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Da Gravata ao Chapéu: O Bancário que Levou a Festa do Peão de Barretos Além do Rodeio

Saiba o que pensa Jerônimo Muzetti sobre a construção dessa festa, o que espera para 2026 e com o que ele sonha como legado

8 min

Durante 11 dias, o Parque do Peão recebe quase um milhão de visitantes, mantém cinco portarias abertas durante 24 horas, abriga até 20 mil pessoas em um camping e mobiliza uma força de trabalho da ordem de cinco mil profissionais. O evento movimentou cerca de R$ 600 milhões somente dentro o parque em 2025, arrecadou mais de R$ 8 milhões para o Hospital de Amor e abriu a venda de ingressos para a edição de 2026, entre 20 a 30 de agosto, com uma procura superior ao dobro da expectativa inicial. Por trás dessa estrutura está Jerônimo Muzetti, presidente da Associação Os Independentes, entidade responsável pela Festa do Peão de Barretos e que ao longo das últimas três décadas conduziu a profissionalização de um evento criado em 1956 por um grupo de jovens do interior paulista.

“Quando cheguei à presidência, percebi que a festa já não era mais de São Paulo. Ela havia se tornado nacional. Quem vinha uma vez precisava voltar no ano seguinte e encontrar alguma novidade”, diz ele. “A Festa do Peão cresce porque nunca acreditamos que ela estivesse pronta. Todo ano existe alguma coisa para melhorar.” Essa constatação mudou a forma de Muzetti administrar o parque. Os investimentos deixaram de acompanhar apenas a realização da festa e passaram a fazer parte da rotina da associação. Estradas de acesso foram ampliadas, novas áreas foram incorporadas ao recinto, camarotes e palcos ganharam novas dimensões e a infraestrutura passou a crescer antes mesmo que o público exigisse essa expansão. Muzetti contou essa história em detalhes ao podcast Forbes Cast, que pode ser acessado abaixo.

O método aplicado à Festa do Peão tem relação direta com a trajetória profissional de Muzetti. Antes de dedicar boa parte da vida à associação, ele trabalhou no Frigorífico Anglo, passou pelo Unibanco e atuou em empresas de engenharia. Quando fala sobre gestão, recorre com frequência ao período em que trabalhou no setor bancário. “Banco ensina disciplina. Você aprende que receita, despesa e investimento precisam caminhar juntos. Levei esse pensamento para Os Independentes.” A experiência foi aplicada primeiro na diretoria financeira e a partir de 1995 na presidência da entidade.

A ampliação do parque de Barretos ajuda a contar essa transformação. Quando assumiu seu primeiro mandato, a área ocupava cerca de 100 hectares. Vieram novas aquisições de terras, obras de infraestrutura e melhorias sucessivas até que o complexo alcançasse a configuração atual. Por exemplo, uma das primeiras decisões foi negociar com o poder público a duplicação da principal via de acesso ao recinto. O antigo congestionamento registrado no encerramento da festa dos 40 anos mostrou que o problema deixava de ser a capacidade da arena e passava a ser a capacidade de a cidade receber quem chegava.

“Nunca compramos terra pensando na festa daquele ano. Sempre pensamos na festa que aconteceria dez anos depois.” A lógica permanece. Mesmo durante o período em que o parque fica fechado ao público, máquinas, equipes de manutenção e fornecedores trabalham em reformas, pintura, drenagem, redes elétricas, pavimentação e novos projetos. Segundo Muzetti, o visitante precisa perceber que algo mudou, ainda que seja um detalhe. “Quem volta tem de sentir que a festa evoluiu.”

Alisson_DemetrioA arena dos grandes shows da festa do peão

Uma festa que cresce ano a ano

Essa estratégia levou Barretos a disputar artistas, patrocinadores e fornecedores com os maiores festivais do país. Em 2025, a programação reuniu cerca de 130 shows distribuídos em cinco palcos, cerca de 200 atrações culturais, nove modalidades esportivas e mais de 3,5 mil competidores. A arena continua sendo o centro da festa, mas o público circula por diferentes ambientes durante praticamente todo o dia. Enquanto um show termina no Palco Estádio, outro começa no Palco Amanhecer.

Neste ano, apenas esse dois palcos vão receber 40 apresentações musicais, entre sertanejo, forró, pagode e música eletrônica O camping recebe atrações próprias, o trio elétrico percorre o parque e a programação cultural ocupa espaços destinados às tradições sertanejas. Entre eles Gustavo Lima, Ana Castela, Wesley Safadão, Nattan, Alok, Matheus & Kauan, Chitãozinho & Xororó, Zezé Di Camargo & Luciano, Bruno & Marrone, Gustavo Mioto, Simone Mendes, Alexandre Pires, César Menotti & Fabiano, Leonardo, Michel Teló, Edson & Hudson, Matogrosso & Mathias, Pixote, Turma do Pagode e Trio Parada Dura.

A programação mantém ainda a Queima do Alho, o Palco Culturando, concursos de berrante, apresentações de catira, desfiles de cavaleiros e carros de boi, tradições que acompanham Barretos desde as primeiras edições, além das competições esportivas que fazem de Barretos a principal etapa do circuito nacional de rodeio. “A festa não pode depender apenas do show principal da noite. A pessoa precisa acordar e encontrar programação até a hora de dormir.”

Thais_MinistroAna Castela foi a Embaixadora em 2025; neste ano será Gustavo Lima

Foi esse raciocínio que levou a associação a transformar o camping em um espaço de entretenimento, com atrações durante todo o dia, e a distribuir atividades por diferentes setores do parque. O objetivo é aumentar o tempo de permanência dos visitantes, atualmente estimado em cinco dias, e reduzir a concentração de público em um único ponto.

A logística acompanha essa dimensão. Durante o evento são emitidas cerca de 12 mil credenciais, 600 seguranças privados trabalham em conjunto com aproximadamente 400 policiais por dia e uma reunião realizada todas as manhãs reúne responsáveis por cada área da operação. O encontro não dura mais do que o necessário para levantar problemas registrados na noite anterior e definir providências antes da abertura dos portões.

Muzetti lembra de uma edição em que um vendaval atingiu o parque na terça-feira, dois dias antes da abertura. Parte das estruturas já montadas foi derrubada e o cronograma precisou ser refeito. Equipes trabalharam dia e noite para reconstruir camarotes, coberturas e áreas de circulação antes da quinta-feira. “Quem chega para a abertura não pode saber o que aconteceu dois dias antes. O compromisso é entregar a festa pronta”, afirma.

Um embaixador e um rodeio

A presença de Gusttavo Lima como Embaixador da Festa em 2026 reforça essa estratégia. Será a terceira vez que o cantor assume o posto, depois das edições de 2017 e 2018. A relação dele com Barretos começou em 2009, quando ainda dava os primeiros passos na carreira. Desde então, tornou-se um dos artistas mais associados ao evento. Para este ano estão previstos dois shows, um em cada sábado da programação. “Barretos faz parte da minha história e eu faço parte da história de Barretos”, afirmou o cantor durante o lançamento da festa.

Alisson DemetrioMuzetti diz que o conjunto peão-rodeio segue como a alma da programação

Embora os shows concentrem grande parte da atenção do público, Muzetti faz questão de lembrar que o rodeio continua sendo a razão de existir do evento. A arena reúne competições nacionais e internacionais, distribuídas entre nove modalidades, com premiação superior a R$ 1,5 milhão.

“Se um dia o rodeio deixar de ser protagonista, a festa perde sua identidade.”

Para Muzetti, o rodeio segue como a alma da programação, por reunir em um único evento, os principais campeonatos da modalidade. O primeiro fim de semana recebe a Final da PBR (Professional Bull Riders), principal liga de montarias em touros dos Estados Unidos. Na sequência, entram as finais da Liga Nacional de Rodeio e da Confederação Nacional de Rodeio, que classificam seus melhores atletas para o Rodeio Internacional de Barretos. A arena também volta a receber competidores brasileiros que atuam no circuito norte-americano e nomes dos Estados Unidos. Entre eles está o tricampeão mundial da PBR, José Vitor Leme. “A gente sempre vai buscar os melhores competidores para entregar o melhor espetáculo. Não adianta ter os melhores atletas do país e não levá-los para Barretos. É isso que faz a diferença da nossa festa em relação aos outros eventos, inclusive fora do Brasil”, afirma Muzetti.

A associação também mantém uma característica que motivou sua criação lá 1955: ela também é beneficente. Formada por um grupo de jovens de Barretos, Os Independentes organizou a primeira Festa do Peão para arrecadar recursos destinados a instituições assistenciais do município. Quase sete décadas depois, essa finalidade permanece. No ano passado, além dos cerca de R$ 8 milhões que foram destinados ao Hospital de Amor, a Noite Beneficente com Frei Gilson arrecadou 30 toneladas de alimentos e o projeto Universo Eco recolheu 20 toneladas de alumínio para reciclagem. “O entretenimento sustenta o evento, mas a razão de existir da associação continua sendo devolver esses recursos para a comunidade”, afirma Muzetti. “E neste ano não será diferente”.

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