Viver mais deixou de ser apenas uma questão de acrescentar anos à vida. O desafio da longevidade é acrescentar vida aos anos, preservando autonomia, lucidez, saúde mental, capacidade de escolha e bem-estar. Para mim, esse é um ponto fundamental: há uma diferença importante entre viver e apenas sobreviver. E essa distinção precisa estar cada vez mais presente nas decisões de médicos, gestores, governos e da própria sociedade.
No Brasil, essa discussão é cada vez mais urgente. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o número de pessoas com 100 anos ou mais passou de 22,7 mil, em 2010, para 37,8 mil, em 2022. Diante dessa realidade, uma pergunta se torna inevitável: como queremos chegar aos 80, 90 ou 100 anos?
Quando falamos em envelhecimento saudável, pensamos imediatamente em alimentação equilibrada, atividade física, saúde cardiovascular e prevenção de doenças. A saúde ocular, porém, ainda ocupa um espaço menor nessa discussão, embora enxergar bem seja fundamental para preservar independência e qualidade de vida.
Com o avanço da idade, aumenta a ocorrência de condições como catarata, glaucoma e presbiopia, capazes de comprometer progressivamente a visão. No Brasil, a dimensão do problema é expressiva. Levantamento da Fiocruz aponta que, entre os 56,1 milhões de brasileiros com 50 anos ou mais, cerca de 14 milhões têm catarata, uma das principais causas de cegueira reversível e uma condição que, sem tratamento adequado, pode comprometer a visão.
O desafio não é só brasileiro. Estudo publicado em 2025 na The Lancet Global Health, com dados de 204 países e territórios, mostrou que o número de pessoas com deficiência visual atribuível à degeneração macular relacionada à idade (DMRI) mais que dobrou entre 1990 e 2021, passando de 3,64 milhões para 8,06 milhões. A projeção é de que esse número chegue a 21,34 milhões em 2050.
A boa notícia é que a oftalmologia avançou nas últimas décadas. Hoje contamos com técnicas cirúrgicas mais seguras, exames diagnósticos mais precisos e tratamentos capazes de preservar ou recuperar a visão em diferentes condições. A cirurgia de catarata, por exemplo, deixou de ter como único objetivo a retirada do cristalino opacificado e, em determinados casos, também pode corrigir erros refrativos e proporcionar maior independência visual.
Mas tecnologia, por si só, não basta. É preciso garantir acesso. Mutirões de catarata são importantes para reduzir demandas acumuladas, mas uma política de saúde ocular não pode se limitar ao tratamento de casos que já evoluíram. É necessário ampliar o acesso à consulta oftalmológica, ao diagnóstico precoce, aos óculos, aos tratamentos e ao acompanhamento regular. Muitas perdas visuais podem ser prevenidas, tratadas ou retardadas quando o cuidado chega no momento adequado.
Essa discussão ganha ainda mais relevância diante da relação entre visão, autonomia e saúde cerebral. A perda visual pode limitar a mobilidade, dificultar atividades cotidianas, reduzir a interação social e favorecer o isolamento. Estudos também apontam associação entre comprometimento visual e declínio cognitivo. Publicação recente na JAMA Network Open mostra que condições oculares e a deficiência visual estão associadas a um maior risco de desenvolvimento de doença de Alzheimer e demências relacionadas.
Cuidar da visão, portanto, vai muito além dos olhos. Significa preservar a capacidade de participar, escolher, circular e se relacionar com o mundo.
O futuro da longevidade precisa incorporar essa perspectiva. Não basta preparar a sociedade para que as pessoas vivam mais; precisamos criar condições para que vivam melhor. Isso exige prevenção, diagnóstico precoce, acesso ao tratamento e políticas de saúde que reconheçam a visão como parte essencial do envelhecimento saudável.
Chegar aos 80, 90 ou 100 anos com autonomia, lucidez e capacidade de escolha depende de muitos fatores. Entre eles está algo tão cotidiano quanto fundamental: enxergar bem. Para que isso seja possível, precisamos combinar escolhas individuais com políticas públicas capazes de garantir acesso ao cuidado e à assistência oftalmológica desde a infância e ao longo de toda a vida.
Claudio Lottenberg é mestre e doutor em oftalmologia pela Escola Paulista de Medicina (Unifesp). É presidente do conselho do Einstein Hospital Israelita e do Instituto Coalizão Saúde.
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