Vivemos uma era de ouro da medicina, com avanços tecnológicos que permitem desde cirurgias robóticas até terapias genéticas personalizadas. Paradoxalmente, nunca se viram tantos casos de doenças graves em pessoas jovens – cânceres agressivos, distúrbios autoimunes e síndromes metabólicas desencadeados por múltiplos fatores.
Correndo por fora desse cenário, estão os supercentenários: indivíduos com mais de 110 anos que atravessaram o século com lucidez, funcionalidade e, muitas vezes, sem acesso aos recursos médicos que hoje consideramos indispensáveis.
Qual seria o segredo dessas pessoas? Embora a genética possa ter um papel muito importante nisso, o estilo de vida pode ser a peça que completa o quebra-cabeça. É isso o que parecem mostrar as chamadas Zonas Azuis, regiões do mundo onde a longevidade não é exceção, mas regra.
Os supercentenários – pessoas que vivem além dos 110 anos – são raros, mas fascinantes. Estima-se que existam entre 150 e 600 indivíduos vivos com essa idade no mundo, a maioria mulheres, o que se explica por dados biológicos e comportamentais. O que intriga pesquisadores, porém, não é apenas a longevidade, mas a qualidade da vida: essas pessoas ultrapassaram um século de existência com autonomia e sem doenças crônicas graves.
Recente estudo “multiômico” (genômico, transcriptômico, proteômico e metabolômico), liderado por Manel Esteller, chefe do grupo de Epigenética do Câncer do Instituto de Pesquisa de Leucemia Josep Carreras, em Barcelona, publicado na revista Cell Reports Medicine, analisou profundamente o caso de María Branyas, uma mulher que chegou lúcida e sem doenças graves aos 117 anos de idade.
A investigação abrangente, do DNA às bactérias intestinais, revelou padrões surpreendentes, como baixa inflamação, microbioma rejuvenescido e epigenoma mais jovem que a idade cronológica. Esses achados sugerem que envelhecer bem não é apenas uma questão de sorte genética: é antes o resultado da interação do corpo com o ambiente ao longo da vida.
Enquanto os supercentenários representam casos individuais de longevidade extrema, as Zonas Azuis mostram que viver muito e com saúde pode ser um fenômeno coletivo. Identificadas pelo pesquisador Dan Buettner, cinco regiões do planeta – Okinawa (Japão), Sardenha (Itália), Icária (Grécia), Península de Nicoya (Costa Rica) e Loma Linda (Califórnia, EUA) – concentram populações com alta expectativa de vida e baixíssima incidência de doenças crônicas.
O segredo não está em tratamentos sofisticados, mas em hábitos simples, como alimentação baseada em plantas, movimento natural ao longo do dia e rotinas sem estresse, além de vínculos sociais fortes e propósito de vida. Nessas comunidades, longevidade não é exceção, é cultura.
Os supercentenários e as Zonas Azuis revelam um padrão claro: a longevidade está profundamente ligada ao estilo de vida. Em contraste com a abordagem moderna, que muitas vezes trata a saúde como algo a ser recuperado por meio de intervenções médicas, essas populações vivem de forma a preservar a saúde naturalmente.
Alimentação rica em vegetais, sono regular, movimento constante – não necessariamente em academias, mas incorporado ao cotidiano – e conexões sociais profundas formam um conjunto de práticas que funcionam como uma medicina silenciosa e contínua. A prevenção, nesses contextos, não é um protocolo clínico, mas uma cultura vivida.
A ideia de viver muito mais – ou, quem sabe, para sempre – povoa a imaginação humana desde o início dos tempos e não faltam na história mitos sobre a busca da imortalidade, em geral associada à juventude eterna. Na época atual, a expectativa de viver mais e melhor recai sobre a ciência.
Há pouco tempo, em conversa informal, o presidente russo Vladimir Putin e o chinês Xi Jinping comentavam a possibilidade de viver até os 150 anos graças aos transplantes de órgãos ou até de alcançar a imortalidade pela biotecnologia. O cantor Michael Jackson, que partiu precocemente, aos 50 anos, também sonhava viver até os 150 anos com apoio da medicina.
Entre o sonho e a realidade, os supercentenários, que já atingiram a marca dos 117, conseguiram o feito sem a ajuda de um elixir milagroso ou mesmo da tecnologia.
É claro que, em tempos de medicina de ponta e diagnósticos cada vez mais precoces, é fácil acreditar que viver mais depende apenas da tecnologia – e não se pode negar o papel de todo esse desenvolvimento científico.
Os supercentenários e as Zonas Azuis, no entanto, mostram uma perspectiva diferente: a longevidade é, acima de tudo, uma construção diária, feita de escolhas simples, rotinas saudáveis e, em grande parte, de vínculos profundos, espiritualidade, propósito.
Talvez o verdadeiro avanço não esteja em ter mais anos de vida, mas em ter mais vida nos próximos anos. E isso não se traduz apenas em iniciativas particulares: cuidar do planeta, reduzindo a emissão de poluentes tóxicos, é uma atitude coletiva que pode contribuir para um ambiente mais saudável.
Claudio Lottenberg é mestre e doutor em oftalmologia pela Escola Paulista de Medicina (Unifesp). É presidente do conselho do Einstein Hospital Israelita e do Instituto Coalizão Saúde.
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