As maiores notas da edição de 2025 do concurso Florada Premiada ficaram com três mulheres de trajetórias distintas, mas unidas pelo mesmo objetivo: produzir cafés especiais de alta qualidade. Amanda Evaristo Lacerda, do Caparaó Mineiro (MG), alcançou 94,33 pontos, a maior pontuação desde a criação da premiação, em 2018. Ângela Maria da Costa Oliveira, das Matas de Minas (MG), obteve 91,43 pontos. Em Rondônia, Ângela Maria Coutinho Pessoa conquistou 90,80 pontos. Mais do que um resultado em um concurso, as três histórias refletem uma mudança na cafeicultura brasileira, em que produtoras passaram a ocupar posições de liderança em uma atividade historicamente associada aos homens.
As trajetórias dessas mulheres nasceram em regiões produtoras diferentes, envolveram realidades distintas e seguiram caminhos próprios. Em comum, elas mostram que o avanço dos cafés especiais no Brasil passa cada vez mais pelas decisões tomadas por mulheres dentro das propriedades, da condução da lavoura ao pós-colheita, etapa que define a qualidade da bebida que chega à xícara.
“Quando você chega em alguns lugares e está todo mundo conversando sobre café, você começa a querer conversar também, mas sente que as pessoas estão te menosprezando, dando a entender que você não sabe nada, por ser mulher. Mas é muito legal poder mostrar isso: chegar numa rodinha com vários homens, entrar na conversa e eles verem que você sabe tanto quanto eles”, afirma Amanda Lacerda.
A cafeicultura sempre contou com ampla participação feminina, principalmente nas etapas de colheita, seleção e pós-colheita. O reconhecimento desse trabalho, entretanto, nem sempre acompanhou sua importância para a qualidade final do produto. Nos cafés especiais, justamente o manejo após a colheita define boa parte das características sensoriais da bebida. A fermentação, a secagem e o armazenamento podem elevar ou comprometer a qualidade de um lote.
Amanda conhece esse processo desde criança. Ela representa a quarta geração de uma família dedicada à cafeicultura no Caparaó Mineiro e a terceira trabalhando com cafés especiais. Cresceu vendo a mãe assumir responsabilidades na lavoura e recebeu do pai incentivo para permanecer na atividade, situação que considera pouco comum no setor. Depois de concluir o curso de Tecnologia em Cafeicultura no Instituto Federal de Alegre, voltou à propriedade com formação técnica voltada ao aprimoramento da produção.
Para ela, o maior desafio continua sendo conquistar espaço em um ambiente onde muitas decisões ainda são tomadas por homens. “A gente não tem a visibilidade que merece no campo. Trabalha tanto quanto os homens. Na maioria das propriedades, quem faz o pós-colheita são as mulheres, e a gente sabe que essa é a etapa decisiva para um café especial”, diz.
A conquista da maior nota da história do Florada aconteceu em um momento marcante da vida da produtora. A confirmação do resultado chegou menos de duas semanas antes do nascimento de seu primeiro filho. O prêmio recebido foi investido diretamente na fazenda, com melhorias no terreiro, na estufa e no secador. Outro efeito da premiação apareceu depois da divulgação do resultado. “Recebi vários e-mails de mulheres de todo o Brasil querendo saber mais da minha história, por inspiração. O tanto de gente que veio até o sítio só por conta do Florada foi surreal.”
Criado em 2018 pela Rituais Cafés Especiais, marca do Grupo Três Corações, o Florada Premiada seleciona cafés produzidos exclusivamente por mulheres com base em critérios técnicos de qualidade. Os lotes vencedores passam a integrar uma linha comercial da empresa, enquanto parte dos recursos retorna às produtoras. Paralelamente, o projeto mantém uma plataforma de capacitação com mais de 80 videoaulas, desenvolvida em parceria com a Rehagro, além de promover viagens técnicas internacionais para as vencedoras. Segundo a empresa, mais de R$ 1 milhão já foi destinado diretamente às cafeicultoras, com mais de 7 mil inscrições acumuladas e cerca de 330 toneladas de microlotes comercializados desde a criação da iniciativa.
Das Matas de Minas para um mercado premium
Nas Matas de Minas, a trajetória de Ângela Maria da Costa Oliveira foi construída ao longo de três edições do concurso. Em 2023 terminou em sexto lugar. No ano seguinte ficou entre as cem melhores produtoras. Em 2025 alcançou a primeira colocação da região. Aos 38 anos, divide a rotina entre os trabalhos da casa e a produção de café ao lado do marido e dos cunhados, assumindo diretamente a colheita e o manejo do terreiro.
“Geralmente as mulheres ficam só nos bastidores. Quando surgiu o concurso com as mulheres à frente, foi aquele sonho: um dia a gente vai ganhar também, ser valorizada, ser reconhecida”, afirma.
A experiência ultrapassou o reconhecimento da qualidade do café. Como parte da premiação, Ângela participou de uma viagem internacional de capacitação. Foi sua primeira viagem de avião e também a primeira vez fora do Brasil. “A gente via o café só pelo valor do dinheiro. Agora vê pelo sabor, pelo jeito das pessoas tomarem o seu café. É diferente.” Segundo ela, ampliar a presença feminina depende de iniciativas voltadas às produtoras. “Faltam mais projetos como o Florada. É o único que conheço que apoia as produtoras dessa forma, da pequena até as maiores.”
A história de Ângela Maria Coutinho Pessoa começou longe dos concursos. Em 2018, ela deixou o serviço público para investir, ao lado do marido, em uma área herdada pela família em Rondônia. Trancou a faculdade, plantou 2.400 pés de café e fez a primeira colheita sem conhecer o mercado de cafés especiais. A mudança ocorreu em 2021, quando passou a buscar informações técnicas, participou de grupos de produtores e procurou especialistas para entender processos de fermentação, secagem e classificação.
Os resultados vieram rapidamente. Em 2022 ficou em quinto lugar no Florada. Três anos depois alcançou o topo da competição regional. Na véspera da premiação, resumiu o significado daquela trajetória. “Eu queria ser produtora de café especial. Acho que agora eu sou.”
Para a produtora, o café trouxe uma perspectiva profissional que não encontrava na carreira anterior. “Antes era aquela rotina, você não via muito sentido naquilo. Hoje me sinto realizada. O café é incrível, porque você pode estar sempre se aperfeiçoando, descobrindo possibilidades que nem imaginava que existiam.” Sua produção integra um movimento que tem colocado Rondônia entre os destaques nacionais na produção de cafés canéfora especiais, segmento que ampliou presença em concursos e mercados de maior valor agregado.