A saúde mental masculina tornou-se um tema central nas discussões sobre bem-estar e desempenho profissional. Em um cenário marcado por transformações aceleradas, com novas dinâmicas de trabalho, mudanças nas relações familiares e maior visibilidade das questões emocionais, os homens se veem diante de desafios que os impactam não apenas na qualidade de vida como também na produtividade, na criatividade e na capacidade de se relacionar.
Trata-se de um fenômeno contemporâneo que atravessa empresas, famílias e instituições.
Entender esse movimento é essencial para construir ambientes mais saudáveis e eficientes.
Nas últimas décadas, o mercado de trabalho passou por mudanças profundas. A digitalização, a hipercompetitividade e a instabilidade econômica criaram ambientes de pressão constante por desempenho. O resultado é o estímulo a comportamentos que podem transformar-se em transtornos: obsessão por detalhes, perfeccionismo, devoção ao trabalho, dificuldade de delegar tarefas, rigidez excessiva nem sempre são sinais de competência, mas a tendência é que sejam vistos dessa maneira. Relatórios recentes da Organização Internacional do Trabalho (OIT) mostram que uma parcela significativa dos trabalhadores tem jornadas excessivamente longas e enfrenta riscos psicossociais associados ao estresse, à fadiga e à queda de desempenho.
Para muitos homens, essa pressão se soma a expectativas tradicionais ligadas ao papel de provedor. Esse modelo de masculinidade, mesmo que esteja mais flexível, ainda influencia a forma como eles vivenciam o trabalho: o sucesso profissional continua sendo percebido como um marcador de valor pessoal. Uma pesquisa conduzida pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) indica que homens entre 25 e 45 anos relatam níveis elevados de exaustão, especialmente em setores de alta exigência.
Esse novo cenário não aponta propriamente para uma crise, mas para uma transição. Com o avanço profissional das mulheres e, consequentemente, com sua emancipação, os papéis masculinos tendem a reorganizar-se. As tarefas de prover o lar e de cuidar da prole vão deixando de ser fixadas por gênero e passam a ser compartilhadas pelo casal. É claro que isso exige dos homens novas habilidades emocionais e sociais. Muitos desejam maior equilíbrio entre vida pessoal e trabalho, mais participação na vida familiar e mais autonomia emocional, mas isso não significa que saibam exatamente como lidar com as mudanças: embora não queiram reproduzir padrões antigos, ainda não sabem ao certo que papel desempenhar.
Estudos da Universidade de São Paulo (USP) e da American Psychological Association (APA) mostram a persistência dos padrões tradicionais de masculinidade no quesito expressão de vulnerabilidades. A socialização masculina, diferentemente da feminina, valoriza autocontrole, racionalidade e resistência. Isso faz que homens evitem expor-se em conversas sobre medo, insegurança ou tristeza. É claro que essa dificuldade não significa ausência de emoções, mas reflete a falta de um espaço seguro para compartilhá-las. Homens costumam ter menos redes de apoio afetivo e menos vínculos íntimos. Tudo isso gera uma sobrecarga silenciosa, que acaba afetando tanto os relacionamentos como a produtividade no trabalho.
Essa reorganização dos papéis não deve ser vista como expressão de um conflito, mas como oportunidade. Ao se afastarem de modelos rígidos, os homens podem construir relações mais saudáveis, desenvolver habilidades socioemocionais e adotar práticas de autocuidado que favorecem tanto o bem-estar quanto o desempenho profissional. Empresas que investem em programas de bem-estar, ambientes colaborativos e políticas de saúde mental já observam ganhos concretos: redução de absenteísmo, aumento de engajamento e melhoria na qualidade das relações de trabalho. Afinal, todos precisamos de equilíbrio e propósito para manter a saúde física e mental.
Discutir saúde mental masculina é mais que falar sobre cuidado individual. O tema é estratégico do ponto de vista da produtividade, da inovação e da sustentabilidade humana. Em um mundo em constante transformação, homens precisam de ferramentas emocionais que os ajudem a lidar com pressões, a reorganizar expectativas e a construir relações mais saudáveis. Ampliar o debate, reduzir estigmas e fortalecer políticas de acolhimento são passos essenciais para que essa transição seja vivida com leveza – e para que homens possam desempenhar seus papéis, profissionais e pessoais, com satisfação.
Claudio Lottenberg é mestre e doutor em oftalmologia pela Escola Paulista de Medicina (Unifesp). É presidente do conselho do Einstein Hospital Israelita e do Instituto Coalizão Saúde.
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