Fui convidada recentemente para um jantar da Bloomberg Opinion que tratava das perspectivas para o novo governo, entre outros assuntos. O jantar, a portas fechadas, adotou a Chatham House Rule, regra que visa estimular a discussão, preservando os participantes. Portanto, não trarei aqui o conteúdo do jantar, mas sim as minhas reflexões ao me preparar para ele. Consultei várias lideranças e me peguei refletindo sobre quais são as principais demandas do agronegócio brasileiro para o novo governo.
Obviamente que as eleições importam, mas que o agronegócio brasileiro é maior que os ciclos eleitorais. Não digo isto com ufanismo, mas sim com pragmatismo; os governos mudam, mas a posição do Brasil como um dos maiores produtores e exportadores de alimentos, fibras e energia continua. As exportações do agronegócio brasileiro somaram US$ 169,2 bilhões em 2025, 48,5% de tudo o que o Brasil vendeu ao exterior (MAPA/Agrostat), e o setor respondeu por cerca de 25% do PIB (Cepea/CNA).O agronegócio continua sendo a locomotiva da economia nacional.
Não saímos de um país importador de alimentos básicos na década de 1970 para um dos maiores produtores e exportadores do mundo sem visão estratégica. Para continuar a sua trajetória de crescimento, o setor precisa de um plano de Estado, não um plano para este ou aquele governo.
O agronegócio precisa de previsibilidade. Quando o mais importante setor da economia não encontra um ambiente de negócios seguro, os empresários deixam de investir em novos projetos, principalmente em projetos a longo prazo. Quando o setor para de investir, a economia encolhe e o país todo sente. Vivemos uma crise fiscal, monetária, juros de 2 dígitos, crédito mais restrito e margens apertadas.
Diante deste quadro, você pode estar se perguntando, quais são, então, as principais demandas do agronegócio ao governo em 2027? Destaco algumas levantadas por várias lideranças, empresários e entidades do agronegócio nacional.
Estabilidade institucional. A estabilidade institucional garante a previsibilidade jurídica e econômica para investimentos a longo prazo. Tania Zanella, presidente do IPA e da OCB (Summit Agroconsult 2026): as 66 propostas para a política agrícola ficarão à disposição do próximo governo, “seja ele qual for”.
A estabilidade institucional importa para o agro, pois engloba segurança jurídica e direito à propriedade. Os empresários precisam de uma taxa de juros mais baixa, mas poucos pontuam que ela está intrinsecamente conectada com a instabilidade institucional, pois é o risco-país que torna os juros mais caros.
Responsabilidade fiscal: A dívida bruta chegou a 82,9% do PIB em agosto, a maior desde 2021 (Banco Central), e a IFI projeta déficit de R$ 86,1 bilhões em 2027, contra o superávit previsto pelo governo.
Acesso a crédito e seguro rural acessíveis. O aumento de produtores que contratam seguro rural trará mais segurança para investir, reduzindo a taxa de financiamento. Recentemente foi publicada a lei 15.526/2026, que será novo marco regulatório para o seguro rural. Ela determina que as despesas com a subvenção ao prêmio do seguro rural tenham caráter obrigatório. Evitando o contingenciamento de recursos e blindando o orçamento.
Infraestrutura e conectividade, obras em rodovias, ferrovias e hidrovias (como Ferrogrão, Transnordestina e Hidrovia do Tapajós) para reduzir o Custo Brasil no transporte de grãos e commodities.
Acordos comerciais, é preciso voltar à lista sanitária europeia, sem a qual as cotas de carne do acordo não têm uso para o Brasil. Definir a divisão das cotas entre os quatro países do Mercosul, que ainda não foi acordada.Negociar com a China a ampliação ou redistribuição da cota de carne. O governo atual já anunciou a proposta de absorver cotas que outros países não usarem. Negociar com os EUA. O governo atual retirou o etanol da mesa, argumentando que o açúcar brasileiro paga sobretaxa de quase 100% no mercado americano.
Produção de fertilizantes, cerca de 88% dos fertilizantes são importados, de acordo com a ANDA (Associação Nacional para Difusão de Adubos). Segundo Mauro Osaki, pesquisador do Cepea/Esalq-USP. Com investimentos pesados ao longo de 6 a 8 anos, o Brasil poderia ser quase autossuficiente em nitrogenados, produzir quase todo o fosfatado e boa parte do potássio de que precisa.
O Brasil ainda é um grande “fazendão”; temos muito a crescer em armazenagem, logística, conectividade, produção de máquinas, insumos e indústria local de processamento. Mas o setor está entre a cruz e a espada; a Selic elevada coloca pressão no empréstimo. A moeda fraca ajuda a exportação, mas aumenta o custo dos insumos. Se ficar, o bicho come; se correr, o bicho pega.
A regra de Chatham House protege nas reuniões, mas o produtor não tem proteção, está sujeito a mudanças climáticas, guerras, câmbio, juros, acordos comerciais e à boa vontade de Brasília. O produtor que plantou em setembro sem saber quem irá governar na colheita. Para o produtor, a conta desta safra não chega na troca de governo, mas sim em 30/04, quando vence a maior parte do custeio. O agro continua sendo a locomotiva da economia nacional, mas a locomotiva segue os trilhos que são assentados em Brasília; com trilhos tortos, até o motor mais potente descarrila.
*Helen Jacintho é engenheira de alimentos e produtora rural com mais de 25 anos de atuação no agronegócio brasileiro. Integra o Grupo Continental, produtora rural com mais de 25 anos de atuação no agronegócio brasileiro. Integra o Grupo Continental, empresa familiar com operações em cana-de-açúcar, seringueira, soja, milho e pecuária a pasto, confinamento e semiconfinamento. Diretora de Melhoria Contínua, lidera a implementação da filosofia Lean de gestão no campo. Estudou Business for Entrepreneurs na Entrepreneurs na Universidade do Colorado e marketing e carreira no agronegócio. É juíza de morfologia pela ABCZ, fundadora do Grupo Forbes Mulher Agro, conselheira do COSAG/FIESP e reconhecida entre os 100 Mais Influentes do Agronegócio em 2025.
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