Sempre acreditei no poder das conexões. Ao longo da minha trajetória na indústria de alimentos, ficou cada vez mais claro que algumas das melhores oportunidades de inovação surgem quando conhecimentos e competências diferentes se encontram. Uma descoberta científica, isoladamente, não é inovação. Da mesma forma, uma tendência de consumo ou uma nova tecnologia só gera valor quando existe capacidade de transformá-la em uma solução viável, escalável e relevante para o mercado.
Esse é um dos grandes desafios e, ao mesmo tempo, uma das grandes oportunidades da agroindústria brasileira: conectar quem produz ciência, quem transforma conhecimento em escala e quem conhece o mercado.
Casos práticos no ecossistema de alimentos
Duas iniciativas que acompanhei recentemente ajudam a materializar esse movimento. Em agosto, o Instituto Mauá de Tecnologia inaugurou, em São Caetano do Sul, o Mauá Food Innovation Center, com um investimento de R$ 2 milhões em laboratórios, planta piloto e inteligência artificial para levar o produto da formulação ao escalonamento industrial, trocando o atendimento pontual por um ecossistema que acompanha o cliente da ideia à prateleira.
Já o Tropical Food Innovation Lab, sediado no Instituto de Tecnologia de Alimentos (ITAL), em Campinas, nasceu em 2023 de uma parceria público-privada voltada à inovação sustentável em alimentos e hoje reúne empresas e diferentes competências em um ecossistema colaborativo de inovação.
Tendências de consumo e a jornada “da pergunta ao mercado”
No último mês, o Tropical completou três anos com um painel sobre um dos temas mais discutidos hoje pela indústria de alimentos: os impactos dos medicamentos GLP-1 no comportamento do consumidor e no mercado de alimentos. A partir de uma pesquisa qualitativa realizada com consumidores usuários de GLP-1, foram apresentados insights sobre uma nova realidade de consumo, marcada por porções menores e pela busca por alimentos de alta densidade nutricional, ricos em proteínas e fibras.
Como resposta a esse cenário, o Tropical apresentou uma série de protótipos desenvolvidos para atender a essas novas necessidades: snacks salgados, pão de forma e panetone com proteínas, biscoito de aveia proteico com cobertura de chocolate e um risoto proteico, pensado como base versátil para preparos com diferentes sabores. Mais do que suprir demandas nutricionais, as soluções reforçaram uma mensagem central do evento: é preciso ser feliz na alimentação, unindo nutrição, sabor e experiência. É um exemplo direto de como uma transformação da sociedade gera uma pergunta, produz conhecimento e avança para a experimentação de novos produtos — da pergunta ao mercado.
Da pesquisa ao projeto: conhecimento e recursos para inovar
Em setembro de 2026, a Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (EMBRAPII), organização social que conecta empresas a instituições científicas e tecnológicas, e compartilha os custos de projetos de inovação por meio do aporte de recursos não reembolsáveis, alcançou R$ 9,06 bilhões em investimentos acumulados em pesquisa, desenvolvimento e inovação, com 4.458 projetos apoiados e 3.066 empresas atendidas desde 2013.
Mais do que a dimensão dos recursos, os dados evidenciam a força de um modelo que conecta desafios empresariais ao conhecimento científico e tecnológico disponível no país. Talvez a pergunta para os líderes da agroindústria já não seja apenas quanto a empresa investe em inovação, mas a quais redes de conhecimento ela está conectada.
E há recursos para impulsionar esse movimento. A Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), empresa pública federal de fomento à ciência, tecnologia e inovação, mantém aberta a chamada Mais Inovação Brasil: Rodada 2, das Cadeias Agroindustriais Sustentáveis, com R$ 300 milhões em recursos de subvenção econômica para o desenvolvimento de produtos ou processos inovadores.
Destinada a empresas, a iniciativa contempla temas como agricultura, agronegócio e foodtech, assim como estimula projetos desenvolvidos em parceria com instituições científicas e tecnológicas. As propostas podem ser submetidas em fluxo contínuo até 30 de setembro de 2026, às 18h (horário de Brasília), prazo que pode ser encerrado antes em caso de esgotamento dos recursos; vale confirmar a vigência diretamente no site da Finep antes de submeter um projeto.
Inovação acontece nas conexões
Ciência, financiamento e uma boa ideia não garantem, sozinhas, que uma inovação chegue ao mercado. Novos ingredientes, processos e aplicações podem depender de requisitos de segurança, comprovação científica, autorizações ou enquadramentos específicos. A capacidade de conectar pesquisa, regulação e mercado desde o início também determina o potencial de uma inovação se transformar em negócio.
Quando essas dimensões conversam desde as primeiras etapas, é possível avaliar caminhos, antecipar limitações e direcionar melhor os investimentos. A inovação mais eficiente não é necessariamente aquela que percorre mais rápido cada etapa, mas aquela que conecta as etapas certas desde o começo. É nessa lógica que se insere o propósito que temos construído na InnovaReg: aproximar indústria, academia, governo e outros atores do ecossistema, conectando inovação, necessidades do mercado e conformidade regulatória.
Para quem lidera empresas, isso amplia a própria perspectiva sobre inovação. Além de desenvolver novos produtos, tecnologias ou processos, inovar também significa saber onde buscar conhecimento, com quem desenvolver soluções e como articular os diferentes atores necessários para transformar conhecimento em valor para o mercado.
Em um cenário no qual nenhuma organização concentra sozinha todo o conhecimento necessário para inovar, saber construir essas conexões deixa de ser apenas uma competência institucional. Torna-se estratégia de negócios.
*Amanda Poldi é co-founder da InnovaReg consultoria, nutricionista, mestre em educação nas profissões de saúde e especialista em estratégia regulatória para alimentos, ingredientes e inovação. Atua há mais de 25 anos na interseção entre regulação, ciência, políticas públicas e negócios.
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