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Forbes Mulher Agro: Quanto Custa Herdar uma Fazenda?

Patrimônio no campo não garante caixa: entenda por que a falta de liquidez na sucessão familiar pode forçar a venda de propriedades rurais

7 min

Parece contraditório. Não é. No campo, patrimônio e liquidez são coisas muito diferentes. Uma família pode receber terras, gado, máquinas e benfeitorias construídos ao longo de gerações e, justamente no momento da sucessão, descobrir que falta aquilo que a terra não oferece imediatamente: caixa.

Há impostos, advogados, cartórios, documentação e regularizações. E, enquanto tudo isso acontece, a fazenda não para. O gado continua comendo. A lavoura continua obedecendo ao calendário. Funcionários continuam recebendo. Insumos, energia, manutenção e impostos continuam vencendo. Herdar uma fazenda não significa apenas receber patrimônio. Significa estar financeiramente preparado para sustentá-lo.

O Brasil tem mais de cinco milhões de estabelecimentos agropecuários, segundo o último Censo Agropecuário completo do IBGE. O levantamento também mostra o envelhecimento de quem dirige os estabelecimentos rurais. Ou seja: sucessão não é uma discussão distante do agro brasileiro. É uma questão econômica que já está dentro da porteira.

A primeira conta

Quando alguém morre e deixa uma propriedade rural, uma das primeiras despesas relevantes da sucessão é o ITCMD, imposto estadual incidente sobre heranças e doações.

Como sua cobrança depende da legislação aplicável e das características de cada sucessão, não existe uma conta única que sirva para todas as famílias. Mas existe uma realidade comum: uma sucessão patrimonial relevante pode exigir liquidez relevante.

E o imposto é apenas uma parte da conta. Há honorários advocatícios, cartórios, registros, certidões, avaliações, eventual regularização documental e, principalmente, dinheiro para manter a propriedade funcionando enquanto a sucessão acontece.

É aí que aparece um dos grandes paradoxos do patrimônio rural: uma família pode herdar uma fazenda de enorme valor e não ter dinheiro disponível para pagar os custos de recebê-la e mantê-la. Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja “quanto vale a fazenda que vou herdar?”, mas outra: quanto preciso ter em liquidez para atravessar essa sucessão sem ser obrigado a vender patrimônio?

A terra vem acompanhada de documentos

No imóvel rural, a sucessão envolve muito mais do que trocar o nome do proprietário na matrícula. É preciso verificar a situação registral, cadastral, fiscal e ambiental da propriedade, além de contratos, arrendamentos, financiamentos, ônus e eventuais passivos.

O Certificado de Cadastro de Imóvel Rural (CCIR), por exemplo, é indispensável para a partilha do imóvel rural. Dependendo do caso, questões de georreferenciamento e de atualização dos cadastros também precisam ser resolvidas.

É justamente nesse momento que irregularidades acumuladas durante décadas podem aparecer: cadastros desatualizados, divergências de área, confrontações, contratos antigos ou pendências fiscais e ambientais. Cada problema encontrado pode significar mais tempo, mais profissionais e mais dinheiro.

O proprietário morreu. A fazenda, não. Para mim, este é um dos pontos mais importantes dessa discussão. Enquanto advogados, herdeiros, Fisco e cartórios resolvem a sucessão, a operação continua. Por isso, calcular apenas impostos e despesas jurídicas é um erro. É necessário calcular também quanto dinheiro será necessário para manter a propriedade funcionando durante a transição.

E aí surge a pergunta incômoda: se não houver liquidez, de onde virá o dinheiro? Venda de gado? Máquinas? Empréstimos? Outro imóvel? Ou será necessário vender parte da própria terra? A falta de liquidez transforma patrimônio em urgência. E urgência pode destruir valor.

E se houver briga?

Quando os herdeiros não concordam sobre venda, administração, avaliação, divisão do patrimônio, contratos, dívidas ou prestação de contas, a sucessão deixa de ser apenas patrimonial e passa a ser também judicial.

Entram custas, honorários, avaliações, perícias, assistentes técnicos, recursos e, muitas vezes, anos de discussão. Podem surgir ainda multas, juros e outros acréscimos quando obrigações não são cumpridas nos prazos aplicáveis. Não é possível afirmar que o litígio sempre dobra o custo da herança. Pode custar menos. Pode dobrar. Pode custar muito mais.

Porque existe um custo difícil de colocar numa planilha: o da deterioração de um negócio durante anos de conflito. Uma propriedade sem comando claro pode deixar de investir, perder eficiência, oportunidades e capacidade produtiva. Às vezes, o maior custo da briga não está no processo. Está na fazenda.

A reserva sucessória

Não existe um percentual universal de caixa que toda família rural deva manter. Cada propriedade tem atividade, estrutura, endividamento e dinâmica familiar diferentes. Mas todo produtor deveria conhecer o custo provável de transmissão e continuidade do seu próprio patrimônio. Eu começaria por uma conta simples:

Reserva sucessória = tributos estimados + despesas jurídicas e cartorárias + regularização documental + passivos conhecidos + capital para manter a operação + margem para contingências.

Isso não significa necessariamente deixar dinheiro parado em conta corrente. A liquidez pode ser planejada, com orientação especializada, por meio de ativos líquidos, seguros, investimentos e outros instrumentos jurídicos e financeiros adequados a cada família. O importante é que exista um plano.

Uma mudança recente que fala justamente de liquidez

Em agosto de 2026, o Conselho Nacional de Justiça alterou as regras do inventário extrajudicial para estabelecer que a lavratura da escritura pública de inventário e partilha não depende da comprovação do recolhimento prévio do ITCMD. O imposto continua devido conforme a legislação aplicável; o que mudou foi a exigência de comprovar seu pagamento antes da escritura.

A mudança chama atenção para um problema bastante concreto das sucessões: o patrimônio pode estar concentrado justamente nos bens transmitidos, enquanto os herdeiros não dispõem de caixa imediato. Existe patrimônio. Falta liquidez.

Se a sucessão acontecesse amanhã

Quem possui uma propriedade rural deveria conseguir responder: quanto vale realmente meu patrimônio? Quanto custaria transmiti-lo hoje? A documentação está regular? Existem passivos? Quanto custa manter a fazenda durante um ciclo operacional? Quem vai administrá-la? Meus herdeiros querem continuar no negócio? E existe liquidez suficiente para atravessar a sucessão sem vender patrimônio às pressas?

Planejamento sucessório não é simplesmente abrir uma holding. Pode envolver organização societária, doações, usufruto, testamento, seguros, investimentos, acordos familiares e outros instrumentos. Cada família exige uma estrutura própria e orientação jurídica, tributária, contábil e financeira.

Mas existe uma regra que vale como princípio: não deixe apenas patrimônio para a próxima geração. Deixe organização e liquidez. O produtor rural conhece o custo da arroba, da saca, do hectare, do adubo, da suplementação e da mão de obra. Talvez esteja na hora de conhecer também o custo de transmitir aquilo que levou uma vida inteira para construir. Se seus herdeiros recebessem a fazenda amanhã, teriam dinheiro para mantê-la, ou precisariam vender parte dela para conseguir pagar os custos da própria herança?

*Flávia Raucci Facchini é pecuarista e gestora da Agroalvorada, nas fazendas Alvorada, Fortaleza e São José, empresa familiar com atuação na criação de gado nelore, com foco na sustentabilidade e na gestão eficiente.

Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião de Forbes Brasil e de seus editores.

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