Cruzar a China é confrontar-se com o futuro, mas o formato desse amanhã depende de quem o vê. Recentemente, embarcamos nós duas, mãe e filha, com um grupo técnico, em uma jornada pelo país asiático. O que começou como uma imersão focada no setor produtivo e no agronegócio transformou-se em um profundo diálogo geracional sobre educação, desenvolvimento e projeto de país.
Olhamos para os mesmos cenários com repertórios e sensibilidades diferentes. Uma, com os olhos atentos a números, custos e oportunidades de mercado; outra, com o frescor da juventude, decifrando a cultura, a educação e as engrenagens do comportamento.
Em primeiro lugar, é impressionante a capacidade chinesa de agregar valor. Enquanto o Brasil se destaca como uma potência na produção e exportação de matéria-prima bruta, a China domina a logística, a transformação, a marca e a narrativa final no destino. Isso se revela nos detalhes do cotidiano, como nos trens-bala que “voam” rentes ao solo, nos enormes edifícios erguidos com tamanha velocidade, ou nos robôs, um toque futurista já bem presente para eles.
O tripé do desenvolvimento chinês
Contudo, ao longo dos dias, percebemos que a maior força desse “dragão” não reside na tecnologia isolada, mas em um tripé estruturante: educação de base, especialização técnica e planejamento de longo prazo. Na China, os objetivos de longo prazo não pareciam peças de apresentação.
A inovação que salta aos nossos olhos nos grandes centros é, na verdade, consequência de pessoas altamente preparadas para transformar conhecimento em resultado. Universidades, cientistas e engenheiros trabalham em simbiose direta com as indústrias e o campo.
Além dos números e indicadores de produtividade, também chamaram nossa atenção a disciplina acadêmica e a conexão dos jovens com o mercado de trabalho, com o conhecimento e com o futuro. Percebemos uma disciplina acadêmica acompanhada de um senso de propósito: estudar parecia significar não apenas avançar na própria formação, mas também preparar-se para contribuir com algo maior, entendendo o papel deles no futuro do país.
Fortalezas e desafios do campo brasileiro
Por outro lado, percebemos que a China não lidera em absolutamente tudo. No campo, ficou claro que tecnologia sozinha não garante eficiência. A estrutura fundiária chinesa, marcada por pequenas propriedades, limita ganhos de escala, mecanização e até o uso das tecnologias desenvolvidas pelo próprio país.
O Brasil, por outro lado, construiu uma agricultura tropical altamente produtiva, apoiada em escala, pesquisa, conhecimento agronômico e décadas de adaptação às nossas condições. Hoje, é benchmark internacional e atestado da nossa capacidade de empreender e vencer desafios.
O saldo dessa vivência não aponta para uma competição destrutiva, mas para a complementaridade. O Brasil não deve tentar copiar o modelo chinês. Nosso desafio é aprender com a capacidade deles de planejar e executar as próximas décadas, organizando e comunicando melhor as nossas próprias fortalezas.
A diplomacia e a agenda bilateral
É nesse contexto que a presença institucional brasileira ganha ainda mais relevância. A visita à Embaixada do Brasil em Pequim reforçou o papel da diplomacia, sob a coordenação do Itamaraty, na aproximação entre os dois países, não apenas pela ampliação dos laços comerciais, mas também pela construção de pontes de cooperação técnica, acadêmica e institucional.
Se a China reúne capital, tecnologia, logística e capacidade de investimento, enquanto o Brasil oferece produção, técnicas de produção agrícola avançadas, recursos naturais e vocação empreendedora, existe uma agenda bilateral muito mais sofisticada a ser construída, baseada na troca de conhecimento, na complementaridade e na geração de oportunidades para ambos os países.
Investimento em mentes e no futuro
Terminamos a viagem unidas na certeza de que o maior aprendizado foi enxergar o Brasil de uma nova perspectiva. A verdadeira transformação dos nossos setores produtivos – e isso não se aplica só ao agro, mas à mineração, construção civil, comércio etc., não virá apenas da compra de novas máquinas, mas do investimento nas mentes que vão operá-las.
A previsibilidade e a organização são muito valorizadas na China, um país de engenheiros. Mas no Brasil temos uma diversidade imensa de talentos, e esse ativo estratégico não pode ser menosprezado. E se queremos um país competitivo e sustentável, a resposta está na fusão dos nossos recursos com uma educação que prepare a nova geração para liderar, com a mesma confiança que vimos do outro lado do mundo.
*Letícia Jacintho é presidente da Associação De Olho no Material Escolar; conselheira permanente no Conselho de Educação da Federação das Indústrias de São Paulo (Consed/FIESP), integra também a Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG), é conselheira do Colégio Catamarã e do Núcleo Feminino do Agronegócio (NFA). Como administradora de empresas e produtora rural, à frente da Associação, é uma entusiasta da formulação de políticas públicas em educação como primordial para o desenvolvimento das novas gerações.
*Isabela Zamperlini Jacintho, 16 anos, é estudante do 2º ano do ensino médio.
Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião de Forbes Brasil e de seus editores.