Uma reportagem do Financial Times, amplamente repercutida por veículos nacionais e internacionais, deu visibilidade a um tema para o qual o setor produtivo vem chamando a atenção há tempos: o Brasil está muito próximo de se consolidar como o maior exportador agrícola do planeta. A diferença na receita exportada, que já foi de US$ 56 bilhões a favor dos norte-americanos, caiu para pouco mais de US$ 2 bilhões em 2025. No primeiro semestre de 2026, o agronegócio brasileiro registrou o recorde histórico de US$ 87 bilhões em embarques.
O resultado garantiu uma alta de 6% nas exportações, impulsionada por produtos como soja, carne bovina, frango, café e algodão. No caso da fibra natural, o desempenho é ainda mais expressivo: o Brasil alcançou a liderança global das exportações no ciclo 2023/2024 e segue trabalhando para consolidar essa posição, tendo registrado crescimento superior a 24% nos volumes containerizados no último ano. Esse desempenho evidencia a capacidade de investimento, adaptação e inovação dos produtores, que, mesmo diante de desafios estruturais e operacionais, integram um setor responsável por gerar quase 24% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional e cerca de um terço da economia baiana.
É uma notícia que merece ser celebrada. Ao mesmo tempo, ela convida a uma reflexão importante: até onde poderíamos chegar se contássemos com um ambiente de negócios ainda mais favorável, com infraestrutura compatível e maior previsibilidade para competir em igualdade de condições no mercado internacional?
O avanço brasileiro no cenário geopolítico
Nos últimos anos, expressivos investimentos privados foram realizados para assegurar competitividade em um cenário de profundas transformações no comércio global. A disputa comercial entre Estados Unidos e China contribuiu para redirecionar parte dos fluxos internacionais de comércio, ampliando oportunidades para o agronegócio brasileiro. Em 2025, a China adquiriu mais de 80 milhões de toneladas de soja brasileira, contra menos de 10 milhões de toneladas vindas dos Estados Unidos. No algodão, observou-se movimento semelhante, reforçando a presença brasileira em mercados estratégicos.
No ambiente doméstico, enquanto a área plantada de algodão recuou cerca de 8% na safra 2025/2026 no consolidado nacional, o Oeste baiano caminhou na direção contrária e cresceu 1,2% em área (atingindo 417,8 mil hectares), projetando uma expansão de aproximadamente 10% na produção, alcançando 925,2 mil toneladas de pluma. Em um ciclo de retração nacional da cotonicultura, a nossa região contribuiu de forma decisiva para sustentar os resultados do país, graças ao adensamento tecnológico, à elevada produtividade (2.214 kg/ha) e à expansão da irrigação, que já se aproxima de 50% da área cultivada no estado.
Essa produção já escoa majoritariamente para o mercado asiático, o que demonstra o posicionamento estratégico da região para atender à demanda internacional. Ao mesmo tempo, evidencia como o desempenho do setor está inserido em um ambiente global sujeito a constantes transformações geopolíticas e comerciais. Compreender esse contexto reforça a importância de consolidarmos essa liderança por meio de ganhos permanentes de competitividade.
Gargalos logísticos e incertezas externas
Os próprios Estados Unidos impuseram novas tarifas a produtos brasileiros em 2025, sob justificativas trabalhistas e comerciais contestadas pelo governo brasileiro. Soma-se a isso um cenário internacional marcado por fatores como tensões no Estreito de Ormuz, alterações nas políticas de importação da China e medidas tributárias adotadas pela Índia até outubro de 2026. São elementos que influenciam o mercado global de fibras e que escapam ao controle do produtor rural.
Justamente por isso, a liderança alcançada precisa ser sustentada, cada vez mais, pela competitividade estrutural construída dentro das propriedades rurais e por um ambiente de negócios favorável. Enquanto o custo logístico do algodão baiano continuar dependendo, majoritariamente, do escoamento pelo Porto de Santos, a quase dois mil quilômetros de distância; enquanto o crédito rural seguir pressionado pelos elevados custos financeiros; e enquanto mudanças regulatórias e fiscais continuarem gerando insegurança ao planejamento das atividades produtivas, permaneceremos mais expostos a fatores que limitam nosso potencial competitivo.
Também é importante lembrar que a dinâmica do mercado internacional pode mudar rapidamente. A normalização das relações comerciais entre grandes economias, assim como a concorrência crescente das fibras sintéticas — hoje responsáveis por mais de 60% da oferta têxtil mundial –, reforçam a necessidade de o Brasil continuar investindo em diferenciação, inovação e sustentabilidade.
Sustentabilidade e investimento no futuro
Nesse aspecto, o setor já demonstra resultados concretos. Tecnologia, rastreabilidade e diferenciação socioambiental posicionam 100% das áreas auditadas da Bahia sob a certificação do Algodão Brasileiro Responsável (ABR) e colocam o estado entre as referências mundiais em cultivo regenerativo por meio do selo Regenagri. Esses atributos fortalecem a competitividade da fibra brasileira independentemente das oscilações conjunturais do comércio internacional.
Por isso, esse contexto representa uma oportunidade importante para acelerar investimentos em infraestrutura, segurança jurídica e competitividade. A aprovação do financiamento para o Porto Sul, a expectativa de retomada das obras da Ferrovia de Integração Oeste-Leste (FIOL) e o avanço da duplicação da BR-242 apontam na direção correta e precisam se traduzir, cada vez mais, em entregas concretas. Um país que se projeta ao mundo como potência agrícola deve oferecer uma infraestrutura e um ambiente regulatório compatíveis com a excelência de seus produtores.
O Brasil reúne todas as condições para consolidar sua liderança mundial nas exportações agrícolas. Para isso, é fundamental que a competitividade seja tratada como um projeto permanente de Estado. O Oeste baiano já demonstra, diariamente, que possui competência, tecnologia, sustentabilidade e visão de longo prazo para competir nos mercados mais exigentes do mundo. Com o avanço das condições estruturais necessárias, essa liderança poderá não apenas ser mantida, mas fortalecida nas próximas décadas.
*Alessandra Zanotto Costa é produtora rural de algodão e soja do oeste baiano, sócia-diretora no Grupo Zanotto. Filha de gaúchos que migraram do Sul do país para a Bahia, iniciou para valer sua história no agro em 2005 e consolida uma gestão centrada na sustentabilidade. Se posiciona como voz ativa no fortalecimento da participação feminina na liderança do setor e integra o comitê Women in Cotton, da International Cotton Association (ICA). Atualmente, é presidente da Associação Baiana dos Produtores de Algodão (Abapa) e do Fundo de Desenvolvimento do Algodão na Bahia (Fundeagro).
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