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Adriano Moraes Virou Lenda em Cima de Touros e Agora Quer Transformá-los em um Negócio Bilionário

Conheça o PBR Brasil, circuito que completa 20 anos, encerra temporada na Festa do Peão de Barretos com mais de R$ 700 mil em prêmios e tenta ampliar presença entre grandes patrocinadores

8 min



Um garoto de 19 anos, Gabriel Henrique da Silva, nascido em Lagoa Formosa, cidadezinha de 18 mil habitantes no Triângulo Mineiro, foi a grande sensação da Festa do Peão de Barretos, no interior paulista, na monta de touros. Terminou a final invicto na noite deste domingo (23), pontuando em todas as rodadas que ocorreram no país. Em Barretos, ele fez 89,25 pontos montando o touro Alucinante, da Companhia Washington Scatolin, ganhou R$ 100 mil, a fivela da etapa e também foi anunciado como a Revelação da Temporada. A escala vai até 100 pontos dividida igualmente entre o competidor e o animal, em uma prova na qual o peão precisa permanecer por exatos 8 segundos em cima de um touro para que a montaria seja considerada válida e receba nota de um grupo de juízes.


Por trás de fenômenos como Gabriel está o campeão de rodeio, Adriano de Moraes, que por três vezes foi o melhor do mundo. Aos 57 anos e fora do lombo de um touro, ele hoje alimenta esse mercado. Moraes é a figura pública no Brasil e presidente do Professional Bull Riders (PBR Brasil), e se há algo difícil nos três dias de competição em Barretos é conseguir um espaço em sua agenda. Em geral, suas entrevistas são curtas e corridas.


Mas à Forbes Agro, no sábado, antes de sair correndo para a etapa do dia das montarias, ele falou por cerca de uma hora sobre esse universo que é sua paixão e que virou missão, mas que também é um negócio milionário. Moraes recebeu a Forbes Agro em um dos ranchos que ficam ao lado do Estádio Polivalente de Rodeios – chamada de arena para os habitués -, complexo projetado como uma ferradura pelo arquiteto Oscar Niemeyer e que nas competições recebe uma média de 60 mil espectadores por dia.


“O PBR é um esporte que pode mudar a vida de jovens do campo. É um sonho, uma conquista e um caminho de ascensão social”, diz Moraes. Um campeão chega a ganhar R$ 1 milhão em uma única temporada, sem contar a possibilidade de publicidades.


No Brasil, a PBR completa 20 anos em 2026 com 42 etapas na temporada, realizadas principalmente em Estados com tradição pecuária e de rodeios, como São Paulo, Paraná, Minas Gerais, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás
. “Mas começamos lá atrás com seis etapas”, diz Moraes. O PBR Grand Rodeo de Sorriso (MT), por exemplo, que ocorreu de 23 e 26 de julho, distribuiu R$ 500 mil em uma única etapa regular, recorde da história da PBR no Brasil. O vencedor levou R$ 250 mil, valor maior que Barretos.

Rodolfo Lesse_PBRGabriel Henrique da Silva, o peão revelação do circuito 2025/26


Para Moraes, entender esses competidores passa por enxergar de onde muitos deles vêm. São jovens nasceram e vivem em pequenas cidades, quase sempre distantes dos grandes centros esportivos. Foi assim com ele, que é de Cachoeira Paulista, no interior de São Paulo, de uma família de poucos recursos. “Minha família não tinha dinheiro, eu nunca seria esportista de algo como futebol ou esgrima”, diz ele. Moraes começou a competir profissionalmente em 1988 e chegou aos Estados Unidos no início da década seguinte. Em 1994, tornou-se o primeiro campeão mundial da PBR, liga criada dois anos antes por 20 montadores americanos. Voltaria a vencer em 2001 e 2006.


O dinheiro acompanhou os títulos, como ocorreu na temporada de 2006, quando Moraes recebeu US$ 1,36 milhão em premiações e encerrou aquele campeonato com ganhos acumulados superiores a US$ 3,3 milhões na PBR. Quando deixou as arenas, em 2008, ele havia construído uma trajetória que ajudou a abrir o mercado americano para uma sequência de brasileiros, entre eles Silvano Alves, José Vitor Leme, também tricampeões em etapas seguintes.


“A montaria muda a vida dos peões, sim. Mas queremos mais. A montaria em touros é um esporte radical, empolgante e queremos que as grandes empresas enxerguem esses atletas de alta performance, como veem os de um time de futebol”, afirma Moraes.

Sua empresa hoje está em um movimento para levar a modalidade para fora das arenas e colocar o produto diante de uma audiência esportiva nacional, que é no que ele acredita para os próximos anos.


A passagem de atleta a dirigente ocorreu enquanto esse mercado começava a ganhar estrutura no país. Moraes participou da aproximação entre Barretos e os competidores estrangeiros ainda em 1993, quando ele e Flávia Moraes, que é sua mulher, tornou-se a CEO da PBR e é o cérebro administrativo por trás da estrutura, que em Barretos envolve cerca de 180 pessoas. “Sem a Flávia no comando nós não teríamos chegado aqui”, diz ele. Naquela época, o casal viabilizou a presença de cinco atletas de fora do país no primeiro Barretos International Rodeo. Alguns deles haviam acabado de participar da criação da PBR nos Estados Unidos. Em Barretos, as primeiras competições internacionais da entidade ocorreram em 1997 e 1998. Moraes conta que em 2006, finalmente o campeonato brasileiro foi iniciado.

VeraOndeiAbertura da etapa PBR Brasil da Festa do Peão


Vinte anos depois, a operação brasileira integra uma organização esportiva presente em diferentes mercados e desde o ano passado pertence à TKO Group Holdings, companhia que reúne ativos como UFC e WWE. A aquisição da PBR, da IMG e da On Location foi concluída em uma transação estimada em US$ 3,25 bilhões. O modelo de negócios da controladora está baseado em direitos de mídia, eventos ao vivo, venda de ingressos, experiências, patrocínios e parcerias com marcas.


Para a PBR Brasil, entrar nessa disputa significa deixar de depender da leitura de que a montaria é apenas uma atração das festas de peão. O circuito quer ser vendido como esporte profissional, com atletas, ranking, calendário, transmissão, audiência, propriedades comerciais e acesso a uma liga internacional.

A estrutura já existe. O que Moraes pretende ampliar agora é o número de empresas dispostas a colocar dinheiro nela. A montaria em animais é um mercado estimado em R$ 10 bilhões por ano, o que inclui, além dos touros, a montaria em cavalos em oito modalidades, entre elas laço, tambor, bareback, saddle bronc, bulldogging e cutiano.

Do Brasil para o mundo


O calendário brasileiro do PBR funciona também como porta de entrada para o circuito internacional: os pontos conquistados nas arenas nacionais contam para o ranking brasileiro e o mundial. João Paulo Velasco se tornou o atual campeão nacional da PBR Brasil, confirmando o favoritismo do peão de Paranaíta (MT), após permanecer por oito segundos sobre o touro Mickey Mouse, da Companhia Califórnia.

PBR_DivulgAnimais atletas podem valer na casa do milhão de reais

“Era um sonho ser campeão da PBR. Tive momentos difíceis na temporada, mas nunca deixei de acreditar”, diz ele, que de Barretos levou para casa um camionete e R$ 200 mil, um total avaliado em R$ 500 mil. Em 21 etapas desta temporada, João Paulo conquistou prêmios que renderam um total de R$ 890 mil em prêmios. Contratado pelo Kansas City Outlaws, um dos times da Liga de Montaria por Equipes da PBR, ele está de malas prontas para os Estados Unidos.


Mas o dinheiro não está apenas na mão do competidor. Ao redor dos oito segundos de cada montaria funciona uma cadeia formada por criadores e proprietários de touros, empresas de genética e nutrição animal, veterinários, equipes técnicas, produtores de eventos, mídia e patrocinadores. Os próprios touros entram em rankings e disputas ao longo do campeonato, criando valor para animais selecionados para desempenho nas arenas.


É justamente nessa estrutura que Moraes vê o próximo desafio. “É preciso tornar a montaria em touros um complexo de negócios abrangente, ir além de onde estamos e há potencial para isso”, afirma. No caso dos touros, que também são avaliados, o título ficou pela segunda vez com Mandrake Jr, que pertence à Companhia de Rodeio Paulo Emílio, de São José do Rio Preto (SP). O animal, que é avaliado no mercado por R$ 1 milhão, recebeu em Barretos um bônus de R$ 100 mil. “Um touro que pula, que é treinado para interagir naqueles 8 segundos vale muito”, diz Moraes.


Procurar por animais é uma tarefa, porque a aptidão para o pulo é rara, embora ela tenha um componente hereditário. “Buscamos sempre cruzar um touro pulador com a mãe de outro touro pulador”, diz ele. “O Brasil tem muitas linhagens desses animais, mas ainda não chegamos no nível do mercado dos EUA.” Isso porque não basta pegar um bovino forte, bem alimentado e treiná-lo. A própria PBR Brasil afirma que não há como “fazer” um touro pular e estima que, em um rebanho comum de 100 animais, apenas cerca de 4% apresentem aptidão para o esporte. “Hoje, estamos trabalhando para que o peso dessas linhagens de animais que saltam venha para baixo”, afirma Moraes. “Assim, esses animais atletas podem ser ainda mais ágeis”. Não há uma regra, mas um touro pode pesar 900 quilos, 1.000 quilos. Para Moraes, entre 700 a 800 quilos é uma boa medida na seleção para o atletismo.

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