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Saúde É um Fenômeno Coletivo

Cultivar boas amizades, com conexão real, é essencial para uma vida longa e plena

5 min

Com os espetaculares avanços tecnocientíficos na área da saúde, em particular na medicina de precisão, é tentador acreditar que o monitoramento do organismo em tempo real, associado a dietas genômicas e a suplementos de última geração, possa garantir não só a otimização das funções cognitivas, fisiológicas e metabólicas como a tão almejada longevidade saudável. Ainda que tudo isso seja fascinante, a ciência vem mostrando, em outra frente, que o bom funcionamento do corpo humano requer um combustível de outra natureza: estudos já comprovaram que o cultivo de boas amizades, com conexão real, é um fator essencial para uma vida longa e plena.

A mais antiga pesquisa nessa linha, o Harvard Study of Adult Development, iniciada em 1938, acompanha os mesmos indivíduos (e agora seus descendentes) há mais de 85 anos. Esse estudo revelou que o maior preditor de uma velhice saudável aos 80 anos não é o colesterol aos 50 ou a pressão arterial, mas a satisfação nas relações interpessoais. Os coordenadores do trabalho, ao longo dos anos, concluíram que a saúde física não é determinada apenas pela genética ou pelos hábitos alimentares, mas, em grande parte, pela qualidade dos relacionamentos. Os participantes mais conectados socialmente apresentaram menor declínio cognitivo e menor sensibilidade à dor física na velhice.

Em 2010, os resultados da metanálise liderada por Julianne Holt-Lunstad, na Brigham Young University (Social Relationships and Mortality Risk: A Meta-analytic Review), que examinou dados de mais 300 mil pessoas durante sete anos, mostraram que a falta de conexões sociais sólidas aumenta o risco de mortalidade em 50%. A pesquisadora chegou a comparar o impacto da solidão no corpo ao dano biológico de fumar 15 cigarros por dia. Concretamente, a solidão, mais que um sentimento experimentado na dimensão psíquica, é um estado físico que eleva a proteína C-reativa (PCR), sinalizando uma inflamação sistêmica, e esse quadro é mais perigoso que a obesidade e o sedentarismo.

Outros trabalhos vêm sendo desenvolvidos nessa mesma direção: o estudo do Rush University Medical Center (Chicago), por exemplo, acompanhou idosos por anos para analisar a relação entre vida social e Alzheimer. Mais uma vez, a sociabilidade apareceu como elemento central: pessoas com relações sociais ativas apresentaram risco 60% menor de desenvolver declínio cognitivo. A interação social parece criar uma espécie de “reserva cognitiva” que protege o cérebro contra lesões físicas. Uma pesquisa da Universidade da Carolina do Norte, de 2016, mostrou que o isolamento social acelera o aparecimento de marcadores fisiológicos de envelhecimento, como inflamação sistêmica e hipertensão, já na adolescência e no início da fase adulta.

Há mais de dois mil anos, Aristóteles já afirmava que somos animais sociais por natureza; fora da convivência, perderíamos nossa própria essência.

As descobertas da medicina moderna corroboram o que o filósofo já intuía, mostrando que nosso sistema imunológico reage ao isolamento. No fim das contas, a saúde é um fenômeno coletivo. Isso significa que não basta investir no cuidado individual: enquanto a medicina de precisão busca reduzir cada marcador de inflamação, como a proteína C-reativa, o isolamento atua, por si só, como um agente inflamatório.

Na vida moderna, em que todos temos agendas repletas de compromissos, é comum faltar tempo para as amizades. Estamos permanentemente conectados graças às redes sociais e aos aplicativos de mensagens, mas a qualidade desse tipo de conexão é insuficiente para criar laços relevantes, que sejam percebidos positivamente pelo nosso organismo. Conversas fragmentadas, suspensas sem aviso, respostas lacônicas por meio de emojis ou figurinhas, nada disso cria vínculos afetivos significativos. Amizades reais requerem um pouco de “perda de tempo” – e é justamente essa disponibilidade para o outro, para ouvir e ser ouvido, para dar e receber atenção, que faz baixar o cortisol.

A correlação entre o afeto e a biologia, observada nesses estudos, não é apenas uma coincidência estatística; é o reflexo de um projeto humano muito mais antigo do que qualquer protocolo moderno. Nossa fisiologia, embora cercada por tecnologias de ponta, ainda opera sob uma lógica milenar: ela interpreta o isolamento como perigo e a conexão como sobrevivência. Para o corpo, o isolamento social não é um estilo de vida, é uma ameaça biológica.

A tecnologia tem muito a oferecer na saúde, sem sombra de dúvida, mas não podemos negligenciar nossos afetos, que, além de manterem nosso equilíbrio físico, como um escudo neuroprotetor, dão sentido e propósito à vida.

*Claudio Lottenberg é mestre e doutor em oftalmologia pela Escola Paulista de Medicina (Unifesp). É presidente do conselho do Einstein Hospital Israelita e do Instituto Coalizão Saúde.

Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião de Forbes Brasil e de seus editores.

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