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Argentina Melhora Indicadores Econômicos, mas Números Contam Apenas Parte da História

Apesar da melhora da inflação, a intervenção no câmbio e a dependência de crédito externo persistem de forma rotineira

10 min

Assim como outras tantas vezes em sua história, a Argentina vive no “fio da navalha”, entre o alívio temporário e a incerteza estrutural em sua economia. 

Desde que Javier Milei assumiu a presidência, em dezembro de 2023, o país promoveu um dos ajustes econômicos mais drásticos de sua história recente. Economista, ele liderou profundos cortes de gastos, deu fim aos subsídios, atacou a alta dos juros e promoveu uma reconfiguração cambial. O pacote trouxe resultados imediatos, como a desaceleração da inflação e certa estabilidade ao peso argentino. 

Não raras as vezes, as medidas são exaltadas por membros do mercado financeiro global. O JP Morgan, por exemplo, citou positivamente a Argentina em seu mais recente relatório para a América Latina. Entre as justificativas estão a inflação em queda, crescimento acelerado e déficit fiscal reduzido, o que, no entendimento dos analistas, são fatores que reforçam o potencial de atratividade para investidores internacionais. 

Em documento enviado para clientes, o Itaú BBA aponta sinais de uma mudança estrutural positiva no país vizinho. Dentre eles estão um orçamento fiscal equilibrado e déficits de conta corrente modestos. Elenca ainda o crescimento notável na produção de petróleo e gás não convencionais e no setor de mineração, o que poderia gerar um superávit comercial de aproximadamente US$ 6 bilhões (R$ 32,4 bilhões) já em 2025 — ou cerca de 1% do PIB (Produto Interno Bruto) argentino. Em outras palavras, os analistas do banco de investimentos brasileiro vê indicativos suficientes de uma mudança duradoura que pode impulsionar as exportações e o fluxo de dólares.

“O regime de bandas é um tratamento emergencial. Funciona porque o Banco Central tem dólares para intervir, mas não resolve o problema estrutural”, avalia o economista Paulo Feldmann, coordenador de projetos e professor da FIA Business School e da USP

As conquistas são inegáveis. Apostando em um “choque de realidade” imediato, Milei cortou 30% dos gastos públicos e eliminou subsídios em energia, transporte e gás. Tais medidas tiveram um impacto instantâneo, e a inflação, que rodava acima de 250% ao ano, começou a ceder.  Uma das últimas investidas de Milei foi para segurar o câmbio. No último dia 2 o Tesouro Nacional interveio no mercado para tentar frear a alta do dólar. O anúncio foi feito no X de Pablo Quirno, secretário de Finanças do presidente argentino.

O Tesouro Nacional anuncia que, a partir de hoje, participará do mercado de câmbio livre para contribuir com sua liquidez e funcionamento normal.

A questão do câmbio e o controle da moeda é fundamental nesse contexto. Afirmar que a Argentina vive uma estabilidade em relação à moeda é uma tese que ainda precisa ser comprovada, segundo Fabio Giambiagi, pesquisador associado do Ibre (Instituto Brasileiro de Economia) da FGV (Fundação Getúlio Vargas) e especialista em economia argentina. Ele lembra de um velho provérbio da política do país vizinho que diz que governar a Argentina é controlar o câmbio. Porém, a forma como Milei está lidando com a questão é controversa. “O arranjo atual é temporário e, cedo ou tarde, deve evoluir para uma flutuação semelhante à do Brasil”, diz Giambiagi.

A engenharia do câmbio argentino

A fim de estabilizar a economia e (tentar) atrair investimentos, o Banco Central argentino adotou o sistema de bandas, que mantém o dólar equiparado a uma faixa de 1.000 a 1.400 pesos. Na prática, isso significa que a moeda é parcialmente controlada, exigindo intervenções frequentes para evitar rompimentos.

Essa engenharia só pode ser adotada após o país receber uma gigante ajuda do FMI (Fundo Monetário Internacional), que deu aval a um empréstimo de US$ 20 bilhões (algo como R$ 109,2 bilhões), que reforçaram as escassas reservas argentinas e deram fôlego temporário aos hermanos.

“O regime de bandas é um tratamento emergencial. Funciona porque o Banco Central tem dólares para intervir, mas não resolve o problema estrutural”, avalia o economista Paulo Feldmann, coordenador de projetos e professor da FIA Business School e da USP.

Segundo sua análise, esse problema estrutural se explica pela restrição externa crônica. Enquanto o Brasil acumula mais de US$ 370 bilhões (R$ 2,023 trilhões) em reservas internacionais, a Argentina precisa de crédito internacional para sustentar a credibilidade. E o cronograma de pagamentos ao FMI só aumenta a pressão: em 2027 começam os desembolsos mais pesados, que somam quase US$ 60 bilhões (R$ 274,2 bilhões). Isso se soma à dívida astronômica antiga com o fundo e que supera os US$ 40 bilhões (R$ 182,8 bilhões).

“Foi como aplicar um remédio fortíssimo. O déficit caiu, mas as famílias perderam poder de compra e as empresas viram suas despesas dispararem. É um custo altíssimo, com efeitos colaterais que já começam a aparecer”, diz Luan Aral, analista da Genial Investimentos.

Para o setor privado, a combinação de juros de 50% ao ano, energia mais cara e demanda reprimida criou um ambiente de sobrevivência. Muitas companhias estão apenas alongando os prazos de suas dívidas, sem investir. “Uma empresa quebrando pode arrastar fornecedores, bancos e clientes. É um risco de efeito dominó”, alerta Aral.

“Todo capital político do governo foi investido na inflação baixa. Se ela subir, o governo perde sustentação rapidamente”, Fabio Giambiagi, pesquisador associado do Ibre (Instituto Brasileiro de Economia) da FGV (Fundação Getúlio Vargas)

Ainda assim, o mercado acionário tenta antecipar um futuro melhor. O índice Merval disparou 174,46% em pesos argentinos em 2024 (em dólares foi de 114,91%), um rali que reflete tanto a fuga para ativos reais em um ambiente inflacionário quanto a expectativa de recuperação. Mas, como lembram os analistas, trata-se de um movimento de alto risco. Os títulos soberanos continuam classificados como junk bonds — títulos de alto rendimento, mas com elevado grau de risco — e a liquidez segue limitada.

Inflação controlada é vitrine

Milei construiu seu capital político bradando a promessa de reduzir a inflação. Nos primeiros meses, o discurso encontrou respaldo nos números. Em agosto, o IPC (Índice de Preço ao Consumidor) ficou em 4,2%, ligeiramente acima dos 4% do mês anterior, segundo aferição do Indec (Instituto Nacional de Estatística e Censo) da Argentina.

 Mas, como destaca Giambiagi, essa aposta é arriscada: “Todo capital político do governo foi investido na inflação baixa. Se ela subir, o governo perde sustentação rapidamente”, diz o economista, que passou parte da infância e juventude no país vizinho.

O desafio é que, em países como a Argentina (e o Brasil), as expectativas do mercado mudam rapidamente. Uma turbulência externa, atraso no pagamento ao FMI ou mesmo um salto inesperado no dólar podem reverter a trajetória de confiança. E é devido a isso que as eleições de outubro serão a prova de fogo para Milei. “O governo tenta segurar o câmbio até lá. É uma estratégia política, não apenas econômica”, afirma Giambiagi.  Segundo ele, muitos analistas subestimam os efeitos políticos no mercado.

Reuters/Mariana NedelcuJavier Milei, presidente da Argentina

Os números do FMI favorecem Milei. Ao menos por ora. A projeção do crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) argentino é de 5,5%, um dos mais altos entre as grandes economias. Para investidores com apetite a risco, o país oferece oportunidades de retorno muito acima da média, especialmente em ações e operações estruturadas em dólar.

No entanto, os fundamentos de longo prazo permanecem frágeis. A economia segue vulnerável a choques externos, o setor produtivo está sufocado e a dependência de crédito internacional é elevada. “É uma estabilização precária, que depende de fatores externos e não enfrenta os problemas estruturais do país”, avalia Feldmann. 

Questionado sobre a avaliação dada ao país, Giambiagi é mais crítico. “Os investidores escrevem sobre a Argentina, mas não colocam dinheiro efetivo e os títulos seguem classificados como junk bonds. Quantos milhões foram investidos na Argentina?”, questiona. Segundo o Banco Central Argentino, o investimento estrangeiro direto no país foi de US$ 611 milhões (R$ 3,3 bilhões).

Especialistas apontam que uma das saídas para a Argentina é, em algum momento, adotar um regime de câmbio flutuante — com menor intervenção, tal como ocorre no Brasil desde 1999. Porém, essa transição não é tranquila e pode provocar uma volatilidade ainda maior caso exista episódios de perda de confiança com relação ao plano do governo.

Em um evento realizado no final de agosto, Luis Caputo, ministro da economia da Argentina, disse que o governo Milei não irá retroceder no modelo de condução da economia.  Entre outras coisas, ele elencou que o país passou de um déficit fiscal de 5% e inflação mensal de 28% para superávit primário e uma inflação de 1,5%. Ainda segundo ele, a pobreza foi reduzida de 57% para cerca de 30%, tirando mais de 12 milhões de pessoas da vulnerabilidade econômica. Ele citou ainda, sem mencionar o aporte do FMI, que as reservas de dólares americanos foram duplicadas.

Mais do que os incontestáveis números, o que está em jogo, segundo os especialistas, é a capacidade de a Argentina recuperar credibilidade diante dos mercados globais, construir reservas reais e oferecer um horizonte de previsibilidade. Até lá, a volatilidade seguirá sendo a regra, e não a exceção.

A influência do calendário político

A nova cartada de Milei em relação ao câmbio é vista como uma resposta ante às diversas críticas que vem recebendo internamente, sobretudo da oposição. Buenos Aires terá eleições legislativas no próximo domingo (7), data em que a combalida popularidade de Milei será testada nas urnas. A prova de fogo, porém, virá em 26 de outubro, quando serão escolhidos metade dos assentos dos deputados e senadores do país.

Essa movimentação política também é observada de perto por analistas. O relatório do Itaú BBA, por exemplo, mantém a visão otimista sobre a Argentina em longo prazo, porém, cita também a cautela do mercado a curto prazo. Isso ocorre porque os investidores brasileiros estão avaliando o perfil de risco-retorno do país em comparação com outras oportunidades na América Latina.

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