Dirk Collins não atua no setor de café, propriamente dito. Trata-se de um lendário fotógrafo e cineasta de aventura com uma carreira que abrange três décadas. Isso não significa, no entanto, que ele não possa ajudar o consumidor a levar para casa alguns dos cafés mais raros do planeta. Na verdade, essa é apenas uma das muitas vantagens oferecidas pela Planet 5, empresa multifacetada de “luxo silencioso” que ele estabeleceu em 2024, em parte, para ajudar a financiar a preservação de montanhas.
Os cafés especiais, obtidos em algumas das regiões de altitude elevada mais difíceis de alcançar, funcionam como porta de entrada imediata para quem deseja aderir a essa jornada. O primeiro lote chega ao mercado este mês de setembro, embalado sob o rótulo The Everest Coffee Company.
A coleção Nepal consiste em um lote de origem única da propriedade Nuwa Estate, cultivado a 1.600 metros de altitude, sob a sombra do Monte Everest. O produto nunca esteve disponível nos EUA e oferece aos apreciadores uma torra rica, com notas de avelã e macadâmia. O pacote está à venda por US$ 65 (R$ 364,00). O fundador, contudo, planeja alcançar um público disposto a se engajar em uma causa mais ampla.

“Uma marca tradicional vende um produto e a relação geralmente termina no caixa. A Planet 5 constrói algo mais interconectado”, explica Collins sobre a empresa, que também comercializa obras de arte em edição limitada e expedições exclusivas para os cantos mais remotos do globo. “Ao adquirir o café, a arte ou participar de uma expedição, o cliente já investe na montanha de onde esse item se originou, de forma intencional ou não. Cada ação gera receita, introduz as pessoas a outra experiência da Planet 5 e, em última análise, apoia as populações e os locais no centro da iniciativa”.
No que tange ao café, a iniciativa demonstra oportunidade temporal. A Nuwa Estate fica em Nuwakot, um dos distritos diretamente afetados pelas inundações de agosto. As comunidades locais trabalham na reconstrução e, segundo a Planet 5, a abertura do mercado americano para esse café garante um fluxo de renda constante e expressivo para auxiliar nesse processo.
Confira a entrevista com Collins, que detalhou essas missões e entender como o café se estabelece como pilar fundamental de todo o empreendimento.
Entrevista com Dirk Collins
A sua carreira foi dedicada a documentar alguns dos locais mais selvagens do mundo por meio do cinema e da fotografia. O que o levou a decidir que este era o momento adequado para estruturar uma marca de estilo de vida em torno dessas experiências?
Há muito tempo busco maneiras de ampliar a proteção aos ambientes selvagens. Concluí que uma marca de estilo de vida oferece a oportunidade de realizar esse trabalho em maior escala. Após trinta anos apontando câmeras para as regiões mais remotas da Terra, percebi que, se antes uma imagem valia mais que mil palavras, hoje ela atrai dez mil passos. Cada local preservado paga um preço ao ser divulgado.
A Planet 5 surge como resposta para ajudar a conservar o que permanece intocado. Ao direcionar capital financeiro de volta às montanhas e às suas comunidades, oferecemos a melhor oportunidade de preservar os picos por meio do fortalecimento das populações locais. Não se trata de uma marca construída apenas ao redor das minhas vivências, mas de um negócio estruturado para garantir que esses locais e comunidades continuem existindo daqui a cem anos.
De que maneira essa estrutura funciona na prática?
Significa estabelecer um modelo econômico em que as aquisições e as vivências dos clientes injetem recursos de volta nas fazendas, nos guias, nas comunidades e nas paisagens que tornam tudo isso possível. Essa é a nossa visão de luxo silencioso. Não se trata de exclusividade por si só, mas de acessar algo excepcional sabendo que o recurso financeiro realiza um trabalho efetivo no local de origem.

O mercado já dispõe de diversas marcas de café premium. Por que o café se mostrou o ponto de partida ideal para contar a história da Planet 5?
Dirk Collins: “O café representa, talvez, o luxo mais democrático que existe. O consumo global atinge cerca de três bilhões de xícaras por dia, o que o torna um dos únicos produtos premium cujo ponto de entrada já está posto à mesa em todo o mundo. Trata-se também de algo profundamente pessoal. Cada pessoa mantém um ritual próprio: a forma de preparo, o momento do consumo, o significado daqueles poucos minutos antes que o dia se torne agitado. Além disso, o café e a arte sempre caminharam juntos. Em quase qualquer cafeteria há obras expostas nas paredes. Isso faz do café uma porta de entrada natural para todas as nossas outras atividades. Uma xícara de café consegue narrar uma história muito maior. Três bilhões de xícaras diárias constituem o maior mecanismo de preservação não explorado no planeta, e tudo começa com uma xícara no balcão”.
Quais aprendizados sobre a produção de café em alta altitude causaram surpresa e como a altitude molda o produto final?
Dirk Collins: “A altitude gera dois efeitos simultâneos: melhora a qualidade do café e torna cada etapa do cultivo mais complexa. A planta se beneficia, visto que as noites frias desaceleram o desenvolvimento e fazem o fruto permanecer na árvore por meses a mais do que nas terras baixas. O grão resulta mais denso, doce e complexo. A colheita por árvore é menor, porém a qualidade do produto é superior. Esse é o equilíbrio.
Todo o trabalho seguinte depende das pessoas. Nenhuma máquina opera em terrenos com essa inclinação e não há como utilizar caminhões. A colheita ocorre de forma manual e os frutos não amadurecem ao mesmo tempo, o que exige retornar às mesmas árvores quatro ou cinco vezes ao longo da safra para retirar apenas o que está pronto. Em seguida, os trabalhadores transportam as frutas morro abaixo nas costas, e o despolpamento precisa ocorrer no mesmo dia para não perder qualidade. A secagem também impõe desafios, em razão das nuvens que chegam todas as tardes, exigindo cobrir e descobrir os terreiros manualmente, dia após dia.
São pequenas propriedades familiares, com poucos hectares (1 hectare equivale a 2,47 acres), quase nenhum equipamento, uma colheita por ano e uma margem estreita para acertar. Se o tempo muda, não há segunda chance até o ano seguinte. Por isso, quando se fala em café de altitude apenas como nota de sabor, essa é só metade da história. A montanha entrega o grão; as famílias fazem todo o resto”.
Quem é a família responsável por essa produção inaugural?
Dirk Collins: “O nosso café principal no Nepal é cultivado por Tashi Tenzing. O avô dele alcançou o topo do Everest com [Sir Edmund] Hillary, e Tashi trocou o alpinismo pelo cultivo de café nas altas altitudes daqueles mesmos vales. O café dele figura entre os melhores do mundo e a propriedade funciona como um motor econômico que preserva terras remotas, meios de subsistência e comunidades intactas.
As receitas do café financiam escolas, postos de saúde, oportunidades econômicas e corredores de vida selvagem. O café direciona recursos para as regiões mais altas e frágeis da Terra com mais regularidade do que a ajuda humanitária, o turismo ou a filantropia jamais conseguiram. Ao compreender esse processo, percebe-se que a iniciativa vai além de uma empresa de café”.
Caso a Planet 5 alcance um sucesso superior às expectativas, qual impacto duradouro espera deixar nas comunidades e nos ambientes de montanha?
Dirk Collins: “Três pontos: comunidades mais fortes, montanhas preservadas em seu estado selvagem e pessoas atuando como exploradoras em vez de meras espectadoras. O objetivo é que a Planet 5 sirva de prova de que é possível construir um negócio real e deixar um local em condições melhores do que foi encontrado. Essas metas não são opostas, e as empresas relevantes nos próximos vinte anos precisarão atender a ambos os propósitos”.
*Reportagem publicada originalmente em Forbes EUA