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Helen Jacintho: Entenda a Renegociação de Dívidas do Produtor Rural

Por que a dívida do setor rural é tema que precisa de solução para um setor que integra o arcabouço da segurança alimentar do país

5 min

Em recente encontro com um amigo de fora do setor do agronegócio, a conversa foi assim: “Helen, vi no jornal que vão perdoar as dívidas do agro. Baita injustiça!” Ele mencionou os valores do Plano Safra que foi anunciado. “A gente é quem sustenta o agro, vocês vivem de subsídio”, ele falou, questionando.

Abro esta coluna, trazendo esta percepção sem filtro da sociedade sobre como funciona o financiamento no setor do agronegócio. Este comentário serve de alerta, nos mostra a profunda desconexão das pessoas com o atual momento vivido no setor, que é hoje o mais importante na economia brasileira.

Mas você pode estar se perguntando: o que está acontecendo então?

Vamos por partes: Perdão das Dividas. O que foi aprovado na medida provisória MP 1.376/2026 foram mecanismos para a renegociação de dívidas para produtores que enfrentam dificuldades financeiras, prejudicados por eventos climáticos extremos e oscilações drásticas nos preços agrícolas.

De acordo com o Ministério da Fazenda, a MP prevê a renegociação de ao redor de R$ 100 bilhões em dívidas de produtores rurais afetados. A renegociação prevê prazo de 8 a 10 anos com juros de 12% para todos os produtores, 9% para o Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor Rural (Pronamp) e 6% para o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf). Ou seja, a dívida tem prazo, juros e carência; não existe perdão de dívida.

Existem regras bastante rigorosas. A renegociação é elegível para produtores que tiveram perdas em duas ou mais safras, redução mínima de 30% da renda bruta, causada por eventos climáticos, como as enchentes do Rio Grande do Sul, por exemplo, ou queda drástica dos preços agrícolas.

Esta renegociação atende aos produtores, que terão possibilidade de organizar as contas e planejar as próximas safras, mas atende mais às instituições. Cabe às instituições financeiras decidir quem terá acesso às novas condições. E, como eu respondi para o meu amigo: “Quando foi que você viu banco perdoar dívida de alguém? Eu nunca vi!”

O agronegócio é uma indústria a céu aberto. Os produtores, mesmo quando fazem tudo certo, dependem do clima. Mas é obrigação da sociedade financiar o agro? Não, não é. É um plano de estado, chama-se Segurança Alimentar. País nenhum quer depender de outro país para alimentar a sua população.


Segundo a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), o PSE (indicador que mede o apoio ao produtor) do Brasil caiu de 7,6% da receita bruta agrícola em 2000-02 para 5,4% em 2022-24. Este valor está abaixo da média de todos os países, que é 12,5%, e também das economias emergentes, que é de 6,8%. À título de comparação, a União Europeia é 16,4%, a China, 13,3%, e os Estados Unidos, 7%. Países como Suíça, Islândia, Noruega e Coreia têm apoio ao produtor entre 40% e 49% da receita bruta.

Grandes países produtores concorrentes do Brasil tratam a agropecuária como segurança nacional

Vamos ao Plano Safra. Os números impressionam, mas, como esclarecemos anteriormente, o que sai diretamente do Tesouro é utilizado para a equalização de juros. No ano de 2025, o total de subvenção para equalização foi de aproximadamente 2,2% do total do Plano Safra.


Do total de R$ 113,4 bilhões programados em recursos equalizáveis no Plano Safra 2025/26, foram concedidos até fevereiro de 2026 R$ 44,1 bilhões, o equivalente a 39% do total programado, restando 61% disponíveis. O dinheiro está disponível, mas não quer dizer que seja acessível. Mesmo com juros mais baixos do que o mercado, a taxa Selic elevada torna até mesmo o crédito equalizado caro para o produtor rural brasileiro. O que fica escancarado é como o produtor nacional é menos apoiado que seus concorrentes, que não consegue obter crédito e só renegocia dívidas quando a perda foi muito severa.

Apesar da crise profunda, o agronegócio ainda respondeu por 25,13% do PIB brasileiro, 49% das exportações e 28,4 milhões de empregos, segundo dados do Cepea/Esalq-USP e da CNA. Quando o produtor “quebra”, não quebra só ele: quebra o fornecedor de insumo, a transportadora, a cooperativa, o comércio local e a própria arrecadação que sustenta o serviço público. Estamos todos juntos na batalha pelo sucesso da economia do Brasil. Não somos nós contra eles, somos todos em prol de um país melhor.

*Helen Jacintho é engenheira de alimentos e produtora rural com mais de 25 anos de atuação no agronegócio brasileiro. Integra o Grupo Continental, produtora rural com mais de 25 anos de atuação no agronegócio brasileiro. Integra o Grupo Continental, empresa familiar com operações em cana-de-açúcar, seringueira, soja, milho e pecuária a pasto, confinamento e semiconfinamento. Diretora de Melhoria Contínua, lidera a implementação da filosofia Lean de gestão no campo. Estudou Business for Entrepreneurs na Entrepreneurs na Universidade do Colorado e marketing e carreira no agronegócio. É juíza de morfologia pela ABCZ, fundadora do Grupo Forbes Mulher Agro, conselheira do COSAG/FIESP e reconhecida entre os 100 Mais Influentes do Agronegócio em 2025.

Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião de Forbes Brasil e de seus editores.

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