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Como Brindar Ao Ano-Novo com Três Espumantes Italianos Ainda Pouco Conhecidos

As bebidas foram produzidas a partir do método clássico. Confira as opções sua festa

7 min

Pronto para um brinde? Então, desta vez, esqueça o Champagne. Quando o assunto são borbulhas obtidas pela segunda fermentação na garrafa, a Itália tem muitos recursos a oferecer. Confira aqui três exemplos, de três regiões diferentes.

Um espumante “feito na Europa”

No nordeste da Itália, na região de Friuli Venezia Giulia, existe uma área geográfica colinosa que se estende entre a Itália e a Eslovênia. De um lado e de outro, o microclima e o solo, uma mistura de marga e arenito conhecida localmente como ponca ou opoka, são idênticos.

Durante séculos, esse território cultivou uma cultura, um dialeto e uma tradição agrícola unificados. De forma trágica, a fronteira traçada ao fim da Segunda Guerra Mundial, em 1947, cortou essas colinas ao meio.

Vilarejos, campos e até edifícios e casas foram literalmente divididos, separando famílias inteiras entre duas nações recém-definidas. Cruzar de um lado para o outro exigia autorização especial. Soldados patrulhavam constantemente as novas fronteiras.

Felizmente, isso terminou em 2004, quando a divisão política foi superada e as fronteiras foram abolidas. Ainda assim, o trauma psicológico permaneceu. Para inspirar a população a virar a página e oferecer um sinal de esperança para um futuro compartilhado, dois amigos e enólogos de lados opostos dessa região decidiram criar um vinho juntos: “Sinefinis Rebolium Brut”.

Eles são Robert Princic, proprietário da vinícola Gradis’ciutta, no Collio italiano, e Matjaž Četrtič, proprietário da vinícola Ferdinand, em Brda, na Eslovênia. O nome do vinho significa “Ribolla Brut sem fronteiras”, em latim.

Trata-se de um espumante de método clássico elaborado a partir da uva Ribolla Gialla, variedade autóctone cultivada tanto no Collio quanto em Brda, onde é conhecida como Rumena Rebula.

E.TosiOs produtores de vinho Matjaž Četrtič (à esq.) and Robert Princic

Robert e Matjaž se conheceram em um programa de mestrado em Wine Business, em Trieste. Ao perceberem que suas vinícolas ficavam a poucos quilômetros de distância, decidiram produzir um vinho que desafiasse simbolicamente aquelas divisões históricas.

A parte mais difícil? “A burocracia”, lembram, sorrindo. Foram necessários meses para obter todas as autorizações exigidas pela Itália e pela Eslovênia, mas isso não os impediu. No fim, conseguiram produzir aquele que provavelmente é o primeiro espumante transfronteiriço da Europa.

Assim como a arte japonesa do kintsugi transforma cerâmicas quebradas em algo mais valioso por meio de reparos dourados, o espumante Sinefinis atua como um símbolo líquido de cura e união.

“O que fazemos todos os dias na viticultura e nas relações com as famílias italianas e eslovenas com quem compartilhamos os vinhedos é derrubar uma fronteira que nunca existiu de fato, exceto nos mapas”, dizem os dois amigos. “Acreditamos que o vinho, assim como a arte, pode ser uma ferramenta de diálogo.”

Na taça, o Sinefinis apresenta cor palha delicada e perlage muito fino e persistente. No nariz, surgem notas sutis de cítricos, como limão e grapefruit rosa, com toques de crosta de pão.

Com a abertura do vinho, aparecem nuances minerais. Em boca, a textura cremosa, a leve salinidade e o final limpo fazem dele uma excelente escolha para acompanhar uma refeição completa, e não apenas brindes festivos.

A chave do paraíso

V.FraccasciaVinhedos com uvas Chardonnay e Pinot Noir em Brentonico

Um vinho pode expressar ao mesmo tempo a aspereza e a beleza marcante de seu local de origem? Segundo Albino Armani, um dos mais renomados produtores italianos de Pinot Grigio, isso é possível. Sua família produz vinhos no Trentino desde 1607, e o próprio Albino nasceu aos pés do Monte Baldo.

Por isso, tem profunda ligação com as montanhas da região, magníficas, mas muitas vezes severas e até hostis. A esse ambiente ele dedicou um de seus vinhos mais representativos: o espumante de método clássico “Clè Trento DOC 2020 Dosaggio Zero”.

“Clè significa chave, em nosso idioma local”, explica Armani. “Esse é o nome do vinho porque acredito que ele seja a chave para entender a natureza e a paisagem do planalto de Brentonico, que para nós é como um paraíso.”

O vinho é elaborado com partes iguais de Pinot Nero e Chardonnay. Os vinhedos ficam em uma pequena área entre Crosano e Brentonico, nas encostas da Vallagarina, a altitudes entre 600 e 700 metros acima do nível do mar. O solo é basáltico, com rochas negras misturadas a uma parcela de calcário.

É um ambiente fascinante e, por vezes, inóspito, algo que o vinho reflete. Ele não é ostensivamente rico ou sedutor. É vertical, rigoroso, até cortante. Passa por um mínimo de 36 meses de amadurecimento sobre as borras. A cor é amarelo-claro brilhante, com perlage muito fino e persistente.

No nariz, aparecem notas de maçã, cítricos amarelos e flores brancas, com um toque sutil de crosta de pão e mel. Em boca, é tenso, quase crocante, com frescor vibrante e um final longo, salino e elegante. Um espumante bem indicado para apreciadores de vinho que também amam as montanhas.

Uma homenagem a três mártires

Tenute NicosiaEspumante Sosta Tre Santi

Por trás de muitos rótulos de vinho na Itália existe uma história pessoal, uma homenagem ou uma memória. Neste caso, trata-se de uma expressão da forte religiosidade do povo siciliano. Entre os vilarejos que circundam o Etna, há um chamado Trecastagni.

O nome não é o plural de “três castanheiras”, como muitos italianos supõem, mas uma contração linguística de “tre casti agni”, que significa “três cordeiros puros”, em referência a três mártires.

Eles eram Alfio, Cirino e Filadelfo, três jovens irmãos cristãos condenados à morte pelos governantes romanos por sua fé inabalável. Segundo a tradição local, durante o traslado de Vaste a Lentini, local de seu martírio, eles pararam ali para rezar.

Hoje, o culto aos três permanece entre os mais difundidos do leste da Sicília, e o próprio vilarejo de Trecastagni abriga um santuário e um museu de ex-votos dedicados a eles. É exatamente nesse vilarejo histórico que está localizada a Tenute Nicosia, uma das vinícolas mais apreciadas da região do Etna.

O vinho “Sosta Tre Santi Sessanta Mesi Etna DOC Brut Metodo Classico 2018” é uma homenagem direta a Trecastagni, lembrando a sosta, a parada, feita ali pelos três mártires. Fundada em 1898, a Tenute Nicosia é hoje administrada pelos irmãos Francesco e Graziano Nicosia, com a colaboração da enóloga Maria Carella.

O espumante é elaborado exclusivamente com uvas Nerello Mascalese, cultivadas em solos vulcânicos a altitudes entre 700 e 750 metros acima do nível do mar. Após 60 meses de amadurecimento sobre as borras, apresenta na taça cor amarelo-palha brilhante.

No nariz, surgem notas de ervas aromáticas, como sálvia, cítricos sicilianos e um leve toque de casca de limão. Em boca, é fresco, coerente com os aromas e bem equilibrado. Um vinho que fala da montanha Etna.

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