GLP-1 apresentou menos efeitos colaterais relacionados ao tratamento.
Embora ambos sejam estudos exploratórios e ainda necessitem de confirmação em pesquisas futuras, os dados são bastante encorajadores. Eles sugerem que as canetinhas não apenas parecem ser seguras para pacientes com câncer, sem comprometer a eficácia dos tratamentos ou aumentar a toxicidade, como também podem exercer um efeito positivo adicional quando associadas às terapias oncológicas.
Juntos, esses estudos reforçam uma hipótese que vem ganhando cada vez mais força na oncologia: além do papel já conhecido na perda de peso, no controle do diabetes e na saúde cardiovascular, os agonistas do GLP-1 podem se tornar aliados importantes também na jornada de tratamento do câncer.
*Dr. Fernando Maluf é médico oncologista, cofundador do Instituto Vencer o Câncer e professor livre-docente da Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo.
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