No domingo, Lula foi reeleito com 51,79% dos votos válidos e chegou a um quarto mandato, coisa inédita no país. Passei a semana lendo análises sobre o resultado, mas o número que não me sai da cabeça não veio das urnas. Veio do Balanço Energético Nacional: em 2025, 86,8% da eletricidade brasileira saiu de fontes renováveis.
A inteligência artificial virou, antes de tudo, um problema de energia. As big techs disputam eletricidade como antes se disputava petróleo, e pouquíssimos países têm um número desses para colocar na mesa. O Brasil tem o que o mundo quer. A pergunta que esta eleição deveria ter respondido, e não respondeu, é o que a gente pretende fazer com isso.
Lá fora, a resposta já foi dada. Washington trata chip como assunto de segurança nacional e decide quem pode comprar o quê. Pequim gasta o que for preciso para não depender de ninguém. Os dois continuam interdependentes, mas passaram a usar essa interdependência como arma. Trump e Xi Jinping discordam de quase tudo, menos de uma coisa: capacidade computacional é território, e território se ocupa.
Em 15 de setembro, o governo sancionou o Redata, regime que tira impostos da compra de equipamentos para quem instalar data centers no país. As contrapartidas são mais concretas do que o debate público deixou perceber. A empresa precisa usar energia limpa, gastar no máximo 0,05 litro de água por kWh no resfriamento, investir em pesquisa com universidades e empresas brasileiras, reservar capacidade para instituições nacionais e destinar ao mercado interno pelo menos 10% do processamento que fornece.
Li esse último número duas vezes. 10%. Os outros noventa podem atender a quem quiser, onde quiser.
O Brasil já viu esse filme. Somos um dos maiores exportadores de minério de ferro do mundo e, por décadas, mandamos a pedra para fora e compramos de volta as máquinas, os equipamentos e a tecnologia feitos com ela. O valor ficou com quem transformou. A IA pode repetir o roteiro com outra matéria-prima. A gente entra com o quilowatt-hora, a água e o terreno. Os chips vêm de Taiwan, os modelos vêm da Califórnia ou de Pequim, e as aplicações vêm de quem souber construí-las. Corremos o risco de virar o terreno barato da IA dos outros.
Não acho que a saída seja recusar o investimento. Data center é infraestrutura, e infraestrutura atrai outras coisas. Mas não atrai sozinha. Incentivo fiscal é dinheiro público que deixa de ir para escola e hospital, e um data center consome energia e água de uma região inteira. Se o país vai pagar essa conta, precisa saber o que recebe em troca. Como psicóloga, conheço bem um padrão: quem tem muito raramente se sente pressionado a decidir. Abundância costuma adiar escolhas. O Brasil passou décadas adiando as suas porque sempre teve mais uma riqueza natural para oferecer.
E aqui a eleição volta a importar. Parte das regras do Redata ainda depende de regulamentação do Executivo. Quem vai escrevê-la é um governo que, a partir de fevereiro, negocia com um Senado em que o PL terá a maior bancada, com 29 das 81 cadeiras, e com uma Câmara em que o partido elegeu 121 deputados. Data center é decisão de vinte anos, e investidor não gosta de regra que pode mudar a cada votação. Se a agenda de tecnologia virar mais uma trincheira entre Planalto e Congresso, os dois lados perdem. Quem ganha é quem vende os chips.
Escrevo nesta coluna sobre tecnologia no trabalho, e é por aí que eu olharia. Um data center pronto emprega pouca gente. O valor está em volta dele: em quem sabe adaptar um modelo para o agro, construir um sistema que funcione no SUS, criar um produto em português para o pequeno varejista. Nada disso sai de incentivo fiscal. Sai de gente formada, de empresa disposta a experimentar e de universidade com acesso à máquina. Para mim, a obrigação de reservar capacidade para instituições nacionais é a linha mais importante da lei, e foi a que menos apareceu no noticiário.
A mesma pergunta vale para qualquer empresa brasileira que esteja comprando IA hoje: estamos só alugando a capacidade dos outros ou formando gente capaz de construir alguma coisa em cima dela?
A eleição acabou no domingo. A decisão sobre se o Brasil vai vender energia ou inteligência mal começou.
Iona Szkurnik é fundadora e CEO da Education Journey, plataforma de educação corporativa que usa Inteligência Artificial para uma experiência de aprendizagem personalizada. Com mestrado em Educação e Tecnologia pela Universidade de Stanford, Ionaintegrou o time de criação da primeira plataforma de educação online da universidade. Como executiva,Ionaatuou durante oito anos no mercado de SaaS de edtechs no Vale do Silício.Ionaé também cofundadora da Brazil at Silicon Valley, fellow da Fundação Lemann, mentora de mulheres e investidora-anjo.
Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião de Forbes Brasil e de seus editores.
Acompanhe a Forbes no Google
Adicione a Forbes como fonte preferida no Google e encontre nossas notícias com mais facilidade.