Mais do que uma pergunta, este título é uma provocação. Nasce de uma inquietação pessoal, mas encontra eco em uma reflexão que precisa ser coletiva: diante de um mundo atravessado por crises econômicas, sociais, culturais, ambientais e políticas, que futuro estamos semeando?
A pergunta ganha uma dimensão ainda maior quando se observa o lugar que ocupamos no ecossistema da produção de alimentos. Somos parte de uma cadeia formada por homens, mulheres, empresas, ciência e tecnologia que trabalham, todos os dias, para garantir aquilo que é essencial à vida: segurança alimentar em quantidade, qualidade e regularidade para uma população mundial que não para de crescer.
Os desafios da produção e o papel do Brasil
Mas produzir alimentos nunca foi uma tarefa simples. E, no cenário contemporâneo, os desafios se multiplicam. Custos elevados, margens cada vez mais estreitas, insegurança jurídica, barreiras comerciais e políticas públicas pouco eficientes impõem obstáculos a quem produz. A isso se somam tensões geopolíticas que frequentemente transformam comércio, recursos naturais, energia e alimentos em instrumentos de disputa.
Enquanto isso, a equação permanece inalterada: quanto maior a população, maior a necessidade de produzir alimentos. E é justamente nesse ponto que o Brasil assume uma posição estratégica.
Detentor de uma das agriculturas mais diversificadas, tecnificadas e produtivas do planeta, o país reúne condições singulares para ampliar sua contribuição à segurança alimentar global. Estudos recentes apontam que a agricultura brasileira está presente, direta ou indiretamente, em parcela significativa dos alimentos consumidos no mundo. Essa participação pode crescer, e muito, impulsionada pela ciência, pela inovação, pela expansão sustentável da produtividade e pelo uso cada vez mais eficiente dos recursos naturais.
O paradoxo está justamente aí: temos capacidade para produzir mais, mas ainda convivemos com entraves que limitam o pleno desenvolvimento desse potencial.
A tecnologia como meio, não como fim
E, nesse cenário, surge uma nova questão: que papel ocuparão as tecnologias que estão redesenhando o campo, a indústria, os serviços e a própria sociedade? Inteligência artificial, biotecnologia, automação, conectividade e ciência de dados podem ampliar a eficiência, reduzir desperdícios, democratizar o acesso ao conhecimento e tornar a produção de alimentos mais sustentável. Mas também podem aprofundar assimetrias, concentrar oportunidades e criar novos campos de disputa.
A tecnologia, portanto, não é um fim. É uma ferramenta. Seu impacto dependerá das escolhas que fizermos sobre como utilizá-la e, sobretudo, a serviço de que sociedade queremos colocá-la. Talvez seja justamente nesse ponto que diferentes setores precisem deixar de se enxergar como partes isoladas.
Agropecuária, indústria, comércio, logística, energia, transporte, ciência e tecnologia compartilham uma mesma engrenagem. Quando uma dessas estruturas perde força, todo o sistema sente. Quando avançam de forma coordenada, multiplicam-se as possibilidades de desenvolvimento.
A semente da cooperação para o futuro
É nesse contexto que a palavra cooperação ganha um significado ainda mais profundo. Talvez a semente que precisamos plantar neste momento não seja apenas uma nova tecnologia, uma nova cultura ou uma nova política. Talvez seja a semente da capacidade de construir consensos, de reconhecer diferenças sem transformá-las em barreiras e de compreender que segurança alimentar, desenvolvimento econômico e sustentabilidade não são agendas concorrentes. Pelo contrário, são dimensões de um mesmo projeto de futuro.
E é justamente nos períodos de maior adversidade que ciência e espiritualidade podem encontrar um ponto de convergência: a ciência oferecendo caminhos; a espiritualidade oferecendo propósito; e ambas alimentando valores como determinação, fé, solidariedade e resiliência.
Produzir alimentos para o mundo é mais do que uma atividade econômica. É uma responsabilidade civilizatória, e o Brasil tem recursos, conhecimento, biodiversidade, capacidade empresarial, produtores e instituições capazes de desempenhar um papel ainda mais relevante nessa missão.
Mas nenhuma vocação se realiza sozinha. Precisamos plantar hoje aquilo que desejamos colher amanhã: conhecimento em vez de desinformação; cooperação em vez de confronto; inovação em vez de resistência; responsabilidade em vez de imediatismo.
Porque, no fim, toda grande transformação começa como uma semente. A questão que permanece é: qual futuro estamos escolhendo plantar?
*Carminha Gatto Missio é produtora rural eleita entre as 100 mais influentes do Agro, bacharel em Direito, presidente do Instituto Agropecuário da Bahia (Iagro), vice-presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado da Bahia (Faeb), Conselheira Administrativa das Sementes Oilema, presidente da Comissão Estadual das Mulheres do Agro (Faeb Mulher).
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