No auge, as bonecas Labubu não eram apenas itens colecionáveis — eram uma espécie de moeda emocional. As redes sociais foram tomadas por vídeos de unboxing de criaturas em tons pastéis, com sorrisos largos e orelhas de coelho. As caixas-surpresa (blind-boxes) esgotavam em minutos. Em plataformas de revenda, versões raras eram vendidas por milhares de dólares. A abertura de capital da Pop Mart chegou perto de US$ 1,8 bilhão, e a receita da marca com a propriedade intelectual “The Monsters” chegou a ¥6,3 bilhões (cerca de US$ 870 milhões) na metade de 2024.
Mas o drama mais recente — a apreensão de Labubus falsificados em operações que vão de Xangai a Blackpool, no Reino Unido — soa como um ponto de virada.
No primeiro semestre de 2025, a febre pelo Labubu fez os lucros da Pop Mart dispararem 350%. As bonecas “monstruosas” da marca fizeram tanto sucesso que filas quilométricas e até pequenos tumultos começaram a surgir em alguns países, além de um mercado paralelo em expansão. Criado pelo artista de Hong Kong Kasing Lung, o Labubu fez sua estreia em 2019, mas só alcançou o status global recentemente — quando virou o brinquedo acessório queridinho de celebridades como Rihanna, Dua Lipa e Lisa do Blackpink.
Mais que um brinquedo: uma identidade
Colecionadores começaram a formar círculos internos: grupos no Telegram, mercados de revenda, eventos temáticos. Não era mais só uma boneca — era uma identidade.

O grande trunfo da Pop Mart não foi apenas criar um coelho-elfo “feio-fofo”, mas em como vendê-lo. A escassez planejada ia além de edições limitadas: envolvia lançamentos por localização geográfica, sorteios via aplicativo, variantes raras cujas chances de aparecimento eram analisadas obsessivamente por fãs online. Dados sobre tamanho das filas, uso de bots e tendências de revenda ajudavam a moldar os lançamentos futuros — não para aliviar a demanda, mas para intensificá-la. Os fãs aprenderam cedo que lealdade exigia atenção digital constante.
Essa estratégia gerou margens maiores — mas talvez às custas da boa vontade do público. Compradores frustrados, repetidamente informados de que os estoques estavam esgotados mesmo com lojas próximas, se sentiam tratados como dados, não como fãs.
Por um breve período, filas viraram o espetáculo global do varejo: uma escassez orquestrada alimentando uma moeda social.
Quando as falsificações viram notícia de capa
Neste verão, a polícia de Xangai desmantelou uma quadrilha que vendeu mais de 5 mil Labubus falsificados por 60% a 70% do preço de varejo. Disfarçados como uma loja de eletrônicos, os golpistas copiaram os originais e lucraram cerca de RMB 12 milhões (US$ 1,67 milhão) antes de serem presos. Paralelamente, autoridades alfandegárias chinesas apreenderam dezenas de milhares de “Lafufus” — como foram apelidados nas redes sociais — em diversas cidades do país.
Mas o problema não era só a oferta falsificada: a crise escancarou rachaduras na fidelidade dos fãs. Colecionadores das primeiras horas viram a comunidade se diluir à medida que os Lafufus desvalorizavam o mercado secundário e corroíam a confiança.
A Pop Mart tentou proteger a autenticidade: registrou marcas, lançou guias de verificação e inseriu etiquetas QR. Mas a essa altura, já estava claro que uma escassez mal gerenciada pode implodir a equação emocional da marca.
E se tivesse sido diferente?
Pense por um instante em uma história alternativa. E se a Pop Mart tivesse tratado seus primeiros fãs não como fontes de receita, mas como guardiões da marca? Poderiam ter criado níveis de acesso exclusivos, pré-vendas antecipadas, miniaturas serializadas inspiradas no universo “The Monsters” de Kasing Lung ou até testes de design liderados por fãs. Imagine eventos ao vivo entre colecionadores e criadores. Imagine uma série de aplicativos explorando, com o tempo, a mitologia do Labubu.
Mas o que prevaleceu foi a escassez; e o conteúdo, assim como o vínculo emocional, esfriou. Um legado desperdiçado em vez de algo duradouro.
Ainda assim, há um lado premium nessa história. A Pop Mart realmente construiu um certo prestígio: edições exclusivas em museus como o Louvre, colaborações com Keith Haring, One Piece e Coca-Cola. Os leilões ainda brilham: um Labubu verde-menta de 1,20 m foi arrematado por cerca de US$ 170 mil em Pequim. Mas quando a narrativa não se expande para a base de fãs, apenas os níveis mais altos prosperam — e o fandom corre o risco de se fragmentar.
Um ponto de virada?
Talvez o Labubu se estabilize como uma marca de nicho: leilões ocasionais, grupos dedicados e spin-offs como Crybaby ou Dimoo mantendo vivo seu DNA. Ou talvez a tendência perca força, as falsificações eliminem o sentimento de exclusividade e novas propriedades intelectuais dominem o gosto volátil da Geração Z.
Apesar da Pop Mart ter migrado para lançamentos via aplicativo e aumentado os preços nas lojas oficiais, o sentimento no mercado secundário agora é de “auge superado” — segundo usuários do Reddit e TikTok. Em algumas regiões, os preços médios de revenda caíram mais de 50% nos últimos meses.

O que essa febre nos ensinou sobre consumo
A ascensão do Labubu revela mais do que uma mania por brinquedos — ela parece preencher um vazio emocional. Em meio a incertezas econômicas e culturais, comunidades encontraram consolo na surpresa e na escassez. Colecionar deu sentido quando tantas certezas ruíram.
O boneco também teve um papel inesperado: funcionou como ponte para um universo frequentemente inacessível a consumidores mais jovens. Era comum vê-lo pendurado em bolsas de grife de celebridades e influenciadoras. O brinquedo virou um acessório simbólico, uma forma de acessar — mesmo que indiretamente — um universo estético de alto valor. Em um mercado onde o prestígio parece fora de alcance, o Labubu ofereceu aos fãs uma sensação de pertencimento. Um pequeno totem que conectava a uma narrativa maior e mais aspiracional.
Hoje, críticos questionam o impacto ambiental do consumo por microtendências e a lógica viciante das blind-boxes. Analistas da NAB alertam que o hobby corre o risco de ser interpretado como estratégia de investimento — algo perigoso, já que os valores de revenda oscilam brutalmente.
Clímax ou ponto final?
A trajetória do Labubu — do caderno de esboços a escândalos policiais — mostra o poder e os riscos do comércio emocional. Os primeiros capítulos transbordavam conexão; os mais recentes, tensão: confiança abalada, fandom em desgaste e uma adrenalina especulativa que substituiu o significado.
No fim das contas, o comércio emocional não se sustenta só com escassez. Ele depende de como se gerencia o desejo, se valoriza a participação e se integra a comunidade à narrativa — mesmo depois que a embalagem é aberta.
“Adeus, Labubu?” Talvez. Talvez não. Mas o mais importante é o que vem depois. Em uma era em que pertencimento vale mais do que posse, o próximo colecionável de sucesso será aquele que construir não apenas demanda, mas devoção.